Alguns motivos para um maior crescimento do PIB gaúcho em 2014

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Na entrevista coletiva de final de ano da FCDL-RS, o presidente da Entidade lojista, Vitor Augusto Koch, surpreendeu aos jornalistas com a perspectiva de um desempenho da economia gaúcha e brasileira mais robusto em 2014 do que previam outras entidades empresariais do Estado… e o próprio governo federal.

Naquela oportunidade, eu, economista Eduardo Starosta, estava em total cumplicidade com o Presidente Koch. Tal cumplicidade era motivada, simplesmente, por pontos de vista técnicos, proveniente de alguns estudos que realizei para projetar o PIB do RS, os quais sintetizarei nas próximas linhas.

Primeiramente, vamos abordar o contexto nacional.

A ilustração abaixo mostra a evolução do PIB brasileiro nas últimas duas décadas. Repare que a primeira linha (números em negrito) a expansão do Produto Interno Bruto nacional quase sempre foi superior ao do período imediatamente anterior.

Estamos nos referindo diretamente aos anos eleitorais. A exceção foi 1998, quando a moratória da dívida externa russa provocou uma curta recessão global pautada na queda dos preços das commodities agrícolas e minerais (o preço do petróleo chegou a ficar inferior a US$ 10,00 o barril).

Mas o problema começou apenas dois meses antes da reeleição de Fernando Henrique Cardoso, não havendo tempo para eventualmente reverter a vontade política de eleitorado.

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De resto valeu a regra do maior crescimento em anos eleitorais. E em 2014 não há porque ser diferente.

Mesmo com boa popularidade pessoal, a atual presidente Dilma Rousseff tem nos resultados econômicos seu “telhado de vidro”, o que pode comprometer o favoritismo de reeleição diante das fortes chapas lideradas por Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos & Marina Silva (PSB).

É natural, então, que os atuais governantes abram um pouco mais as comportas dos cofres públicos para irrigar o país com dinheiro no bolso dos cidadãos.

Esse é um dos pontos cruciais do cenário econômico nacional: conforme a maneira pela qual “as bondades” são oferecidas, o efeito na renda da população pode ser mais rápido, ou mais lento; mais ou menos intenso.

Diante de tal contexto, a maioria dos economistas enfatiza a condução da política monetária como contraponto da inflação. Nesse caso, a situação parece realmente preocupante: a SELIC vem subindo nos últimos meses e a variação dos preços insiste em não ceder abaixo da casa dos 0,5%.

O receituário clássico da economia diz que a inflação pode ser gerada pelo excesso de demanda e a solução para normalizar a situação seria aumentar os juros.

Mas analisando a questão mais a fundo, os principais motivos para a alta de preços em 2013 foram a instabilidade climática, afetando o preço dos alimentos; e a desvalorização do real, encarecendo os importados.

Quanto ao primeiro problema, ele está provisoriamente resolvido: a despeito do repique de outubro, em todos os meses do segundo semestre os gêneros alimentícios tiveram alta igual ou inferior a 0,3%.

Em relação ao câmbio, antes da questão ser realmente um problema, ela deveria ser interpretada como uma solução para a competitividade brasileira. As exportações nacionais de produtos industriais deve fechar o segundo ano consecutivo de queda. O país vendeu em 2013 cerca de 6,7% a menos do que em 2011. E talvez mais grave ainda é que o preço médio de nosso quilo exportado caiu 6% no mesmo período. Ou seja, a queda de competitividade vem repercutindo direto no valor agregado das mercadorias que o Brasil vende.

A recuperação cambial, no médio prazo, tem condições de corrigir essa distorção, o que fará bem para a produção industrial interna e para o resultado econômico nacional. Esse é o segundo aspecto nacional que foi considerado no cenário taxado de “otimista”.

Agora, voltando as relações da economia com o cenário político, uma das lições que aprendemos nos últimos anos é sobre o poder do consumo na ativação rápida do nível de atividade.

A política de rendas e incentivo ao consumo iniciada no governo de Luís Inácio da Silva – e continuado mais timidamente por Dilma Rousseff – mostrou que o setor de comércio e serviços tem o poder de fornecer respostas rapidíssimas. Redução de impostos indiretos (tipo IPI sobre bens de consumo, como já ocorreu em 2012) e flexibilização do crédito, com aumento dos prazos de financiamento, juros dos bancos públicos mais reduzidos (também para refinanciamento de inadimplências das pessoas físicas) tem enorme poder de rapidamente revigorar o mercado.

