A agência e o rolex – Folhetim Brasil 2014 – Capítulo 1

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Introdução

O Brasil pode ser visto sob vários aspectos positivos ou negativos, dependendo dos pontos de vista. Mas duvido que alguém possa reclamar de monotonia ao realmente viver nesse grande, jovem, misterioso, irreverente e um tanto quanto malandro País.

Lógico, isso não vale para quem vive trancado no mundo próprio da residência e trabalho. O verdadeiro brasileiro é aquele que abre a porta da sua casa, da sua alma e segue a trajetória da vida dando dribles no destino, quando isso é oportuno. Entre a alcunha de herói e vilão, talvez fiquemos melhor identificados como macunaímas mesmo: por vezes uma coisa; por vezes outra, mas acima de tudo, almas livres para usufruir da vida; para mudar de crença, convicção, gosto… e re-mudar quantas vezes isso for necessário, ou conveniente.

Folhetim Brasil retrata o dia-a-dia da vida de alguns personagens (alguns inspirados em gente de verdade) em 2014, tangenciando os principais fatos de nosso país. Pode-se falar em algo próximo a um diário histórico com fantasia.

Originalmente, a primeira edição de Folhetim Brasil foi publicado pela Revista Digital em 2007. Agora, em 2014 estamos iniciando nova aventura em capítulos semanais, de forma a ficção acompanhar e se associar à realidade nacional no momento em que escândalos, eventos e notícias são deglutidos pela opinião pública.

Começamos dessa vez tratando do dia-a-dia de Bernardo em sua importante missão e dos cinco Maurícios. O que acontecerá depois? Isso ninguém, nem o próprio autor, sabe. Tudo dependerá do que acontecer nesse nosso país a cada semana. Com os rolezinhos, eleições e o mosaico da politica nacional podemos esperar qualquer coisa, menos monotonia.

Uma boa leitura e até o próximo capítulo, aqui na Revista Digital!

Eduardo Starosta

 

rolex 2

A AGÊNCIA E O ROLEX

– Seu Bernardo, Seu Bernardo. Saia do armário que é urgente!

– Poxa Nelci, já disse mais de quatrocentas vezes para ser discreta quando eu estou em meditação.

– Desculpa Seu Bernardo, mas o patrão maior está aguardando no telefone oculto, falou a Secretária através de um alto sussurro captado com deleite por toda a repartição.

Bernardo respirou fundo e levantou-se lentamente das almofadas especiais que lhe aliviavam as hemorroidas depois da ardente dor das derradeiras obrigações digestivas. Abriu a porta do falso armário que na verdade escondia um pequeno aposento e ao sair deu a tradicional espiadela para ver se sua sala estava vazia. E estava, mas todos os colegas o espiavam por detrás da porta a despeito dos beliscões de censura de Nelci, que sempre escondiam o sorriso camuflado da morena.

Na mesa, o telefone fora do gancho a sua espera. Bernardo respirou fundo. Seria a primeira vez que teria conversa direta com o chefe maior. A voz rouca do patrão era inconfundível.

– É uma honra falar com o Senhor, Chefe.

– Bernardo?

– Sim, sou eu Chefe. Eu dizia estar lisonjeado…

– Vamos cortar fora as “formalidade”. A partir de agora acabou a moleza. A Operação Agência deve começar até segunda-feira. Já temos quatro parceiros que precisam de trabalho.

– Mas, mas hoje já é quinta Chefe!

– Eu disse que acabou a moleza. E você já sabe: qualquer vacilo é rua!

O telefone foi desligado sem ao menos um até logo. Bernardo respirou fundo, foi até a porta do escritório e avisou Nelci:

– Hoje eu não estou para ninguém!

A Secretária e os colegas interromperam as chacotas sussurradas e se entreolharam. Nunca haviam testemunhado tamanha angústia na voz de Bernardo.

Fechando a porta, o gestor ainda fez um razoável esforço para se acomodar na cadeira de forma a resistir à ardência das hemorroidas. Pegou seu fichário de mesa cuidadosamente fechado com três chaves e mais combinação de cofre e o abriu.  Bernardo não confiava em computadores. Além de vírus e falhas diversas, tais equipamentos eram a indiscrição em pessoa. Para coisas importantes, só registros em fichas de papel e caneta esferográfica.

O primeiro e mais urgente caso a ser tratado era o de José Lopes. Qual seria a aptidão dele. O histórico de vida daquele homem era um mistério. Vários nomes, humor instável e uma frieza perturbadora no trato com as pessoas.

