Os primórdios da Rede Social – Folhetim Brasil 2014 – Capítulo 3

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Os cinco amigos, cada um no seu bólido, aceleraram rumo ao Clube das Águas. Nome um tanto despretensioso para o local que pretende reunir a comunidade dos maiores ricaços brasileiros.

Mas a associação ficou no meio do caminho. Não conseguindo atrair a presença dos donos das maiores fortunas do país, se contentou em receber de braços abertos os milionários intermediários com sede de reconhecimento social.

Mais uma vez os carrões tiveram de se contentar com espaços de 10 a30 metros para desenvolver torque, dado o permanente congestionamento paulistano. Passadas quase duas horas, os rapazes atravessaram a guarita fortemente protegida do Clube das Águas e respiraram o seu ar de liberdade dentro dos altos muros e centenas de câmaras de vigilância do local.

– Certo, por onde começamos?

– O que vocês acham de tomar um espumante no sushi bar?

– Mauritênio, estamos aqui em missão. Precisamos logo desenvolver nossa rede social.

– Mas é isso mesmo! Conhece algum lugar melhor para começar? As gatas da academia estão sempre por lá… e eu estou com fome.

– É, um lanchinho até que viria a calhar.

Assim, os cinco Maurícios foram, lado a lado, na direção do sushi bar e sentaram-se à mesa 4, com atendimento de garçonete exclusivo.

– Meu, demos a maior sorte. Olhem as gatas da mesa daquele lado. Alguém conhece elas?

– Ô Mauricião, aquela é a irmã do Matogrosso. E o cara fica na maior invocação quando xavecam ela.

– Ih, que bobeira.

– Vai encarar?

– Tô fora, meu! O cara vive para brigar. Semana passada ele pegou três em um só dia.

Mas já era tarde, Rita havia reparado no olhar de Mauricião e se agradou do rapaz e seu jeito meio almofadinha. Escreveu o número de seu telefone em um papel e mandou o garçom da mesa entregar para o rapaz.

Ao reparar na manobra, Mauricinho ergueu o copo de espumante e comemorou o sucesso do amigo.

– Estou dizendo, nós os Maurícios estamos ficando por cima de novo.

– É fria colega. Encarando a garota vou ter que enfrentar o Matogrosso. Sou um Maurício morto!

– Vamos dar um jeito nisso. Talvez aquele brutamontes de fazenda possa nos ser útil. Vamos colocar ele na linha de frente dos nossos Rolex.

– Quem garante que ele vai topar?

– Garantindo pancadaria com os suburbanos vai ser irresistível para ele.

– É, pode ser…

Enquanto Mauricinho, Mauricião e Mauritênio conversavam sobre o assunto, Mauricênio não conseguia tirar os olhos da garçonete que servia a mesa e Mauricélio estava fixado na tela da televisão para conferir se o tão falado beijo gay iria realmente acontecer na novela.

Ferdinanda, ao final do dia, já tinha articulado as manifestações contra a Copa do Mundo. O relatório estava pronto para Vicentinho.

– São Paulo está ok. Deveremos ter pelo menos 5 mil manifestantes no Centro; em Quixeramobim o teu primo disse que iria cuidar de tudo,  mas até o momento tivemos apenas 14 confirmações.

– E em Porto Alegre?

– Lá está bem problemático. O pessoal que quer ônibus mais barato saiu na frente com movimentos e tem a greve dos motoristas. E os nossos contatos de lá estão se recusando a sair de perto dos ar condicionados. Dizem que a temperatura no Rio Grande do Sul está passando dos 40º.

– Vamos concentrar nossos esforços em São Paulo, então. Mas vamos deixar bem claro que o nosso movimento é contra o futebol, que impede a construção de um Brasil melhor.

Ferdinanda suspirou e pegou a bolsa.

– Posso ir agora, Seu Vicentinho.

– Sim, até amanhã às 9 horas em ponto.

– Mas nessa hora tenho que estar no escritório do Ministério.

– Deixa que eu falo com a mamãe para te dispensar.

– Mas tenho que entregar um relatório importante para a reunião com o Secretário nacional e…

– Sem desculpas. Tudo pelo movimento! Já disse que a mamãe vai resolver.

A loira saiu mordendo os lábios. O pior de tudo é que Vicentinho só acordava depois das 13:30 horas. E ela teria que ficar esperando todo o tempo para dar andamento às palhaçadas daquele  babacão.

Já perto de casa, ela concluiu que podia ir para o Ministério, sim. Afinal, ele nem ficaria sabendo. E normalmente com o Secretário Nacional dava as caras, a Diretora Regional – a Mamãe – dava um jeito de viajar ao interior para evitar encontrar o desafeto.

José Lopes estava encerrando o primeiro dia de trabalho.

Ao sair do reformatório na direção do Hotel Posseibom, dentro do carro de transporte estava o uniforme de encanador. Foi constrangedor trocar de roupa em trânsito, sendo seguido por viaturas de várias redes de televisão que não podiam perder a notícia.

O momento mais constrangedor do dia havia sido na entrada do hotel. Os câmaras todos focando nele, rodeado de microfones, os quais Lopes ignorava com facilidade.

Mas a experiência de dezenas de anos militando e enfrentando as situações mais inusitadas foram incapazes de lhe fazer conter o espanto ao ver seu chefe, Francisnóico, recebê-lo no hall de entrada com o rosto escondido por uma jaqueta jeans.

Foi um deleite jornalístico. Um dos jornais publicou na  a foto de José Lopes com uma chave de cano e o seu chefe oculto pela jaqueta, com a seguinte manchete: “Lopes e seu Primeiro Emprego… Ou o Misterioso Mascarado Entrando pelo Cano”. Mais um deboche global…

Gaguejando, Francisnóico deu a primeira missão ao novo empregado: arrumar uns vazamentos no subterrâneo do hotel.

Trabalhar de verdade não era o objetivo do emprego, mas José Lopes sabia que nos primeiros dias isso teria que fazer de conta. Então, fingindo ignorar as câmaras desceu pelo elevador de serviço ao subsolo. Certamente a inteligência da Organização deveria ter providenciado um agente oculto para fazer o serviço no lugar dele.

Entretanto, ao chegar ao local dos vazamentos, nada de ajuda.

Estavam a sós ele, a pesada chave inglesa e dezenas de canos pingando e formando poças no chão. Sem saber o que fazer, José nada fez. Encostou-se em um canto e esperou o tempo passar. O celular sem sinal o impediu de ligar para algum companheiro, ver notícias na internet, ou mesmo de jogar Candy Crush o resto do dia.

Ao finalizar o expediente, o calor abafado daquele subsolo deixou José Lopes empapado de suor. O problema dos vazamentos seria resolvido no dia seguinte, junto com o agente que seria exigido para a tarefa. Mas a aparência molhada viria a calhar. Ao sair do hotel, parecia que o prisioneiro tinha cumprido uma dura jornada de trabalho.

Bernardo preparava-se para sair. A noite dormida na repartição até não seria tão ruim caso o ar condicionado do andar permanecesse ligado. Seu maior desejo era tirar logo a roupa usada por dois dias seguidos e tomar um longo e demorado banho.

Já na espera do elevador, vem Nelci correndo.

– Seu Bernardo, Seu Bernardo. O Chefe Maior no telefone.

O gestor respirou fundo. Será que algo saíra do script? Ao atender o telefone, a voz rouca e irada do patrão antecipava alguma bomba.

Bernardo só conseguiu sentar, respirar fundo e esperar pela encrenca.

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Autor: Eduardo Starosta –

Folhetim Brasil retrata o dia-a-dia da vida de alguns personagens (alguns inspirados em gente de verdade) em 2014, tangenciando os principais fatos de nosso país. Pode-se falar em algo próximo a um diário histórico com fantasia.

Originalmente, a primeira edição de Folhetim Brasil foi publicado pela Revista Digital em 2007. Agora, em 2014 estamos iniciando nova aventura em capítulos semanais, de forma a ficção acompanhar e se associar à realidade nacional no momento em que escândalos, eventos e notícias são deglutidos pela opinião pública.

O que acontecerá nos próximos capítulos? Isso ninguém, nem o próprio autor, sabe. Tudo dependerá do que acontecer nesse nosso país a cada semana. Com os rolezinhos, eleições e o mosaico da politica nacional podemos esperar qualquer coisa, menos monotonia.

Uma boa leitura e até o próximo capítulo, na edição 739 da Revista Digital de 28 de fevereiro.

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