A dinastia de Richard Wagner (III)

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Os primeiros dias de Winifred como herdeira do legado wagneriano, foram terríveis. Karl Muck, o mais antigo diretor musical dos festivais demitiu-se. Ele representava a continuidade e autenticidade artísticas do teatro dirigido por Richard, Cosima e Siegfried. Para os guardiões do Graal era um absurdo que uma jovem de 33 anos, inexperiente, não qualificada musicalmente e de nacionalidade inglesa pudesse governar os destinos do Festspielhaus.

Ela havia trabalhado alguns anos junto ao marido e conhecia as engrenagens que moviam os festivais, tradicionalmente realizados nos meses de julho e agosto. Para o cargo de Diretor Geral contratou Heinz Tietjen e este trouxe consigo Emil Preetorius, destacado cenógrafo que já havia produzido uma montagem de Lohengrin em 1929. Tietjen tinha em sua bagagem a direção dos teatros prussianos, entre eles a Opera Kroll e a Opera Estatal de Berlim, bem como dirigira as óperas de Wiesbaden, Kassel e Hanover. Além da função de dirigir os festivais, Titjen tornou-se tutor dos filhos de Winifred. Em pouco tempo passou a dividir o leito com a viúva.

Como diretores musicais, os eleitos foram Toscanini e Furtwängler. Dois anos após a morte de Siegfried, Bayreuth passou a contar com a melhor equipe operística da Europa, com especial destaque para os dois maestros.

Em janeiro de 1933, os nazistas sobem ao poder. No dia 13 de fevereiro, data do cinquentenário da morte de Richard Wagner, foi realizada uma grandiosa cerimônia em Leipzig, cidade natal do compositor. Compareceram ao memorial Hitler e todo seu gabinete, membros do corpo diplomático, Winifred Wagner e seu filho Wieland.

A amizade de Winifred com o Führer selou a nazificação de Bayreuth. De 1933 a 1939, Hitler participou de todos os festivais. Passou a se hospedar na Villa Wahnfried onde era o convidado de honra das recepções realizadas após os espetáculos.

Íntimo da família Wagner ele ficou muito apegado a Wieland e Wolfgang, filhos de Winifred. Aceitava ser tuteado por eles e gostava de ser tratado por Wolf, seu apelido de infância. No início da II Guerra, liberou Wieland do serviço militar, já que ele era o herdeiro do legado de Richard Wagner. Wolfgang ingressou no exército e participou da invasão da Polônia, sendo gravemente ferido em batalha.

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Winifred, Hitler e Wieland Wagner. Ao fundo, Wolfgang Wagner 

A partir de 1940, tiveram início os chamados Festivais de Guerra, que recebiam como convidados de Hitler os soldados feridos em convalescença além dos trabalhadores das fábricas de armamentos. Esse esquema não passava de mais um golpe de propaganda cultural, já que a presença dos participantes era compulsória. Os escolhidos preferiam gozar as folgas junto às suas famílias. Para eles era uma provação viajar até Bayreuth, desfilar da estação de trens até o teatro e enfrentar por quatro horas um espetáculo que não era de seu agrado.

Apenas Hitler gostava das óperas de Wagner. Os demais membros do partido compareciam por obrigação política. Para Goebbels elas eram um mero instrumento de propaganda. O último festival que contou com a presença do Führer foi o de 1940, onde por ironia ele foi assistir ao Götterdämmerung (O Crepúsculo dos Deuses).

Antes do início da guerra, Friedelinde Wagner viajou pela França, Inglaterra e Suíça. Sua mente se abriu em relação à personalidade de Hitler e quais seus reais desígnios. Ao tomar conhecimento do antagonismo que a herdeira, passou a demonstrar em relação ao movimento nazista, Hitler e Winifred escreveram-lhe cartas ordenando seu retorno imediato para a Alemanha. Auxiliada por Toscanini, que rompera com a direção do teatro informando que jamais regeria uma orquestra em território ítalo-germânico, ela fugiu para os Estados Unidos onde ganhou a cidadania americana. Em 1945 ela escreveu um livro com o título de Nacht über Bayreuth (Heritage of Fire na versão inglesa) revelando os males que o III Reich trazia para o legado de Wagner.

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Ao final da guerra ela suplicou ao presidente Roosevelt que impedisse bombardear sua cidade natal. Bayreuth não era uma cidade estratégica para a defesa da Alemanha, mas por se tratar uma das joias da coroa de Hitler, vários bombardeios foram realizados na região para auxiliar o avanço das tropas americanas que rumavam para conquistar Bayreuth. Numa dessas incursões a Villa Wahnfried foi atingida por uma bomba e parcialmente destruída. O teatro, localizado na lendária Colina Verde não foi atingido.

Antevendo o trágico final, Winifred e seus filhos haviam retirado o acervo de Wagner do local, transferindo os pianos de Wagner e Liszt, bem como grande parte das obras de arte e do mobiliário para sua casa de veraneio em Oberwarmensteinach. No dia 14 de abril as tropas americanas tomaram a cidade. O Festspielhaus foi transformado num abrigo para refugiados. Todos os bens imóveis da família Wagner foram confiscados e a casa que pertencera à Siegfried, anexa à Wahnfried foi transformada em Quartel General do Serviço de Inteligência dos americanos.

Conforme o escritor Frederic Spotts, autor de BAYREUTH – A History of the Wagner Festival, a família do compositor, Wahnfried e o teatro dos festivais foram dessacralizados e se transformaram no Walhalla da cultura alemã, ou seja, moralmente corrompido e fisicamente em ruinas.

Apenas em 1950, Wieland e Wofgang receberam a posse do teatro e o comando dos festivais. Caberia a eles a tarefa de livrar Bayreuth e o legado de Richard Wagner de seu passado desastroso.

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Para isso foi necessário que Winifred passasse por um processo de desnazificação, já que sobre ela pesava a acusação de ter sido uma das mais fanáticas apoiadoras de Hitler e ter auxiliado o Partido Nacional Socialista a transformar a obra musical de Wagner em arma de propaganda. Ela escapou de receber uma rigorosa punição do tribunal pelo fato de ter intercedido junto à Hitler na liberação de vários músicos e cantores judeus. Alguns compareceram perante os juízes para testemunhar a seu favor. Sua sentença constou de 18 meses de reclusão, além da proibição, por um período de 30 anos, de falar em público e dar declarações à imprensa sobre temas políticos. Ela também assinou um documento público, informando que jamais participaria da direção, organização ou de qualquer função de liderança que envolvesse os festivais de Bayreuth.

No dia 30 de julho de 1951, aconteceu o primeiro festival sob o comando de Wieland e Wolfgang. Nascia o período chamado de A Nova Bayreuth.

No próximo artigo: A nova Bayreuth, a revolução cenográfica dos Festivais, a morte de Wieland, Wolfgang assume o controle total da Fundação Richard Wagner e tem início a maior luta familiar pelo futuro do legado wagneriano.

Clique aqui para assistir a chegada do Chanceler da Alemanha no Teatro dos festivais. Quem o recepciona é Winifred Wagner. Max Lorenz era o cantor predileto de Hitler, apesar de ser casado com uma judia.:

Nota do autor: a suástica e as imagens de Hitler de forma alguma representa apologia a barbáries cometidas pelo nazismo na II Guerra.

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