Afora isso, investimentos rápidos da União e estados (obras públicas) também reativam várias cadeias produtivas e geram fortes efeitos de consumo nos locais beneficiados.

E isso muito provavelmente vai acontecer em ano eleitoral, melhorando sobremaneira a expectativa do crescimento brasileiro em 2014.

Duas questões que não querem calar sobre essa análise:

1)   Será que investimentos mais perenes em infraestrutura e uma política industrial realmente voltada à competitividade internacional não seria dinheiro melhor usado no longo prazo?

Pode ser, mas o fato é que tais investimentos, diríamos, “mais clássicos” tem seu retorno mais lento (só que mais efetivo) em renda e prosperidade nacional. E o alvo é 2014. De 2015 em diante é outro problema; outra realidade para os políticos.

2)   E as contas públicas suportam tais ações eleitoreiras?

Lógico que não poderão enfiar completamente “o pé na jaca”. Mas alguns dados habilitam o governo federal a contar com certas liberalidades em 2014. Algumas delas são:

a)   Desde outubro de 2012 a expansão dos meios de pagamento vem crescendo de forma cada vez mais modesta. Naquele mês a alta frente ao mesmo mês do ano anterior foi de 18,37%, caindo gradativamente até chegar a 8,48% em outubro de 2013;

b)   O coeficiente da dívida pública nacional em relação ao PIB que chegou a ser 56,36% em 2003, está atingindo em 2013 o seu mínimo histórico, da ordem de 34,9%;

c)    O perfil do prazo de resgate dos títulos federais vem aumentando: de uma média de 25 meses no último trimestre de 2011 para 37 meses no período mais recente;

d)   A carga fiscal vem crescendo incessantemente nos últimos anos. Entre 2010 e o terceiro trimestre de 2013 a arrecadação de impostos aumentou 8,65%, frente a 5,65% do PIB nacional.

Mesmo que o Estado brasileiro seja um mau gastador, tal situação mostra que existem sim cartas na manga para bombar o mercado nos próximos meses e será ingenuidade política do atual governo (que de ingênuo não tem nada!) não lançar mão desse artifício, mesmo às custas de maiores problemas para 2015.

Sintetizando a questão do cenário econômico brasileiro, a grande questão é: Será que existem condições de mudar as condições macroeconômicas atuais para alavancar o crescimento no curto prazo? Aparentemente, a resposta é sim!

Evolução Recente do PIB Brasileiro por Setor Produtivo

Período

Agropecuária

Indústria

Constr. Civil

Serviços

Comércio

2008

6,32%

4,07%

7,92%

4,93%

6,06%

2009

-3,11%

-5,60%

-0,75%

2,12%

-1,01%

2010

6,33%

10,43%

11,65%

5,49%

10,89%

2011

3,90%

1,58%

3,62%

2,73%

3,39%

2012

-2,14%

-0,76%

1,38%

1,88%

0,92%

2013

5,05%

0,89%

1,25%

2,30%

2,02%

Média 2008-2010

3,18%

2,97%

6,28%

4,18%

5,31%

Média 2011-2013

2,27%

0,57%

2,09%

2,30%

2,11%

Fonte: IBGE; Projeção 2013: Depto. Econômico FCDL-RS

 

Os dados da tabela acima deixam claro que nossa economia vem crescendo abaixo dos padrões estabelecidos a partir de 2003, calcada na política de rendas e consumo.

Com tais números, um governo que deseja se reeleger entra devendo na corrida para continuar governando o Brasil a partir de 2015. Como créditos tem uma situação monetária e fiscal que permite algumas extravagâncias.

Dentro desse contexto e das bases deprimidas dos anos anteriores será difícil crescer ao menos 4,5% em 2014? A lógica tende a dizer que esse patamar de desempenho é bastante plausível, especialmente diante de um contexto de baixo desemprego, câmbio mais desvalorizado (ainda distante do ideal!), perspectivas agrícolas positivas, aumento do investimento público – incluindo estatais – e incentivo ao consumo.

Mas convenhamos, uma expansão do PIB superior a 6% (limite máximo projetado na coletiva de imprensa da FCDL-RS) só ocorrerá se tudo funcionar bem demais (e tomara que funcione!).