A pesquisa no fichário montado ao longo dois últimos dois anos demorou horas. Lá pelas 2 da madrugada (e mais uma crise de dores no traseiro), Bernardo suado e trucidado por mosquitos – já que o ar condicionado do andar havia sido desligado às 20 horas, apesar de seu pedido de não fazê-lo – selecionara quatro prováveis estabelecimentos que poderiam acolher seu novo protegido.

Mas isso seria coisa para depois das 9 horas da manhã. Pelo adiantado da madrugada, Bernardo decidiu dormir na repartição mesmo. Foi para dentro de seu aposento disfarçado de armário e inflou o colchão que estava atrás da poltrona de repouso. Pela primeira vez perguntava-se como aquilo fora parar em seu esconderijo. Mas o cansaço era tanto, que em segundos esqueceu o assunto e embalou em um sono profundo.   Revigorar as energias era preciso. Em algumas horas a agência deveria iniciar suas operações a todo o vapor.

No momento em  que Bernardo soava seus primeiros roncos, a cerca de mil quilômetros de lá, um debate entre jovens paulistanos estava chegando ao apogeu.

– É isso aí. Se aqueles pés rapados atacaram nosso reduto, chegou a nossa vez de ir à forra. Vamos mostrar quem é o bom!

– Apoiado Mauricinho. Vamos executar nosso plano de vingança. Vocês concordam Mauricélio, Mauricênio e Mauritênio?

– Apoiado Mauricião, disse Mauricélio;

– Apoiado Mauricião, disse Mauricênio;

Ao fixar o olho em Mauritênio que nada falara, os amigos o viram de olhar fixo no tablet.  Foram ver o que era. Tratava-se de uma promoção de relógios de luxo.

– Cara, olha só que genial. Esse aqui tem até bafômetro.

– Ô louco meu!

E os cinco Maurícios ficaram por vários minutos entretidos com a loja virtual, até que Mauricinho – prejudicado na contemplação por estar atrás de todos e ser baixinho – relembrou a missão.

– Ei! Vamos comprar amanhã. Agora é hora de irmos a nossa primeira missão: o Rolex no Brás. Agora a gentalha vai ver o que é fazer barulho! Depois de hoje eles não vão mais ter coragem de detonar os nossos shoppings e paquerar nossas meninas.

Os rapazes saíram do tríplex dos pais de Mauricélio no Jardim Europa. Tomaram o elevador social e cada qual pegou seu carro.

A madrugada paulista pôde assistir o cantar de pneus dos esportivos dos garotões, que dirigiam loucamente na direção do Brás, comunicando-se entre eles próprios por meio de conferência de smartphones.

A rota que eles seguiam por exigência do pai de Mauricião tinha de ser a definida pelo google maps, especialmente quando não haviam motoristas e seguranças junto. Afinal, Seu Charlau conhecia muito bem o próprio filho e seus amigos das altas rodas. Todos com cara e jeito de homenzinhos, mas ainda crianças no seu interior.

Assim, o grupo passou pela Rua Rússia e seguiu em direção à Avenida Nove de Julho.

Repentinamente, Mauritênio – que ia a frente do comboio – freou seu carro no meio da avenida e encostou a direita. A manobra quase acabou em engavetamento dos cinco amigos.

Sem explicar nada, o rapaz entrou em uma porta guardada por um par de seguranças que mais pareciam gorilas de terno. Os amigos, sem entender o que se passava, encostaram os bólidos no meio fio e foram atrás.

– O que aconteceu, cara?

– Nada, me falaram que essa casa noturna é boa e eu resolvi dar uma espiada.

Os outros quatro Maurícios se entreolharam enquanto Mauritênio já estava na pista desenvolvendo seus passos acrobático.

– Uma meia hora por aqui não vai fazer mal, certo?

E os cinco amigos ficaram dançando até o amanhecer.

Ao saírem da boate, a claridade os cegou momentaneamente. O congestionamento já tomava conta de São Paulo e sobre o para-brisa de cada um deles, uma gorda multa.

Colocando o documento no bolso, Mauricinho ainda disse:

– Então amanhã será o grande dia!

E foram todos para as respectivas casas para dormir e se preparar para a primeira Operação Rolex: a invasão do Brás.

Passava das 9 horas e Bernardo ainda dormia a sono solto. Porém um barulho estranho o colocou em alerta. Antes que abrisse os olhos, ouviu o ruído típico de trinco se fechando. Recompondo-se rapidamente, foi para a porta do armário verificar se havia alguma movimentação. Tudo perfeito para sair. Foi direto para a mesa de trabalho, respirou fundo e começou os telefonemas do dia.

Na sala ao lado, Nelci e seu colega Paulino se entreolhavam meio constrangidos, meio surpresos com a presença prematura do gestor no ambiente de trabalho.

 

 

 

 

 

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