Sobre idosos e chineses

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

O envelhecimento da população emperra o desenvolvimento do interior do sul do país. Mas há formas de conter o processo – uma delas é olhar o exemplo da china.

mapa_regiao_sulMais de 90% dos municípios da região sul estão distantes de um patamar de desenvolvimento considerado elevado. Pelo menos é o que aponta um estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), realizado com base nos dados de 2010 de educação, saúde e renda. Conforme o levantamento, apenas 82 municípios do sul passam de 0,8 no Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal. São 26 municípios no Paraná (6,5% dos 399 do Estado), 26 em Santa Catarina (8,9% dos 293) e 30 no Rio Grande do Sul (6% dos 496).

Ainda que se possam questionar estudos desse tipo, é inegável a coincidência do número de municípios considerados de desenvolvimento elevado em cada um desses Estados com o de municípios que concentram a geração de riqueza e a população. No Rio Grande do Sul, 81,5% das 202 maiores empresas estão em 15 municípios. Em Santa Catarina, as 25 maiores cidades reúnem 56% da população. No Paraná, 54% do PIB estadual vem de oito localidades.

A má notícia em relação ao desenvolvimento da região sul é que essa concentração tende a piorar nos próximos anos devido à falta de políticas públicas específicas para reverter o esvaziamento, envelhecimento e baixo nível de escolaridade da população do interior. Contexto no qual soa patética a frase (e a intenção de) “fixar o homem no campo”. Cada vez menos pessoas querem ficar nas cidades dos pequenos municípios; quem dirá ficar nas áreas rurais, nas quais faltam renda, opções de estudo e lazer, médicos, estradas e tudo que as grandes cidades oferecem.

Neste momento, e até 2030, o sul se beneficia do “bônus demográfico”: a população potencialmente ativa, com 15 a 64 anos, representa a maior parte da população – cerca de 70%. Mas a parcela de jovens está diminuindo. Até 2010, os habitantes com 0 a 14 anos representavam 21,8% da população – até 2050, esse percentual deve encolher para 12,9%. No mesmo período, a fatia de idosos (mais que 65 anos) deve crescer de 8,1% para 23,1%. Esse fenômeno já começou a aparecer na evolução demográfica do sul. A participação da parcela jovem em relação à população total caiu 30%. Já a de idosos aumentou 60%.

Dos três Estados, o Rio Grande do Sul é o que apresenta a situação mais grave: entre 2000 e 2010, sua população aumentou em 500 mil pessoas, atingindo 10,7 milhões de habitantes – um crescimento de apenas 5%, o menor do Brasil. Nesse mesmo período, a parcela acima de 60 anos da população gaúcha subiu 39%, de 1,06 milhão para 1,5 milhão. O estudo “Projeções Populacionais para o Estado do Rio Grande do Sul: 2015-2050”, da Fundação de Economia e Estatística (FEE), revela que a população potencialmente ativa em 2010, de 7,5 milhões, deverá manter-se nessa faixa até 2025. Depois, haverá cada vez mais pessoas inativas, cujo sustento dependerá de quem ainda trabalha.

Imaginar como será o interior do Rio Grande do Sul em 2025 não é difícil: basta pegar a RS-472, na altura de Humaitá, e descer por ela até Uruguaiana. Além de estarem distantes quase 500 quilômetros de Porto Alegre, os municípios do norte do Estado e da Fronteira Oeste estão vazios de gente. O esvaziamento demográfico é um escândalo: de acordo com o Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul, mais de 80% dos municípios dessas duas regiões apresentaram crescimento demográfico negativo (entre -0,5% e zero) na década passada. Salvaram-se do encolhimento as cidades-polo como Erechim, Santa Rosa e Frederico Westphalen.

A baixa densidade demográfica, a ausência de ferrovias e hidrovias e a grande distância dos centros consumidores, combinados com uma maioria (60%) de mão de obra com baixa escolaridade, tornam essas regiões desinteressantes para os investimentos. Prova disso é o fato de que a maior parte das companhias que integra o ranking das 500 Maiores Empresas do Sul de AMANHÃ fica no leste do Estado. E 81,5% delas se concentram em apenas 15 municípios.

