Strauss, Zaratustra e Kubrick

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Alex North compôs uma magnífica trilha sonora para 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Mesmo assim, o diretor Stanley Kubrick decidiu usar algumas obras tradicionais do repertório clássico, em dois segmentos de seu filme. A introdução de Also spracht Zarathustra (Assim falou Zaratustra), de Richard Strauss, abre a primeira cena que representa o despertar da humanidade. Minutos após, ao ter início a sequência que dá início à era espacial, vão se escutar os tradicionais compassos da valsa Danúbio Azul, composta por Johann Strauss II.

Apesar dos sobrenomes iguais, não existe nenhum grau de parentesco entre os dois músicos. Richard Strauss (1864-1949) era alemão, nascido em Munique, enquanto Johann Strauss II (1825-1899) foi um austríaco que se destacou como o maior compositor de valsas vienenses. Para os cinéfilos que se deleitaram com o filme de Kubrick, o Danúbio Azul não se constituía em novidade. Já a introdução de Zaratustra, desconhecida por grande parte do público, transformou-se num grande sucesso. Utilizada como cortina musical pela mídia eletrônica, ela vem sendo repetida ad nauseam, até os dias de hoje.

Richard Strauss foi considerado um menino prodígio e ao contrário da maioria dos compositores, nasceu em berço de ouro. Seu pai era um músico graduado da Sinfônica de Munique e sua mãe, uma das proprietárias da fábrica Pschorr, uma das marcas de cerveja mais tradicionais da capital da Baviera. Aos cinco anos de idade, Richard já era exímio intérprete de piano e violino. Apesar de ter criado vários concertos, sinfonias e quartetos, a obra do autor é caracterizada pelos poemas sinfônicos e óperas.

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Dentre os primeiros, merecem destaque Tod und Verklärung (Morte e transfiguração), Don Juan e Till Eulenspiegel. Menos apreciados pela crítica e raramente apresentados nos repertórios tradicionais, figuram Don Quixote, Eine Alpinensinfonie (Uma sinfonia alpina), Ein Heldenleben (Vida de herói) e Also Spracht Zarathustra. Este poema sinfônico tem frustrado muitos ouvintes, já que a vibrante introdução, resgatada para a tela por Stanley Kubrick, gera expectativas que não são correspondidas no restante da obra.

As primeiras óperas de Strauss, Guntram e Feuersnot, não obtiveram repercussão junto ao público. Sua terceira produção, Salomé, utilizou um libreto baseado na escandalosa peça de Oscar Wilde. Desde sua estreia, ocorrida em Dresden, no dia nove de dezembro de 1906, Salomé sacudiu o mundo da ópera, projetando mundialmente o nome de Richard Strauss, à época um wagneriano convicto. Esta nova ópera foi endeusada pela crítica, que a colocou no mesmo nível de Tristão e Isolda. A peça, considerada obscena para os padrões da época, foi proibida em vários teatros, inclusive no Metropolitan de Nova Iorque. 

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A partir de 1908, a ópera Elektra dá início a uma sucedida parceria do compositor com o poeta Hugo von Hoffmansthal, que viria se transformar num dos mais afamados libretistas da época. Em 1910 ocorre a grande reviravolta no estilo musical de Strauss. Os verdadeiros modernistas, como Stravinski, Schoenberg, Bartók, Debussy e Ravel estavam entrando em cena e Strauss decidiu abandonar o caminho que fora aberto com a música de Salomé e Elektra. O compositor, encarado como o precursor do modernismo, voltou a se refugiar em suas origens clássicas e românticas. Ele lança Der Rosenkavalier (O Cavaleiro da Rosa), num estilo dentro das convenções do clássico e do rococó, abandonando as dissonâncias e a cacofonia.

O Cavaleiro da Rosa é a obra mais amada pelo público de Strauss, além de ser enriquecida por um dos melhores libretos da história da ópera. Sua ação, em ritmo de comédia, se desenrola durante o reinado da imperatriz Maria Teresa, época em que Viena brilhava como a capital da música. É importante destacar que alguns pontos altos da ópera são representados por valsas brilhantes, à moda de Johann Strauss II.

Depois do sucesso de Der Rosenkavalier, Richard Strauss passou a se dividir entre a regência e a composição. Apesar de ter atuado como diretor musical em Berlim, Munique, Dresden e Viena, ele nunca foi um maestro brilhante. Costumava reger sentado, era inexpressivo e movimentava a batuta sem energia. Na década de trinta, o compositor começou a flertar com o partido Nacional Socialista. Para delírio dos nazistas e consternação de seus rivais, Richard Strauss assumiu a direção da Câmara Cultural do Reich. Apesar de ter regulamentado a profissão de músico e auxiliado muito sua classe, seguiu fielmente as ordens do partido, expurgando dezenas de obras dos repertórios oficiais. A insanidade do nazismo, não se limitou apenas à queima de livros. Dezenas de partituras e pinturas tiveram o mesmo destino.

A lua de mel de Strauss com o nacional socialismo terminou no dia em que o músico se recusou a perseguir seu amigo e libretista, Stefan Zweig. O compositor demitiu-se do cargo, despachou a família para a Suíça e se auto exilou na sua mansão, em Garmisch-Partenkirchen.

Desde o sucesso de Der Rosenkavalier, a capacidade criativa do compositor entrou em declínio. Apenas o trabalho orquestral para 23 cordas, Metamorphosen (Metamorfoses), e Vier letzte Lieder (As quatro últimas canções), com poemas de Hermann Hesse, merecem destaque nos dias de hoje.

Richard Strauss faleceu em Garmisch, no dia oito de setembro de 1949. Bernard Shaw e Glenn Gould foram duas personalidades que nunca esconderam sua paixão pela obra deste controvertido compositor.

 

Clique aqui para assistir às principais valsas da ópera O Cavaleiro da Rosa:

 

 

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