O fim do poder

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

 

o fim do poder

O poder – a capacidade de conseguir que os outros façam ou deixem de fazer algo – está passando por uma transformação histórica. Ele está se dispersando cada vez mais, e os tradicionais atores (governos, exércitos, empresas e sindicatos) são confrontados com novos e surpreendentes rivais – alguns muito menores em tamanho e recursos. Costumamos interpretar mal ou até ignorar a magnitude, a natureza e as consequências da profunda transformação que o poder está sofrendo nos tempos atuais. É tentador focar apenas no impacto da internet e das novas tecnologias de comunicação. Sabemos que o poder está passando daqueles que têm mais força bruta para os que têm mais conhecimentos, dos países do norte para os do sul e do Ocidente para o Oriente, dos velhos gigantes corporativos para as empresas mais jovens e ágeis, dos ditadores aferrados ao poder para o povo que protesta nas praças e ruas. Mas dizer que o poder está indo de um país para o outro ou que está se dispersando pelos novos atores não é suficiente. Enquanto estados, empresas, partidos políticos e movimentos sociais brigam pelo poder – como sempre fizeram -, ele em si perde eficiência. Em poucas palavras, o poder não é mais o que era.

No século XXI, o poder é mais fácil de obter, mais difícil de utilizar e mais fácil de perder. Das salas de diretoria ao ciberespaço, a luta pela capacidade de influenciar é tão intensa quanto antes, mas produz cada vez menos resultados. Isso não quer dizer que o poder tenha desaparecido. Os presidentes dos Estados Unidos e da China, os presidentes do banco JP Morgan, da petroleira Shell e da empresa de tecnologia Microsoft, a diretora do jornal New York Times, a diretora do Fundo Monetário Internacional e o papa continuam poderosos. Mas bem menos do que seus predecessores. As pessoas que ocupavam tais cargos não só enfrentavam menos adversários mas também sofriam menos restrições – seja de ativistas sociais, seja da mídia, seja de rivais – ao utilizar esse poder. Como resultado, os poderosos de hoje costumam pagar um preço mais alto e mais imediato por seus erros do que seus antecessores. Ditadores estão vendo seu poder enfraquecer e seu número diminuir.

Em 1977, havia 89 países governados por autocratas; por volta de 2011, esse número reduziu-se a 22. Hoje, mais da metade da população mundial vive em democracias. As turbulências da Primavera Árabe fizeram-se sentir nos quatro cantos do mundo.

Novo cenário global

A demolição da estrutura tradicional de poder está relacionada a mudanças na economia global, na política, na demografia e nos fluxos migratórios. A queda dessas barreiras está transformando a política local e a geopolítica, a competição entre empresas para conquistar consumidores ou entre as grandes religiões para atrair adeptos, assim como a rivalidade entre organizações não governamentais. O mundo dos negócios também está sendo afetado por essa tendência. Os líderes de grandes corporações com frequência exercem mais poder do que aqueles que são simplesmente ricos. Hoje em dia, os executivos ganham muito mais do que antes, mas sua posição no topo tornou-se instável.

Ao mesmo tempo, as corporações se tornaram mais vulneráveis a escândalos capazes de destruir sua reputação e seu valor de mercado. Um estudo concluiu que a probabilidade de um desatre desse tipo ocorrer para as companhias que detêm marcas de prestígio global subiu nas últimas décadas de 20% para 82%. A petrolífera BP e a empresa de mídia News Corporation, de Rupert Murdoch, viram sua fortuna encolher da noite para o dia como resultado de acontecimentos que prejudicaram sua reputação.

Outra manifestação da diluição do poder nos negócios são os membros de uma nova espécie: as “multinacionais de países pobres”, que substituíram ou até incorporaram algumas das maiores companhias do mundo. Os investimentos procedentes de países em desenvolvimento saltaram de 12 bilhões de dólares em 1991 para 210 bilhões em 2010.

Não se trata apenas de um simples deslocamento de poder de um círculo de atores influentes para outro. A principal explicação para a fragilização do poder tem a ver com fatores tão diversos como o rápido crescimento econômico de muitos países pobres, o maior acesso à saúde e à educação e até mesmo atitudes e tradições culturais. Afinal, o que mais distingue hoje nossa vida da de nossos ancestrais não são as ferramentas que usamos ou as regras que governam nossa sociedade. Mas, sim, o fato de sermos muito mais numerosos, de vivermos mais tempo, de termos uma saúde melhor e de que somos mais letrados e instruídos.

A degradação do poder é uma tendência que tem aberto espaços para novas estruturas, novos empreendimentos e, pelo mundo todo, novas vozes e mais oportunidades. Mas suas consequências para a estabilidade são cheias de perigos. Como podemos manter os promissores avanços da pluralidade de vozes e opiniões, dessas múltiplas iniciativas e inovações, sem ao mesmo tempo cair numa paralisia incapacitante, que pode anular esse progresso num piscar de olhos?

Fonte: Trechos do novo livro – O Fim do Poder – de Moisés Naim, um dos pensadores mais destacados da América Latina. Publicado originalmente na revista Exame sob o título Um mundo novo e bravo

 

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone