A Dinastia de Richard Wagner (IV)

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 Depois de Auschwitz, o nome de Hitler não será mais pronunciado em nossa família.

– Wieland Wagner –

No dia 30 de julho de 1951, o Festspielhaus de Bayreuth, agora sob o comando de Wieland e Wolfgang Wagner, abriu suas portas para dar início ao primeiro festival pós-guerra. No dia da abertura, Wilhelm Furtwängler regeu a 9ª Sinfonia de Beethoven e retirou-se do festival. Ele declinou das funções de Diretor Musical da temporada, já que teria que dividir o pódio com seu rival Herbert von Karajan. Coube a este e a Hans Knappertsbusch dirigir um total de 21 apresentações de Parsifal, Meistersinger e Der Ring.

A primeira ópera encenada foi Parsifal. A imprensa internacional foi unânime em afirmar que uma nova Bayreuth estava se reerguendo das cinzas. O crítico e escritor Ernest Newman escreveu no Sunday Times: Este não foi apenas o melhor Parsifal que assisti como foi uma das experiências mais comovedoras de minha vida.

Wieland abandonou os velhos cenários e montagens de Alfred Roller e Emil Preetorius e inovou com modernas técnicas de cenografia. Suas produções livraram o palco dos velhos adereços e cenários pesados, onde apenas luzes e sombras passaram a valorizar o trabalho dos solistas. Até 1966, Wieland foi o dono absoluto dos festivais de Bayreuth. Além de sua genialidade na posta em cena, ele lançou uma nova geração de solistas que arrebataram as plateias. Astrid Varnay, Kirsten Flagstad, Martha Mödl, Birgit Nilsson, Wolfgang Windgassen, Paul Kuen, Hermann Uhde e Gerhard Stölze passaram a formar um sólido time de cantores que garantiam a qualidade do espetáculo.

Eles eram suportados por regentes como Herbert von Karajan, Hans Knappertsbusch, Karl Böhm, Joseph Keilbert e Clemens Krauss.

Wolfgang ficou relegado a um segundo plano, cuidando da administração dos festivais e eventualmente ganhando a tarefa de montar óperas secundárias do cânon wagneriano, como Tannhäuser e Lohengrin.

Casamentos e novos herdeiros – Wieland casou-se com Gertrud Reissinger e tiveram quatro filhos: Iris (1942), Wolf Siegfried (1943), Nike (1945) e Daphne (1946). Wolfgang casou-se com Ellen Drexel e da união nasceram Eva (1945) e Gottfried (1947). A nova geração iria garantir a continuidade do legado de Richard Wagner.

Consumido por um câncer pulmonar, Wieland Wagner morreu no dia 17 de outubro de 1966, aos 49 anos. Após as cerimônias fúnebres realizadas no teatro dos festivais, Wolfgang assume o controle total da fundação Richard Wagner. Segundo as cláusulas do testamento original de Siegfried Wagner, ele agiu dentro da lei, mas Wolfgang Siegfried teria participação na administração, como herdeiro representante da fração pertencente à Wieland. Teve início a uma luta pelo poder, dentro de cenários dignos de um drama de Shakespeare.

Em sua autobiografia, Wolfgang explica que o sobrinho havia abandonado os estudos musicais e não demonstrara interesse em seguir os passos do pai. Os atritos familiares se agravaram quando Winifred, guardiã dos tesouros herdados de Siegfried, deu por falta de um retrato de Franz Liszt, pintado por Dominique Ingres em 1839. Para sua surpresa, ela constatou que o mesmo quadro estava à venda no catálogo de um importante marchand de Munich. A procura pelo ladrão da obra de arte foi esclarecida em questão de dias. Wummi (apelido de Wolf Siegfried) havia vendido o quadro para reforçar seu orçamento. O escândalo foi abafado, e o antiquário devolveu o quadro à sua legítima dona, após ser reembolsado.

Wummi, através da imprensa desencadeou um luta feroz com o tio, na defesa de seus direitos. Pressionado pelos familiares e pela Fundação Richard Wagner ele abandonou a disputa.

Novos problemas surgiram quando Wolfgang conheceu Gudrun Mack, esposa do escritor Dietrich Mack. Este, junto com os colegas Herbert Barth e Egon Voss, encontrava-se em Bayreuth pesquisando correspondência, fotos e arquivos de Wagner para escrever o livro Richard Wagner – Leben und Werk in Bildern und Dokumenten (Vida e Obra em ilustrações e Documentos).

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Wolfgang apaixonou-se pela jovem Gudrun, bem mais jovem que ele, nascida em 1944. Após o divórcio eles se casaram e em 1978 nasceu Katharina Friederike, mais uma nova herdeira do legado de Richard Wagner. Este casamento afastou Eva e Gottfried do pai. Aos poucos os principais personagens da nova geração deixavam a cidade. Aqueles que tinham vocação artística iam tentar novos rumos em teatros e casas de óperas da Europa e dos Estados Unidos.

Decorrido menos de um ano da morte de Wieland, seus descendentes haviam sido afastados de Bayreuth. O autocrático Wolfgang também baniu seu filho Gottfried, por este ter passado para a imprensa várias fotos de Hitler quando em convívio com a família Wagner na Villa Wahnfried. Cada novo escândalo dos Wagner em Bayreuth, repercutia na imprensa alemã.

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Gottfried Wagner escreveu um livro chamado O crepúsculo dos Wagner, atacando o pai e as tendências nazistóides da avó e dos tios. Wolfgang defendeu-se ao publicar sua versão dos fatos na sua autobiografia intitulada ACTS.

Nike Wagner contra atacou com o livro The Wagners – ´The Dramas of a Musical Dynasty

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Imagem4Wolfgang Wagner só começou a se destacar depois da morte do irmão. Suas produções, no estilo conservador, mas muito agradáveis aos que abominam montagens modernistas, jamais chegaram a ter o brilho das cenografias de Wieland. Mesmo assim ele produziu montagens respeitáveis, como um ciclo completo do Der Ring des Nibelungen, um inesquecível Meistersinger e algumas produções de Parsifal que ficaram na história de Bayreuth.

Seu grande lance de genialidade, que o colocou em choque com a conservadora comunidade wagneriana, foi o de entregar as novas produções do Festival na mão de diretores que não pertenciam à família. O Anel do Centenário foi regido por Pierre Boulez e a montagem foi do jovem Patrice Chéreau. Este, na casa dos trinta anos, trouxe ao teatro dos festivais uma renovação na posta em cena equivalente às produções de Wieland Wagner. A reação do público convenceu Wolfgang que este era o caminho. Novos diretores como Harry Kupfer e Jürgen Flimms seguiram a trilha revolucionária de Chéreau, recentemente falecido.

Wolfgang Wagner resistiu até os 89 anos no comando do Festspielhaus. Contra sua vontade aposentou-se em 31 de agosto de 2008, passando o a direção dos festivais para suas filhas Eva Wagner Pasquier e Katharina Wagner, bisnetas do compositor.

A partir de agora só nos cabe repetir a pergunta feita pelas Nornas no primeiro ato de Götterdämmerung: Weist du wie das wird? Sabes tu como será?

Clique aqui para assistir ao finale de Die Meistersinger von Nürnberg, numa produção de Wolfgang Wagner:

Nota do autor: a imagem de Hitler de forma alguma representa apologia a barbáries cometidas pelo nazismo durante a II Guerra.

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