Os contos nada comuns de Alice Munro

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Natural que, quando alguém ganhe o Nobel de Literatura, editores de todo o mundo corram atrás de suas principais obras, se o autor não for conhecido em seus países. O Brasil está entre eles, no caso da canadense Alice Munro, de 82 anos, que levou o cobiçado prêmio no ano passado. Por coincidência, poucos meses antes de sua escolha, a Companhia das Letras publicou “O Amor de Uma Boa Mulher”, lançado originalmente em 1998. Até então, somente a Globo Livros havia lançado dela “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento” (2001), que ganhou reedição no fim de 2013. Agora, sai “Vida Querida”, mais um volume traduzido para o português dessa autora especializada em histórias curtas – o que causou certa surpresa, pois o Nobel costuma ir para romancistas.

A exigência do leitor e da crítica nesses casos, claro, aumenta, e as comparações se tornam inevitáveis. Por que não escolheram, por exemplo, a americana Paula Fox, que escreveu romances brilhantes sobre o cotidiano feminino? Bom, o jeito é ler o que Alice Munro escreveu nessa seleção e tentar encontrar uma resposta para o supostamente exigente comitê do prêmio, que se divide quase sempre entre o conjunto da obra e alguém que tenha feito um livro de fato excepcional, como parece ter sido o caso, em 1982, de Gabriel García Márquez, autor de “Cem Anos de Solidão”. Os 14 contos de “Vida Querida”, entretanto, não deixam dúvidas sobre seu merecimento.

Suas histórias falam das relações entre pessoas comuns, cujas tramas giram em torno de mulheres nem sempre entusiasmadas com a vida, marcadas mais por inseguranças, perdas, desencantos, desalentos, melancolia, o desafio de encarar os erros e as falhas humanas, que, no entanto, demonstram forças para seguir em frente.

Em todas as narrativas, há sempre uma ruptura, um acontecimento fora do comum ou inesperado, como uma viagem de trem, a professora que vai lecionar num hospital infantil durante a guerra, a bilheteira do cinema que desaparece sem deixar vestígios. Embora explore um universo tão familiar a si mesma, o feminino, ela escreve para ambos os sexos, leitores de qualquer idade. Interessam a ela mais o dia a dia, os relacionamentos, o microcosmo em que todos se envolvem em suas vidas tão particulares – dentro de uma casa, no ambiente de trabalho etc.

Alice Munro segue a tradição de mestres do conto como Katherine Anne Porter (1890-1980), Flannery O’Connor (1925-1964), Carson McCullers (1917-1967) e o brilhante Raymond Carver (1938-1988). Eles ficaram conhecidos por escrever sobre tipos anônimos que bem poderiam ser seus leitores, com ênfase nas relações de casais, seus conflitos e relações extraconjugais, com um tom existencialista como pano de fundo. Nesse sentido, do mesmo modo que Paula Fox, a canadense se mostra capaz de transformar uma desavença entre marido e mulher no fim de semana em uma história arrebatadora.

Os últimos quatro textos do livro – “O Olho”, “Noite”, “Vozes” e “Vida Querida” – não são exatamente contos, mas narrativas sobre fragmentos de sua vida, confessadamente autobiográficos. Mesmo assim, os temas são muito próximos das situações e personagens da sua escrita ficcional. Nessas histórias, ela lembra uma bela prostituta que viu em um baile, os conflitos surdos em casa, as insolências e os castigos maternos, o aparecimento dos primeiros sintomas de Parkinson na mãe, o fracasso profissional do pai.

Em meio século de carreira, Alice Munro estabeleceu para si uma fórmula de construção narrativa e um estilo refinado de contar histórias em contos, só que com textos mais longos, superiores a 20 páginas, que não chegam, porém, ao formato da novela ou romance. Esse esquema permite desenvolver melhor os personagens e aprofundar-se em sua personalidade, qualidades fundamentais para a sua indicação.

O que dificulta a avaliação de um livro de contos é a irregularidade da qualidade dos textos. Isso acontece até mesmo com quem ganha um Nobel. Não é aqui o caso.

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Fonte: Gonçalo Junior / Valor Econômico

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