Adeus ao Arnesto – Folhetim Brasil 2014 – Capítulo 4

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A voz rouca do Chefe Maior ao telefone…

– Bernardo, vai logo resolvendo o problema do Lopes lá no trampo dele.

– Problema? Não está tudo perfeito com ele?

– Idiota! Por acaso você não acompanhou o meu protegido pelas escutas.

Já fazia tanto tempo que esse projeto de evasão dos reformatórios através de empregos fajutos estava arquivado, sem uso que  Bernardo tinha esquecido das escutas plantadas nos estabelecimentos selecionados. Mas a indagação do Chefe Maior o fez lembrar rapidinho e resolveu tentar enrolar o patrão.

– Claro que acompanhei, mas  confesso que não encontrei problemas difíceis para resolver.

– É mesmo? Então o encanador quente já está a caminho do hotel?

– Sim, sim, claro Chefe. A essas horas ele deve estar chegando por lá.

Enquanto falava ao telefone, Bernardo montava o aparelho de recepção das escutas e buscava o manual para saber com ouvir o áudio gravado.

– E mais outras coisas: o Danúbio precisa de umas mordomias no reformatório, enquanto não dá jeito de liberar ele pro trampo; o João Pedro Bomba vai entrar no esquema; e o Zé Paraguai não tá conseguindo entrar de atestado.

– Certo Chefe, vou providenciar tudo.

O outro lado da linha não se despediu, apenas desligou o aparelho telefônico. O rouco estava especialmente interessado – teoricamente, é claro – no andamento dos embargos infringentes dos condenados no Mensalão. A troca de dois ministros do Supremo poderia reverter grande parte das condenações.

Bernardo, por seu lado, suspirou e preparou o espírito para a segunda noite consecutiva na repartição. Ligou para tele-entregas pedindo pizza e repelente de insetos.

Nelci se despediu com um ar impertinente. O gestor não sabia que a morena costumava ficar pelo escritório até mais tarde… Ao bater a porta, ela deixou atrás de si um perfume misturado com suor que despertou Bernardo de suas reflexões de como organizar o trabalho da noite.

 

 

O dia dos Maurícios estava movimentado. Mauricião ocupava quase todo o seu tempo atendendo as ligações de Rita, irmã do temido Matogrosso. O rapaz não estava convencido de que o brutamontes autor de surras antológicas nas redondezas do Clube das Águas fosse aderir à causa dos Rolex. E ainda mais improvável era que tal adesão o franqueasse para encontros com Rita.

– Mas ela é uma gata, pensava.

Mas enfim, estava tudo pronto para o primeiro Rolex no Brás. O plano era muito simples: o importante era apresentar os Maurícios ao mundo do subúrbio e mesmo que o Brás fosse um bairro central de São Paulo, grande parte da sua população aderia aos tais dos rolezinhos.

Para a primeira demonstração de força, andar pelas ruas do local em alta velocidade, buzinadas e cavalos de pau deveria bastar. A ideia de partir para a briga direta teria de ser adiada. Nas academias de lutas, cada um dos rapazes – eles resolveram treinar artes marciais para a missão – levava um tipo de escoriação. Mauricião tinha o dedo minguinho torcido e engessado; Mauritênio um corte no supercílio; Mauricinho torceu o pé errando um golpe; Mauricênio cultivava um bonito galo na cabeça; e finalmente Mauricélio não estava conseguindo sentar-se direito, mas este não tinha ido na aula de luta.

E lá se foram os Cinco Maurícios cumprir a missão. O trânsito estava tranquilo, mas São Paulo estava estranhamente tristonha naquela quarta-feira.

Logo chegaram no Brás e não encontraram ninguém. Eles ficaram com uma baita duma raiva, dizendo “da outra veiz nóis num vai mais”.

O responsável pela frustração foi o famoso Arnesto (da música de Adoniram Barbosa). Afinal, o violonista deixava o mundo dos vivos. E para enganar os Maurícios, ele não estava no Brás, mas sim na Mooca, onde residiu nos últimos anos de vida.

Porém o Brás em peso foi se despedir de seu personagem mais querido. E o bairro ficou vazio. Vazio mesmo!

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Autor: Eduardo Starosta –

Folhetim Brasil retrata o dia-a-dia da vida de alguns personagens (alguns inspirados em gente de verdade) em 2014, tangenciando os principais fatos de nosso país. Pode-se falar em algo próximo a um diário histórico com fantasia.

Originalmente, a primeira edição de Folhetim Brasil foi publicado pela Revista Digital em 2007. Agora, em 2014 estamos iniciando nova aventura em capítulos semanais, de forma a ficção acompanhar e se associar à realidade nacional no momento em que escândalos, eventos e notícias são deglutidos pela opinião pública.

O que acontecerá nos próximos capítulos? Isso ninguém, nem o próprio autor, sabe. Tudo dependerá do que acontecer nesse nosso país a cada semana. Com eleições e o mosaico da politica nacional podemos esperar qualquer coisa, menos monotonia.

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