A dinastia de Richard Wagner (II)

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Em 1910, Cosima Wagner já tivera dois ataques cardíacos e achou que estava na hora de passar o comando dos Festivais de Bayreuth para o herdeiro Siegfried. Este já estava profissionalmente preparado, bem como já havia regido por várias vezes o ciclo do Der Ring e Parsifal.

O herdeiro já havia se aventurado no mundo da composição e chegou a escrever dezoito óperas. Sua primeira obra Der Bärenhäuter, baseada em dois contos de Grimm, é considerado o maior êxito de sua carreira. A estreia foi em Munique, em janeiro de 1899 e quando de sua apresentação em Viena, foi regida por Gustav Mahler. Hoje suas óperas são praticamente desconhecidas do grande público e constam apenas do repertório eventual de alguns teatros alemães

Ao assumir a direção dos festivais, Siegfried mudou a atmosfera de Bayreuth. Ao contrário de seus pais ele era um homem gentil e tolerante e jamais demonstrou hostilidade a novas ideias. Seu estilo de trabalhar em grupo e estar aberto à inovações, seja na montagem das óperas, na introdução de modernos equipamentos de eletricidade e iluminação do palco fez com que o ambiente do teatro se tornasse mais humano e espontâneo. Todos os colaboradores passaram a admirar o filho de Richard Wagner, por sua modéstia, carisma e facilidade de relacionamento.

Mesmo dominado pela mãe e pela Chancelaria dos Nibelungos, grupo de wagnerianos ortodoxos, Siegfried quebrou muitos paradigmas, principalmente ao adotar as modernas técnicas cenográficas implantadas por Adolphe Appia e Alfred Roller. As novas produções que ele lançou a partir de 1910, de Lohengrin, Der Fliegende Hollander e Die Meistersinger von Nürnberg foram consagradas pela grande imprensa alemã como o triunfo do diretor no domínio da moderna cena de palco.

Siegfried apenas não ousou desafiar a velha ideologia implantada por Cosima e amigos que abordava aspectos raciais e outros critérios subjetivos. Devido a isto não eram convidados a reger em Bayreuth, grandes maestros da época como Mahler, Weingartner, Strauss, Arthur Nikish, Max von Schillings e Siegmund von Hausegger.

Neste meio tempo, Winifred Williams é hospedada na Villa Wahnfried. A jovem de 17 anos apaixonou-se por Siegfried e após forte pressão familiar ele contraiu núpcias em julho de 1915. Apesar de Cosima e as filhas preferirem uma candidata de maior nível social, o casamento resolveu seus temores de que a linhagem de Wagner não tivesse sucessor.

Para a jovem esposa, o ambiente da Villa Wahnfried lhe pareceu mais temível que o do orfanato. Ela vivia cercada por personagens que pareciam saídas de um conto gótico: a matriarca Cosima, sagrada como uma relíquia, duas cunhadas que a desprezavam, um cunhado demente e um esposo que fugia da cama pela manhã indo refugiar-se nos jardins. Para Cosima o tempo havia parado quando Richard Wagner morreu. Cada mesa, cadeira, quadro ou livro deveria permanecer no mesmo lugar que ocupava no distante ano de 1883. A casa mais parecia um museu e Winifred tinha como tarefa diária a limpeza e remoção de pó de todos os objetos.

Sua situação apenas melhorou com a chegada sucessiva de quatro filhos. Wieland nasceu em 1917, seguido por Friedelinde, em 1918, Wofgang, em 1919 e Verena, em 1920.

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Siegfried, Winifred e a nova geração

Como os festivais foram interrompidos durante a 1ª Grande Guerra, e ao final desta a Alemanha enfrentou uma terrível inflação, o empreendimento da família estava às portas da falência. Siegfried organizou a Fundação do Festival Alemão, a fim de angariar fundos. Mais de três mil pessoas, incluindo muitas casas da nobreza europeia contribuíram com a importância de cinco milhões de marcos. Como a soma era insuficiente, Siegfried e Winifred embarcaram para a América, em busca de dólares dos wagnerianos milionários dos Estados Unidos. Ele organizou um ciclo de concertos e uma viagem de coleta de fundos nas principais capitais. As estimativas iniciais eram de arrecadar US$ 200.000, Afinal os americanos poderiam ver e tocar no filho de Richard Wagner e neto de Franz Liszt. A excursão foi um fracasso em termos financeiros, pois o casal retornou com a ínfima soma de US$ 8.000.

Meses após, a polícia da Baviera confiscou uma cédula de cem dólares do General Erich Ludendorff, um dos aliados de Hitler no fracassado golpe conhecido como o Putsch da cervejaria. Após algumas investigações descobriu-se que o dinheiro fora doado por um rico americano, simpatizante do incipiente Partido Nacional Socialista.

A portadora foi Winifred, ardorosa fã de Hitler e seus partidários. Ela o conheceu num evento social em setembro de 1923. Hipnotizada pelos olhos azuis e pela conversa do futuro ditador, ela o convidou para uma visita em Wahnfried. Assim nasceu a conexão de Bayreuth com Adolf Hitler, apaixonado pela obra de Wagner desde sua juventude na Áustria. Siegfried nunca se interessou por qualquer aspecto da política. Sua paixão eram os festivais e a composição.

Ele iria produzir novas montagens de Tannhäuser e Tristan und Isolde que seriam regidas por Arturo Toscanini. Entretanto, o ano de 1930 seria trágico em Bayreuth. A matriarca Cosima faleceu no mês de abril aos 92 anos. Siegfried vinha se recuperando de um leve ataque cardíaco e logo após os funerais da mãe foi reger o Der Ring no La Scala. Logo retornou à Bayreuth para o início da temporada de verão. Sofreu um novo ataque cardíaco durante um ensaio de Götterdämmerung.

Após três semanas no hospital, faleceu no dia quatro de agosto e o comando dos Festivais passou às mãos da viúva Winifred Wagner. O grupo dos ortodoxos entrou em pânico. Apesar de carregar o sobrenome Wagner, a mulher era inglesa e não tinha o sangue da família nas veias.

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Winifred recepcionando o Führer no Festspielhaus

Winifred usou de toda sua capacidade estratégica para manter o comando do Festspielhaus em suas mãos. Além de ter escolhido uma equipe de alto nível para assessorá-la nas tarefas, um novo político subia ao poder: Adolf Hitler. Este foi sem dúvida o maior aliado de Winifred.

No próximo artigo: os Festivais sob o comando de Winifred; os Festivais de Guerra; os americanos tomam Bayreuth; o reinício dos festivais sob o comando de Wieland e Wolfgang; a nova era de Bayreuth.

Nota do autor: a suástica e a imagem de Hitler de forma alguma representa apologia às barbáries cometidas pelo nazismo na II Guerra.

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