O amor de Tristão e Isolda

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Wagner baseou-se na lenda celta de Tristão e Isolda para escrever sua obra seminal. Ele usou como fonte Tristan und Isôt, uma coletânea de vinte mil poemas escritos por Gottfried von Strassbourg  no começo do século XIII.

Existem outras versões da lenda, sendo uma delas uma coleção incompleta de manuscritos do poeta Bèroul, do qual nada se sabe, e Sir Tristrem, em inglês médio, descoberto em 1806 por sir Walter Scott numa biblioteca de Edimburgo.

Tristão já tem na antiga lenda as características do herói wagneriano. Como Siegfried ele é órfão, seu pai foi morto antes de ele nascer, e sua mãe morreu no parto. Tanto nas narrativas de Tristão como no poema Trilus e Criseyde, de Chaucer e no Filostrato de Bocaccio vemos os autores medievais tateando a misteriosa conexão entre amor erótico e morte – entre eros e thanatos – que é enfim escancarada por Wagner.

Ao compor Tristão e Isolda, Wagner ousou no texto e na música. Sua obra rompe os padrões da ópera tradicional, pois sua música é escrita no estilo Unendliche Melodie (melodia infinita). O uso sistemático do cromatismo gera a total ambiguidade harmônica. A música nunca chega a uma sensação de repouso, provocada pela resolução tonal, ou seja: cada vez que o desenvolvimento melódico se aproxima da resolução, a modulação para outra tonalidade impede a cadência conclusiva. Wagner abre com a música de Tristão e Isolda os caminhos para a música dodecafônica e atonal.

Tamanha ousadia harmônica, jamais repetida por Wagner nas obras subsequentes, foi usada para acompanhar a tensão do drama que é narrado no palco. Assim como a música nunca cria a sensação de repouso trazida pela resolução tonal, Tristão e Isolda também se angustiam por tomar consciência de que seu amor – condenado pelo sistema de valores do mundo em que vivem – não é possível no plano da realidade.

O primeiro ato da ópera é dedicado a Isolda, o terceiro a Tristão, e o segundo, ao amor dos dois.

O amor de Tristão e Isolda busca uma consumação não na vida, mas na morte, uma consumação completa, na qual ambos os amantes não sobrevivem.

Os três atos de Wagner tem como foco três momentos de clímax: a primeira jura de amor, no exato momento em que Isolda será dada em casamento ao rei Marke; a noite de paixão e a descoberta dos amantes pelo rei; a morte e a transfiguração dos amantes. Em cada um desses momentos, Tristão e Isolda juram morrer e tentam fazê-lo. Somente no último conseguem.

As visões medievais do amor quase sempre eram celebrações da castidade. A amada é inacessível e espiritualizada porque inacessível. A Beatriz de Dante é uma criança quando ele a conhece, e seu amor por ela jamais é consumado, exceto em forma mística quando ela o guia pelo reino do Paraiso. A Laura de Petrarca é uma criança prometida em casamento quando ele a conhece, mas prometida a outro, e por isso intocável.

Em Tristão e Isolda não há lugar para divagações e exercícios platônicos. A obra tem uma forte conotação erótica e a força do desejo sexual ocorre nas palavras e na música. Trata-se de um desejo tão concentrado no objeto individual que o corpo e a alma estão fundidos nele. O que os amantes sentem é, no verdadeiro sentido da palavra, um desejo casto, um desejo sem concupiscência, um desejo que não abre espaço para o universal humano, sendo antes absorvido integralmente pelo objeto do amor. O desejo paira acima do objetivo da união carnal, num reino espiritual já dominado pelo pensamento de renúncia. O amor de Tristão é um amor ao qual não se aplicam as leis normais da felicidade humana. Ao vermos esse amor desde a distância, aceitamos que ele é uma revelação de nossa própria desdita interior. Esse amor, e essa morte, nós os trazemos em nós mesmos.

Para os leitores interessados em se aprofundar no tema, convido-os a participarem do almoço Clio a ser realizado no próximo dia 29/1, a partir das 12h20min, oportunidade em que farei uma palestra intitulada Tristão e Isolda: o êxtase do amor verdadeiro. Maiores informações podem ser encontradas no site www.studioclio.com.br

Os comentários feitos neste artigo a respeito de cromatismo, tonalidade e atonalidade encontrados nesta obra de Wagner foram pesquisados no livro A Ópera Alemã, do professor Lauro Machado Coelho.

Clique aqui para assistir Waltraud Meier cantando o Liebestod, numa produção do La Scala:

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