Com relação ao Rio Grande do Sul, o primeiro argumento favorável a um crescimento econômico vigoroso em 2014 é exatamente o contexto nacional sobre o qual acabamos de discorrer. Mas existem outros pontos que sustentam nossa projeção de avanço mínimo de 5,5%.

Vamos a eles…

A economia gaúcha tem suas peculiaridades. Talvez uma das mais interessantes seja o recente padrão de recuperação de períodos recessivos.

Em 2005 uma forte seca provocou uma retração do PIB agropecuário de 17%, arrastando a indústria de transformação e o comércio. No total a economia gaúcha empobreceu 2,84%. A recuperação veio nos dois anos subsequentes, com crescimentos de respectivamente 4,67% e 6,53%. Em 2006 a alta do PIB foi liderada pela agricultura e em 2007 o setor primário também liderou, mas houve crescimento significativo da indústria e serviços (4,7% e 6,2% respectivamente).

Já em 2009 a queda do Produto Interno Bruto gaúcho foi de 0,36%, derivada das consequências da crise financeira internacional iniciada no ano anterior. A indústria estadual foi o setor mais penalizado pela situação (queda de 7,36% – especialmente pela queda das exportações e investimento em bens de capital). Agricultura e serviços atravessaram a fase conseguindo crescimentos modestos (2,0% e 1,02%, respectivamente). E nos dois anos seguintes, novamente verificamos uma intensa recuperação. Em 2010 a liderança da indústria (alta de 9,3% – recuperação de base deprimida) e em 2011 a agricultura foi a protagonista do crescimento (expansão de 18,7%). Nos dois anos o setor de comércio e serviços registrou alta na casa dos 4%.

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E finalmente veio o lamentável resultado do PIB gaúcho de 2012, ocasionado por mais uma estiagem. Em 2013 verificou-se o primeiro ano de recuperação e é natural – pelo histórico recente – que haja um segundo período de crescimento vigoroso da economia gaúcha, de acordo com a lógica da dinâmica da economia gaúcha nos últimos anos.

Mas como se diz no futebol, tradição ajuda, mas não ganha jogo. É preciso indicativos importantes para embasar um crescimento mínimo de 5,5% do PIB gaúcho em 2014.

O primeiro deles é exatamente o contexto nacional, onde se destacam prováveis politicas publicas voltadas ao aumento do consumo.

E o diferencial positivo do Rio Grande do Sul: em que se baseia? Vamos a algumas das respostas:

1)   De acordo com a EMATER a safra gaúcha de grãos tende a crescer 8% em relação à colhida em 2013. Os preços, mesmo em leve queda, ainda são compensados pela desvalorização do real nos últimos doze meses da ordem de 12,5% e que tende a aumentar nas próximas semanas.

2)   A citada desvalorização do Real tende a revigorar a competitividade industrial gaúcha tanto no mercado interno como externo. No primeiro caso, os ganhos vão para as confecções, calçados e alimentos, cujos importados estão encarecendo. Pelo lado externo, há chances de abrir novas oportunidades exportadoras para ramos com tradição de internacionalização como calçados e móveis. Na medida em que o Banco Central aumentar a flexibilidade dessa tendência de desvalorização, a situação exportadora melhorará mais ainda.

3)   Também não se pode desprezar o temporário aumento turístico ao Estado por conta da Copa do Mundo.

4)   A maioria dos economistas fala que o crescimento gaúcho ocorreu por conta da recuperação da base deprimida por conta da recessão estadual de 2012. Isso é verdade para a agricultura; a indústria deve fechar seu PIB em patamares ainda 0,42% inferiores a 2010; no caso dos serviços o crescimento de 2 anos chega a apenas 5,6%. As condições previstas ao nível nacional e estadual indicam uma sensível aceleração do desempenho desses dois setores.

E está bom para o Rio Grande do Sul crescer 5,5% em 2014? A resposta é negativa. O Estado tem sérias carências de infraestrutura e de politicas de desenvolvimento. Isso é fato!

Entretanto, os aspectos conjunturais favoráveis e a continuidade de recuperação da recessão de 2012 tendem a fazer com que o RS ainda tenha fôlego para crescer mais do que o Brasil no ano que entra.

Fonte: Eduardo Starosta / Economista

 

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