Mãos à obra – Folhetim Brasil 2014 – Capítulo 2

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Folhetim 2014 – Capítulo 2

– Por favor, o Senhor Francisnóico?

– Quem está falando?

– É Bernardo, da Agência.

– Eu não sei de nada…

– Olha, não fique nervos, ou melhor, pode ficar sim, porque eu estou falando a pedido do Chefe Maior.

– Mentira! Quando o acordo foi feito, era para não acontecer nada.

– Mas aconteceu. E agora chegou a hora de retribuir.

– Já disse, eu não sei de nada!

– Mesmo?

– Te garanto?

– Então tá. Mas a propósito, a sua concessão de hospedagem das comitivas oficiais encerra hoje…

– Opa, você sabe disso?

– Eu não sei de nada, passe bem. Acho que daqui a algum tempo você vai acabar sendo meu cliente. Então, até logo!

– Espera Seu Bernardo. Que memória a minha. Quem eu deverei ter a honra de receber em meu estabelecimento?

– O   José Lopes.

– Esse é peixe graúdo. Não pode ser alguém um pouco menor?

– Nada disso. Ele é a maior prioridade do Chefe Maior e você foi o premiado. Aproveite!

– Meu Deus! Estou frito! Esse eu não posso aceitar.

– Está certo, então. Boa sorte com novas concessões e até mais ver.

– Não! Desculpe.  Vou receber o Lopes, mas de dê pelo menos uma semana para ajeitar as coisas por aqui.

– Ele vai se apresentar hoje à tarde para assumir a função.

– Você não é nada flexível, hein?

– Realmente não sou mesmo, mas posso ser esquecido…

– Tudo bem, fique tranquilo. A tarde estarei pronto para receber José Lopes aqui no hotel.

 

….

José Lopes estava para lá de impaciente. Seis dias de reformatório era muito mais do que havia sido combinado. A pena de 8 anos não permitia regime aberto. O jeito, então, seria montar esquema no semi.

 

Plano simples, mas brilhante. Passar uns dois dias enjaulado e conseguir trabalho através da Agência. Nas primeiras semanas, com a imprensa em cima, seria melhor manter disciplina: encerrar o expediente e aguentar as noites na papuda com alguns outros colegas. Mas quando deixa de ser novidade, os jornais esquecem… partem para azucrinar a vida de outros.

 

Daí seria apenas arrumar horas extras e pernoitar no trabalho, ou melhor, no apartamento arrumado discretamente mas com todo o conforto. Noitadas e reunião com os amigos, só disfarçado. E quando algum editor chato e sem assunto resolvesse conferir a quantas ele andava, os espiões dariam conta de avisá-lo para voltar ao reformatório, onde também estava tudo arrumado para protegê-lo.

 

A porcaria é que aquelas papudas das advogadas haviam prometido resolver o esquema em dois dias, mas o cárcere estava prestes a completar a primeira semana.

 

No momento em que José Lopes começou a pensar que estava abandonado pela turma e que iria também ferrar com todos, o telefone cuidadosamente oculto sob o colarinho da camisa branca  iniciou a vibrar.

 

– Quem fala?

– É o gestor da Agência. Prepare-se que hoje à tarde o Senhor se apresentará para o Senhor Francisnóico no Hotel Posseibom. No carro que o levará para lá há um envelope no banco de trás com o diploma de encanador que preparamos.

– Já não era sem tempo.

 

– Todo o mal do Brasil está no futebol. Nos EUA e China só tem pernas-de-pau e por isso eles dominam o mundo.

– É, mas os ingleses, alemães, franceses e italianos batem um bolão e estão super ricos.

– Imbecil! Não estou falando de riqueza de dinheiro; e sim de poder: a verdadeira riqueza. Nesse caso, os europeus já eram. Os britânicos até foram poderosos, mas depois que aderiram ao jogo maldito só entraram em fria.

 

– E a vitória nas Malvinas?

– Contra aqueles milicos burros, até minha tataravó dava uma sova neles.

 

– Então tá. Vamos organizar o movimento de novo. Mas lembra do que aconteceu na última vez? Fizemos todo o trabalho na Copa das Confederações e quem levou vantagem foi aquela turma que queria ônibus de graça.

 

– Mas agora vai ser diferente. Esse pessoal entrou no esquema dos partidos. O movimento agora é só nosso.

– Maravilha, no novo Brasil só vai rolar peteca.

– No primeiro momento sim, mas depois de termos o poder, a rinha de galo vai bombar. O tal do vale-tudo também está com os dias contados.

 

– Então, vamos logo convocar o protesto nacional. Nesse final de semana os atos contra a Copa do Mundo vão ser em Porto Alegre, São Paulo e Quixeramobim?

 

– Quixeramobim, Vicentinho? O esforço não ia ficar concentrado só nas capitais?

– É que lá está morando um primo meu que quer aderir ao movimento. Ele é um grande jogador de peteca.

– Está bem. Vou acionar as redes sociais para marcar os protestos.

 

Ferdinanda foi ao computador. Antes que o companheiro percebesse ela desativou a tela de descanso com a foto de Cristiano Nazário, seu craque do coração. Pensou no esforço que estava fazendo para aguentar o Vicentinho. Tudo em nome do emprego de meio turno  no escritório do ministério.

 

Ao cair da noite os Maurícios estavam novamente reunidos.

 

 

– Dessa vez o Rolex no Brás não vai falhar.

– É isso aí, Mauritênio, mas você tem que prometer não parar em nenhuma balada por aí.

– Prometido, mas sabe o que meu vô disse?

– Nem imagino.

– Falou que hoje em dia para ter sucesso em qualquer coisa precisamos estar conectados às redes sociais.

– Já ouvi falar nisso também.

Os cinco rapazes pegaram ao mesmo tempo seus tablets, e colocaram os equipamentos embaixo do braço.

 

– E agora Mauricinho?

– Direto para as redes sociais! Simbora para o clube!

Autor: Eduardo Starosta

Folhetim Brasil retrata o dia-a-dia da vida de alguns personagens (alguns inspirados em gente de verdade) em 2014, tangenciando os principais fatos de nosso país. Pode-se falar em algo próximo a um diário histórico com fantasia.

Originalmente, a primeira edição de Folhetim Brasil foi publicado pela Revista Digital em 2007. Agora, em 2014 estamos iniciando nova aventura em capítulos semanais, de forma a ficção acompanhar e se associar à realidade nacional no momento em que escândalos, eventos e notícias são deglutidos pela opinião pública.

O que acontecerá nos próximos capítulos? Isso ninguém, nem o próprio autor, sabe. Tudo dependerá do que acontecer nesse nosso país a cada semana. Com os rolezinhos, eleições e o mosaico da politica nacional podemos esperar qualquer coisa, menos monotonia.

Uma boa leitura e até o próximo capítulo, aqui na Revista Digital!

 

 

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