A derradeira viagem ao som do jazz

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone
Capa Hanoi.indd

Como um solo de trompete que se esvai lentamente em meio a outros instrumentos, um homem vive seus últimos dias. Abandona o emprego, doa os pertences e espera o fim se aproximar. Tudo por causa de um diagnóstico dado sem rodeios pelo médico, tem um tumor no cérebro, nada há a ser feito. No horizonte, apenas um projeto conclusivo: viajar para Hanói, no Vietnã.

Passando distante do tom melodramático que o enredo poderia engendrar, Adriana Lisboa constrói os dias finais de David, jovem trompetista que descobre estar condenado por uma doença incurável. Armada de uma linguagem direta, sem apelar para malabarismos estilísticos, a autora cria uma peça de tom universalista, escapando de clichês facilmente associáveis aos temas “doença terminal” e “imigrantes”.

Ponto-chave na trajetória derradeira do protagonista é o surgimento de uma garota, Alex. Ambos são filhos de imigrantes, nascidos nos Estados Unidos, onde se passa a história – ela descende de vietnamitas; ele, de latino-americanos. O cruzamento das duas histórias, de personagens solitários, marcados por amores frustrados e ambições modestas, estrutura o núcleo da obra.

Mantendo relativa distância dos personagens, evitando explorar certo psicologismo ou mesmo um cômodo tom confessional, a autora opta pelo uso da terceira pessoa para conduzir a narrativa, alternando o ponto de vista entre os dois protagonistas. Os seis extensos capítulos em que se divide o romance são construídos por meio de períodos curtos, que vão desvendando a história (presente e passado) de David e Alex.

David é um músico de jazz sem fama, que montou bandas, tocou em bares, mas acabou tendo de trabalhar em uma loja de material de construção para sobreviver. Na casa dos 30 anos, foi abandonado pela namorada com quem morava e vive só, sem parentes ou amigos próximos. Alex é mãe solteira, 20 e poucos anos, faz faculdade, mora com o filho e se sustenta com um emprego em uma loja de um refugiado vietnamita.

Após descobrir a doença, David mergulha em um processo de desenraizamento, livrando-se de todas as coisas que possui. É quando conhece Alex, a quem pergunta que lugar do mundo gostaria de visitar se pudesse ir apenas a um destino. A resposta dela (“Hanói”) acaba por se transformar em seu rumo. É para a capital do Vietnã que decide fazer sua viagem final, para morrer sozinho, escondido de tudo e de todos, como um velho elefante – não à toa, logo na primeira página o leitor encontra o médico brincando entre os dedos com um “pequeno elefante de pedra verde”, no momento em que anuncia a fatídica doença.

A autora, formada em música, decidiu acertadamente fazer que o jazz assumisse papel de relevo na obra, extrapolando o simples fato de o protagonista ser trompetista. Temas jazzísticos de diferentes matizes ecoam pelas páginas, nas músicas ouvidas, tocadas ou rememoradas pelos personagens. É o tipo de livro que deveria ter opção de áudio: passagens se transformam se forem lidas acompanhadas pelas músicas citadas. Dos clássicos Miles Davis, Ornette Coleman, Charlie Parker e Ella Fitzgerald aos mais jovens Christian Scott e Esperanza Spalding, diferentes sons ajudam a compor uma trilha sonora que emoldura o breve período em que a narrativa se desenvolve (para quem tiver curiosidade, Adriana disponibilizou na internet um “playlist” com temas presentes no livro.

 O desapego e desencanto de David com tudo, que cresce de forma progressiva, parece poupar apenas a música, única coisa da qual ele demonstra que sentirá realmente falta: “De todo modo, era uma pena saber que não ia mais poder tocar o seu trompete, nem ia mais poder ouvir Miles tocando ‘Round Midnight’ ou ‘Spanish Key’, o que era ainda pior do que não poder mais tocar ele próprio”.

Simbolicamente importante é a última cena protagonizada por David, com ele tocando “Maiden Voyage” (tema de Herbie Hancock) em seu trompete, como que se preparando para uma viagem que demarcará o fim de um ciclo – e o início de outro, por que não.

Fonte:  Fabricio Vieira | Valor Econômico

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone