Novos programas buscam jovens com mais experiência

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imagesCA3SUB9UEm junho de 2012, Mario Antônio dos Santos, de 29 anos, era gerente de marketing em uma multinacional de mineração, sediada na Índia. Formado em comércio exterior na Espanha há seis anos e com um MBA em curso na Indian School of Business Management and Administration, decidiu abandonar o seu posto gerencial e voltar ao Brasil para fazer o que muitos considerariam um retrocesso na carreira: ingressar em um programa de trainee.

O estranhamento está no fato de Santos não ser um trainee tradicional. Geralmente, esse tipo de programa busca jovens formados há no máximo dois anos. O executivo, porém, já acumulava passagens por duas mineradoras e uma multinacional de infraestrutura portuária, além de ter pós-graduação, que trancou para poder voltar ao Brasil.

Ao descobrir que a Bematech estava com inscrições abertas para o programa Trainee Gerencial, dedicado a jovens que, como ele, já haviam concluído a graduação há mais tempo e tinham experiência no mercado, Santos viu uma boa oportunidade de voltar para o país. A companhia fabrica equipamentos e softwares de gestão para meios de pagamentos e, por ser de um ramo da tecnologia que atende o varejo, setor que segue em forte expansão no Brasil, chamou a atenção de Santos. “Havia trabalhado apenas com indústrias tradicionais. Queria ampliar meus conhecimentos”, diz.

Durante o processo de seleção, os trainees foram desafiados a desenvolver projetos estratégicos. “Tivemos liberdade para criar, sempre com o apoio de um gestor. Participar de verdade da tomada de decisões de uma empresa é mais importante que simplesmente ocupar um cargo de liderança”, ressalta.

O programa, com duração de um ano, recebeu em sua quarta edição mais de duas mil inscrições de jovens que se enquadravam nesse perfil, na faixa de 26 a 30 anos – dos quais sete foram selecionados. Segundo Nilson Nascimento, gerente de recursos humanos da Bematech, esse formato diferenciado surgiu em 2010. A primeira edição, realizada no ano anterior, era bem tradicional, mas foi necessário mudar a estrutura para atingir um objetivo diferente. “Profissionais talentosos, mas sem vivência de mercado, já eram absorvidos no programa de estágio. Queríamos gente experiente, mas não tanto. Dessa forma, seria possível treinar esses profissionais e, ao mesmo tempo, aprender com eles.”

Para Nascimento, a vantagem dessa estratégia está na possibilidade de atrair talentos capazes de assumir um cargo de gestão mais rapidamente que um trainee tradicional. “Queremos que nossos ‘jovens mais velhos’ ocupem um posto de liderança em dois ou três anos”, afirma.

Para participar do programa da Bematech, é preciso ter pós-graduação, três anos de experiência em outras empresas e vivência internacional. A edição de 2013 começará no segundo semestre. Logo que chegam à companhia, os trainees precisam desenvolver um projeto estratégico, subordinados a um gerente ou diretor. “Os trainees mais velhos têm bagagem e a expertise necessária para lidar com um gestor diretamente”, diz Nascimento.

Com o objetivo de atrair um público que possa agregar valor à empresa, mas que ao mesmo tempo esteja disposto a receber um treinamento para se adequar às demandas do negócio, outras organizações também estão desenvolvendo programas de trainee para profissionais de cerca de 30 anos. “Elas buscam atrair talentos que tiveram experiência próxima da liderança e que desejam ascender mais rapidamente”, afirma Manoela Costa, gerente da Page Talent, unidade de negócio da Page Personnel especializada em seleção e desenvolvimento de estagiários e trainees.

Segundo a especialista, os profissionais nessa faixa de idade geralmente estão mais seguros de suas escolhas. “A atratividade está na possibilidade de alavancar a carreira dentro da área que gostam, com a qual sabem que têm afinidade por já conhecerem na prática”, diz Manoela.

Com esse viés, a Oi tem apostado em um programa específico para jovens com um pouco mais de experiência em relação àqueles que acabaram de sair da faculdade, o Trainee Executivo. A companhia, contudo, também possui um programa tradicional e um outro voltado a profissionais de exatas, o Trainee Expert.

No caso do Executivo, o objetivo é preparar futuras lideranças, fortalecendo cargos de gestão da companhia. “Buscamos candidatos com cerca de cinco anos de experiência de mercado e uma pós-graduação concluída ou em andamento. Pode ser em qualquer área, o que conta é a vivência, o conhecimento”, explica Patrícia Coimbra, diretora de desenvolvimento da Oi.

Lançado em 2008, o programa já formou 50 jovens. Com duração de dois anos, o processo chegou a receber sete mil inscrições, que resultam na seleção de até dez candidatos. Atualmente, a companhia está desenvolvendo 18 “trainees executivos”. “Eles participam de projetos estratégicos da empresa, então sabem que não estão na periferia do negócio, e sim no olho do furacão”, diz. Durante o programa, eles se reportam diretamente a um gestor e trocam experiências com profissionais seniores. “Isso tudo acelera muito o desenvolvimento profissional desses jovens”, diz.

Para o bom aproveitamento das mais de 300 horas de treinamento e para superar a pressão dos desafios gerenciais apresentados, os trainees passam por um processo de coaching. De acordo com a diretora, o programa exige muita resiliência dos candidatos. “Eles precisam assimilar muitas informações em pouco tempo e temos que oferecer suporte para que consigam fazer isso.”

Por mais que o programa tenha objetivos de curto prazo diferentes de um tradicional de trainees, a nomenclatura foi mantida para atrair o perfil desejado pela companhia. “O formato é parecido, pois envolve rotação de áreas e demanda um perfil profissional mais multifuncional”, afirma Patrícia.

No caso da Sanofi, o modelo é semelhante, mas a palavra “trainee” não aparece no programa, chamado de Acelere. Ele é voltado para quem tem de dois a cinco anos de formado, possui pós-graduação em curso ou concluída, conhecimento de outros idiomas e experiência em diferentes empresas. O processo tem um ano e meio de duração e inclui até uma oportunidade de conhecer de perto uma operação do grupo em outro país da América Latina. Conforme o próprio anúncio diz, “o programa promove o desenvolvimento acelerado da carreira e irá preparar o jovem para assumir rapidamente uma posição gerencial”.

A primeira edição aconteceu em agosto do ano passado com a participação de quatro selecionados entre mais de 7,5 mil inscritos. A próxima “safra” ocorrerá apenas em 2014, segundo Rosilane Purceti, diretora de RH da Sanofi no Brasil. Segundo a executiva, a ideia surgiu para atender a uma demanda específica da companhia, que está passando por um projeto de diversificação de seu portfólio de negócios. “Buscamos profissionais em início de carreira, mas com experiência tanto de vida quanto de mercado. Também queremos pessoas de fora da indústria farmacêutica, para que possam pensar em soluções novas”, diz.

O intuito é que, ao término do programa, esses jovens possam ocupar cargos de coordenação ou gerência. Segundo Rosilane, o termo “trainee” não é usado porque a companhia não busca um jovem recém-formado sem experiência. “Precisamos de profissionais com potencial para a liderança, que já saibam o que querem da carreira”, afirma.

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Por Carolina Cortez para o jornal Valor Econômico

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