Por trás desse movimento está uma grande migração do interior para a serra gaúcha, Vale do Sinos e região metropolitana de Porto Alegre. Caxias do Sul, por exemplo, viu sua população aumentar para 435,4 mil pessoas – um salto de 20,8% em uma década. Certamente, essa concentração populacional e econômica no leste é o que levou à definição do foco da “Nova economia” da Secretaria de Desenvolvimento e Promoção de Investimentos (SDPI/RS) na indústria oceânica, polo naval, reciclagem e despoluição, biocombustíveis, energia eólica, semicondutores, saúde avançada e medicamentos e indústria da criatividade.

Uma transformação semelhante ocorre em Santa Catarina, como se pode ver no estudo “Crescimento da População Residente em Santa Catarina: Municípios, SDRs e Mesorregiões 2011”, do Grupo de Pesquisa Callipolis, da Esag/Udesc. Entre 2000 e 2010, houve um grande aumento populacional nas cidades do leste. O salto foi de 24% em Itajaí, 47% em Balneário Camboriú, 50% em Camboriú e Porto Belo, 54% em Navegantes, 64% em Bombinhas e  77% em Itapema.

Vazio nos micromunicípios

Outro processo visível é a pulverização populacional em micromunicípios  – aqueles que têm até 5 mil habitantes. São 97 micromunicípios no Paraná, 100 em Santa Catarina e 226 no Rio Grande do Sul. É como se existisse uma cidade de 400 mil habitantes no Paraná, com 97 prefeitos, 500 secretários municipais e 700 vereadores. Em Santa Catarina, essa cidade teria 100 prefeitos. No Rio Grande do Sul, teria 700 mil habitantes, 226 prefeitos, mais de mil secretários e quase 2 mil vereadores.

Tanta irracionalidade econômica e administrativa resulta da pequenez política de dividir em vez de somar – que é responsável pela criação de centenas de municípios no sul, a partir da Constituição de 1988. Esses micromunicípios sobrevivem da transferência constitucional de recursos federais, vindos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e das “verbas carimbadas” para educação, saúde e assistência social.

Os governos estaduais e federal não têm políticas para desenvolver o interior dos três Estados, cujas pequenas populações estão pulverizadas em mais de 500 municípios, todos com prefeituras e câmaras gastando recursos no custeio de folhas salariais. Esses micromunicípios não têm dinheiro para investir, nem vantagens comparativas ou iniciativas para atrair investimentos, visitantes e profissionais qualificados. Não têm representação parlamentar estadual e federal que pressione por obras de infraestrutura de logística de transportes e nem por políticas de desenvolvimento.

O desenvolvimento equilibrado do interior do sul passa pela obtenção de recursos públicos e privados que, hoje, são disputados com os municípios das regiões mais desenvolvidas – com suas muitas empresas, grandes quantidades de consumidores e forte representação política nos legislativos e executivos. Passa, também, por uma reversão da política de esvaziamento do interior. Nesse sentido, governos estaduais, associações de municípios e entidades de representação empresarial e de trabalhadores deveriam conhecer as experiências de desenvolvimento do interior da China, que enfrenta há 30 anos os mesmos problemas (empobrecimento, envelhecimento da população, intensa migração rural para centros urbanos).

Apesar de tudo, a China tem conseguido resultados significativos na atração de empresas e industrialização das áreas rurais. Prefeitos lideram as atividades de desenvolvimento econômico dos municípios, da atração de investimentos à realização de feiras e eventos. Além dessa diferença, há outra: a China inteira tem pouco mais de 600 municípios. Eles são unificados e enormes em área e população. A província de Shandong, por exemplo, com 96 milhões de habitantes e 157 mil km2, abrange 16 municípios mais a capital. Cada um deles com 9 mil km2, em média, e até 10 milhões de habitantes.

_________________________________________________________________________________________

Por Milton Pomar que é Editor da revista em chinês Negócios com o Brasil

Fonte: Revista Amanhã

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone