Em manchete, um país mal educado

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Emprego e renda subiram em 2012, mas o analfabetismo e a desigualdade pararam de cair. Juntar boas e más notícias em manchete foi a solução encontrada em alguns grandes jornais para resumir pontos mais importantes da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), divulgada recentemente, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Estado de S.Paulo e o Globo foram por esse caminho. Na Folha de S.Paulo o destaque na primeira página foi para os dados negativos – uma decisão tão defensável quanto a outra.

Toda a chamada grande imprensa publicou muitos números e gráficos. Economistas foram entrevistados para interpretar os números e dar algum sentido ao conjunto. Otimistas, pessimistas, defensores e críticos das políticas oficiais ganharam amplo material para sustentar suas opiniões. Pouco se explorou, no entanto, uma das informações economicamente mais importantes, a persistência de uma elevada taxa de analfabetismo funcional.

A nova pesquisa confirmou o acesso de mais consumidores a automóveis, televisores e telefones celulares. Manteve-se, portanto, uma tendência observada há muitos anos e reforçada na última década pela transferência de renda, pelo aumento real do salário mínimo e pela expansão do crédito. Mas 43% das residências continuaram sem ligação com a rede de esgotos. Este é um problema especialmente complicado, porque faltam condições técnicas à maior parte das prefeituras para produzir projetos de saneamento. Dinheiro, nesse caso, é o menor obstáculo. De modo geral, o noticiário passou longe desse detalhe técnico.

Empregos mantidos

A taxa de analfabetismo ficou praticamente estável, com variação de 8,6% para 8,7% em um ano. A desigualdade de renda do trabalho, medida pelo índice de Gini, passou de 0,501 para 0,498 – uma variação insignificante. Quando se consideram rendimentos de todas as fontes – incluídos aluguéis, aplicações financeiras e transferências –, aparece um índice estagnado em 0,507. Essa medida varia de zero a 1. Quanto mais próxima de zero, menor a desigualdade.

A escolaridade média aumentou, mas a pesquisa ainda assinalou 18,3% de analfabetos funcionais. Eram 20,4% no ano anterior e a redução foi significativa, mas o problema permaneceu grave. Analfabetos funcionais podem ser capazes de juntar letras e de ler palavras e até frases, mas têm enorme dificuldade para entender mensagens curtas e breves instruções escritas. Nos cálculos do IBGE, esse contingente corresponde ao número de pessoas com menos de quatro anos de estudo. Dada baixa qualidade do ensino básico, uma pesquisa mais detalhada – com aplicação de testes de leitura e interpretação – talvez identificasse uma porcentagem maior de indivíduos nessas condições.

Só o Estado de S.Paulo mostrou em um gráfico a distribuição regional dos analfabetos funcionais. A maior proporção foi identificada no Nordeste, 28,1%. A menor, no Sudeste, 13,2%, pouco inferior à do Sul, 13,7%. Da mesma forma, só o Estadão explorou mais extensamente esse tópico, em uma análise de tom positivo, assinada por José Roberto de Toledo.

Mas também os menos otimistas têm algo para dizer sobre o assunto. A taxa de analfabetismo funcional é mais que o dobro da taxa de analfabetismo calculada pelos critérios tradicionais. São 27,8 milhões de pessoas com idade igual ou superior a 15 anos e baixíssimo potencial produtivo. Não podem trabalhar nos setores modernos da economia. São incapazes de operar equipamentos e de absorver qualquer instrução além das mais simples. Não carecem apenas de qualificações, mas de condições mínimas para ser treinados em atividades com alguma complexidade.

Em mais de uma ocasião, nos últimos anos, estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontaram a escassez de pessoal passível de treinamento como um dos grandes problemas do setor. É preciso considerar também esse detalhe, quando se menciona a oferta apertada de mão de obra no mercado nacional. Também esse dado ajuda a explicar o baixo desemprego e a manutenção de funcionários, no setor industrial, nos últimos quase três anos, mesmo em fases de baixa produção. Quem demitisse – e, apesar disso, algumas empresas passaram a demitir nos últimos meses –teria dificuldade para recompor o quadro, quando a economia voltasse a crescer.

Competência administrativa

A persistência de uma elevada taxa de analfabetismo funcional, apesar da melhora indicada na última PNAD, tem tudo a ver com um dos mais sérios problemas da economia brasileira, a baixa produtividade. Mesmo os trabalhadores plenamente alfabetizados estão, em boa parte, longe dos níveis de eficiência observados em países mais dinâmicos, por causa da formação escolar insatisfatória. As empresas mais empenhadas na conquista da competitividade têm conseguido, no entanto, treinar, estimular e valorizar seu pessoal.

Mas a eficiência geral da economia depende de uma porção de outros fatores, na maior parte localizados fora das empresas. Os problemas da infraestrutura foram reconhecidos pelo governo e a busca de soluções foi para o topo da agenda oficial, mas com pouco sucesso até agora. Nos dias anteriores à divulgação da PNAD os jornais estiveram muito ocupados com esse outro assunto.

No domingo anterior (22/9), o Globo destacou na primeira página os atrasos nas obras de aeroportos. AFolha de S.Paulo deu manchete com aos desentendimentos entre o governo e os potenciais concessionários de obras e serviços públicos: “Embate de governo e empresas ameaça concessões de Dilma”. No mesmo dia o Estadão informou na capa do primeiro caderno: “Governo refaz contas para concessão ficar mais atrativa”.

A presidente Dilma Rousseff e sua equipe econômica levariam a preocupação nos dias seguintes a Nova York, em mais um esforço para mobilizar capitais e competência administrativa para a expansão e a modernização da infraestrutura.

Fonte: Rolf Kuntz /Observatório da Imprensa

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