Ah, a inveja!

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

 

inveja

Antonio Salieri, velho, abatido, dirigindo-se até a sua cama para deitar, faz um solilóquio inicial

Ah, a inveja… Brota de que órgão do nosso corpo esse sentimento viscoso e gosmento? Não creio que o mais abnegado dos praticantes da ciência e da medicina saiba nos responder ao certo. O coração já é por demais bombeado por todo tipo de artérias emaranhadas e amores difíceis… Prefiro acreditar que bastaria um mero jato de sangue bom para expulsar dali qualquer cancro modorrento como a inveja… O fígado? Também não. O fígado é fábrica de bile: vive ocupado em depurar a mais variada gama de líquidos diabólicos que nos inebriam desde a mais tenra idade. Que ilusão infeliz de que nos salvará de nossas ameaças mais etílicas… O estômago? Não: a inveja, ácida, não se dissolve nem com suco gástrico. É tão corrosiva como se fosse abrindo crateras estéreis na superfície da vida, uma estrada esburacada de insatisfação e de incompletude… Pulmões? Talvez, pois me falta ar toda vez que cobiço o que não tenho… Intestino? Pode ser também, já que a inveja, delgada, se enrosca e se enovela em mim, cada vez mais fétida… Ao menos se eu não tivesse nem olhos nem ouvidos, para ficar pouco exposto a esse sentimento torpe… Quem sabe se eu mesmo me arrancar as pupilas agora mesmo e sangrar meus tímpanos, como nos arroubos dos personagens míticos da velha Grécia, sempre guiados pelas forças da natureza… Mas cegos e surdos não invejam justamente os que têm olhos e ouvidos? Aaaaaaaai de mim! Ah, a inveja que me apodrece os ossos… Se fosse concreta, ela teria o gosto e a consistência daquelas poções fumegantes de bruxas encarquilhadas… Um caldeirão no fogo, unhas de felino, asas de morcego, ranho de hipopótamo, merda de elefante… Oh, deuses do além, preciso com urgência de três bruxas de rostos desfigurados e de malignas imprecações! Venham sem demora! Venham, moiras! Venham, górgonas! Triturem meu cérebro em vida, oh, vermes insensíveis, para que meus pensamentos fiquem ocos de todo conteúdo. Para que eu não perca mais um só minuto tentando compreender e compreender e compreender o que parece não comportar nenhuma explicação plausível… Querer ser o outro. Não há melhor exemplo do autoengano que assola a humanidade. Pois se Deus assim nos fez, Deus assim nos quer. Ou não? Somos o Seu’ exército de soldadinhos de chumbo, cada qual diferente do outro: nunca dois serão iguais, para deleite de um Deus cruel que nos cria díspares justamente para que desejemos o que não temos… Pois é isso! É de Deus que brota a inveja! É desse Deus que implantam dentro de nós, desse carrasco que instalam em nossas entranhas, é Dele que nasce a inveja! E, por ironia do criador, é para Ele próprio que ela se volta, pois quem é que não inveja Deus?! Mozart é Deus, estás me ouvindo, Wolfgang? Antonio Salieri quer ser o Deus Mozart, estás me ouvindo ainda, Wolfgang Amadeus?

 Este é o trecho inicial da peça “Um Réquiem para Antonio”, que estreou em janeiro no teatro Tucarena (São Paulo), em montagem dirigida por Gabriel Villela. Elias Andreato faz o papel do compositor italiano Antonio Salieri (1750-1825), e Claudio Fontana, o do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-91), no texto que recupera o tema da relação mítica de inveja entre os dois músicos. A peça se passa em uma noite qualquer do ano de 1825, ano da morte do compositor italiano Antonio Salieri. Um quarto amplo. Quando a peça começa, Salieri está falando sozinho, divagando de forma meio débil e delirante. Wolfgang Amadeus Mozart está ao piano e sua presença ainda não é percebida por Salieri. Toda a peça se passa dentro da cabeça de Antonio Salieri.

Matéria de Dib Carneiro Neto publicada na Folha de S.Paulo.

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone