Apagão: estamos mesmo à beira de um novo racionamento de energia?

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

Para consultoria PSR, a chance bateu os 18,5%; reservatórios atingiram o menor patamar desde 2001

Por Infomoney

cidade-energia-450A “segurança energética” brasileira é um assunto que perdura gerações de debate: a matriz é altamente diversificada, mas ainda depende fortemente da geração hidrelétrica, correspondente por cerca de 75% de toda a energia consumida no Brasil. Se não chove, os reservatórios diminuem e a possibilidade de que se falte energia no País cresce  – a despeito da existência de um “sistema de reservas”.

Em fevereiro, a ameaça de um racionamento se tornou bastante real – para a consultoria PSR, a chance é de 18,5%. O nível de reservatórios no sistema Sudeste/Centro-Oeste, o principal do país, caiu para 35,4%, o menor nível de 2001 – ano em que tivemos o último racionamento, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso. Em 2013, os reservatórios também tiveram uma baixa significativa e o Brasil se viu a beira de uma crise de falta de energia, mas as chuvas vieram e o racionamento foi evitado.

Refletida em preços, a crise do ano passado foi até mais branda que a deste ano. No auge da crise ano passado, o preço da energia no mercado livre à vista bateu R$ 413,95 – o maior patamar desde janeiro de 2008. Em fevereiro deste ano, o preço bateu R$ 822,83, 98,78% acima do preço da máxima do ano passado. Comparado com janeiro de 2012, apenas dois anos atrás, uma alta astronômico de 3.455,88%.Ano passado, o governo veio a público exaltar os avanços no setor que impediram que houvesse um racionamento no ano passado, com a entrada em operação de várias novas usinas termelétricas. Foram, de fato, muitos avanços nos últimos anos – acompanhada de um crescimento no consumo de energia –, mas não significa que nos livramos dessa possibilidade.

Mesmo com todas as perspectivas negativas, o CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) disse acreditar que o sistema elétrico brasileiro opera com folga e afirmou que, “a não ser que ocorra uma série de vazões piores do que as já registradas, evento de baixíssima probabilidade, não são visualizadas dificuldades no suprimento de energia no país em 2014″. Eles destacaram que o sistema tem ainda uma sobra cerca de 9% da carga prevista, mesmo com um déficit de 5% na produção.

Clima não colaborou

A falta de chuvas foi extremamente atípica neste verão, bastante seco – algo que não ocorria há décadas, colaborando para a queda no nível de reservatórios. Em 2014, um “bloqueio atmosférico” formado por uma massa de ar quente e seca impediu o avanço das frentes frias, que causam as chuvas. Não é um fenômeno incomum, mas geralmente acontece no meio do oceano. Por conta disso, choveu muito menos do que o registrado em janeiro de 1953, na pior seca da história desde que as medições começaram.

Com esse cenário, as termelétricas precisaram ser ativadas e nem mesmo elas estão conseguindo suprir a demanda. É a operação delas que tem elevado o preço de energia à vista no Brasil – já que esse é um tipo de geração de energia muito mais caro do que o hidrelétrico. Edson Lobão, ministro de Minas e Energia, mostrou confiança que o sistema termoelétrico deverá resolver o problema – mas não descartou a possibilidade de um racionamento.

O governo anda considerando usar os recursos da CDE (Conta de Desenvolvimento Energético) para subsidiar as contas de energia e eliminar o déficit que tem se criado. Guido Mantega, ministro da Fazenda, porém, disse que ainda não há definição sobre o tema. “Ainda não temos definições porque não sabemos ainda qual o quadro que vai permanecer, se vai chover ou não, se vai melhorar ou não. Se vamos ou não colocar recursos e se vai ser repassado para as tarifas ainda não está definido e não há razão para que seja definido agora, será definido tão logo a situação fique mais clara”, destaca.

Falta de energia e problemas na linha

Existe uma diferença entre “apagão” e “racionamento”, dois termos que atualmente são usados para designar o mesmo problema. Um problema de racionamento é basicamente um problema de geração, enquanto o apagão é gerado na transmissão. O primeiro é causado pela produção de energia abaixo do que é demandada, enquanto o segundo é resultado de uma demanda acima do que as linhas de transmissão podem aguentar.

O problema é que a ausência de chuvas cria outro fator climático que eleva a demanda por energia: calor. Janeiro e fevereiro foram alguns dos meses mais quentes dos últimos anos no sudeste brasileiro e a demanda por energia foi elevada – muito por conta da necessidade de manter o clima fresco através do ar condicionado, um dos eletrodomésticos que mais gastam energia.

No apagão que ocorreu no início do mês, no dia 4, houve um pico de uso de energia poucos minutos antes da interrupção da transmissão de energia – uma clara demonstração de que as linhas não aguentaram a demanda. São dois problemas energéticos que se cruzam neste momento – mas que não tem relação entre si que não seja a causa climática. Isso é uma dor de cabeça a mais, já que ambos problemas demandam soluções diferentes.

Não é só energia

Válido lembrar que a falta de chuvas não atingem apenas a produção de energia do país: são problemas também para a produção agrícola, de gado e para o sistema de saneamento. A Sabesp, estatal de saneamento de São Paulo, é uma das afetadas e prometeu um desconto de 30% para os consumidores do sistema Cantareira – que atende boa parte da região metropolitana de São Paulo, caso eles apresentassem uma redução de 20% em suas contas.

A Sabesp também alterou o abastecimento na zona leste da capital, onde possui 1,6 milhão de consumidores. Anteriormente abastecida pelo Sistema Cantareira, a região agora tem bombeado água do Alto Tietê. Mesmo com esses problemas, Geraldo Alckmin, governador do estado, disse acreditar que não haverá racionamento.

Ranking

O Brasil ocupa o 11º lugar no ranking de custo de energia elétrica para a indústria entre 28 países. Segundo um levantamento realizado pela Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), o custo médio do setor com energia elétrica é R$ 292,7 por megawatt-hora. O valor do custo brasileiro está acima do valor médio dos países analisados, que é de R$ 269,07, ou seja 8,8% a mais. Na comparação com o custo dos Estados Unidos (R$ 126,16), a indústria brasileira tem energia 132% mais cara. A Índia é o país com maior custo médio de energia, com R$ 630,92 por megawatt-hora. Em seguida aparecem a Itália (R$ 502,52), Cingapura (R$ 460,25).Já na outra ponta da lista, com o custo médio de energia mais barata estão: Argentina (R$ 57,6 por megawatt-hora), Paraguai (R$ 97,8 por megawatt-hora) e Equador (R$ 112,2 por megawatt-hora).


Sobre o custo médio do Brasil de energia, a Firjan explica que a desoneração fiscal do governo federal e o processo de renovação das concessões provocaram queda efetiva no custo da energia, mas os reajustes das distribuidoras e o acionamento das térmicas já absorveram parte da redução. “O custo médio da energia para a indústria no País caiu 20,8% entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013 (de R$ 332,23 por MWh para R$ 263 em janeiro deste ano). No entanto, apesar da redução de encargos e tributos, o custo da energia voltou a subir, atingindo média de R$ 292,16 por MWh no mês de novembro. Um aumento de 11,1%). Para o presidente da Firjan, Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, o Brasil avançou, mas reforça que a redução do custo da energia precisa continuar em debate, principalmente nas esferas estaduais. “O peso dos impostos, em especial do ICMS, encarece muito a energia e a produção da indústria, dilapidando sua competitividade. O governo federal foi corajoso, demonstrou que é possível reduzir o custo deste insumo. Agora é a vez de os estados avançarem nesta questão” ressalta.

Estados

Na análise das tarifas praticadas por todas as 63 distribuidoras brasileiras no mercado cativo, onde estão 94,4% das indústrias do país, aredução da tarifa variou de 18,50% a 25,10%, sendo a maior queda no Piauí e a menor, no Mato Grosso do Sul. De acordo com os dados mais recentes, de novembro, o Amapá apresenta o menor custo de energia do país, de apenas R$ 71,37 por MWh, quase 70% abaixo da média nacional, mas é considerado um caso à parte porque a distribuidora do estado passa por um processo de intervenção. Em seguida, aparece Roraima, com custo de energia a R$ 229,39 por MWh para as indústrias do estado. O custo mais alto do país é de Tocantins, com tarifa de R$ 403,91. O Rio de Janeiro ocupa o 5º lugar entre as tarifas mais caras do Brasil: R$ 343,45. São Paulo está na 18ª posição, com preço mais competitivo, de R$ 273,05, mas ainda está atrás do Rio Grande do Sul (R$ 266,49), Bahia (R$ 256,11) e Distrito Federal (R$ 248,98).

Originalmente publicado no site da Revista Amanhã.

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone