Getúlio

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Depois do sucesso nacional do primeiro volume da biografia de Getúlio Vargas que abordava Dos anos de formação à conquista do poder, o escritor Lira Neto acaba de lançar o segundo tomo da mais alentada biografia escrita sobre o político que mais interferiu nos destinos da nação. Este volume aborda o período de 1930 a 1945, e já nos primeiros capítulos afloram as ambições ditatoriais da maioria dos grupos políticos e da caserna que empalmaram o poder.

Lira Neto, além de ser um biógrafo apoiado em fatos e dados irrefutáveis, é dono de um texto que cativa o leitor. Sua obra está ao alcance do grande público e deve ser leitura obrigatória para aqueles que querem entender o Brasil e participar ativamente do ciclo histórico que o país passa nesse raiar do século XXI.

Ainda não passei das primeiras cem páginas, mas pude constatar a verdade contida na frase que diz: A história se repete.

Cito alguns fatos. Em 1931 o Governo Provisório instalado após a Revolução de 1930, tentava dar novos rumos ao país. O Congresso, assim como as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais haviam sido dissolvidos bem como a Constituição Federal. Getúlio governava através de decretos. Cada estado, ao invés de um governador tinha um interventor nomeado por Getúlio. O Clube 3 de outubro, formado pelos tenentistas representava a linha dura. Seu objetivo era manter um grupo unido e coeso que respaldaria a implantação dos itens mais radicais do programa revolucionário. Segundo seu líder Pedro Ernesto, eles garantiriam a ditatura a um simples pedido de Getúlio.

Esta era defendida principalmente por Juarez Távora e deveria perdurar até que a casa fosse posta em ordem. O problema é que a arrumação leva pelo menos vinte anos e nunca deixa a casa perfeitamente organizada. Este era o desejo dos militares e da equipe civil que formava o novo governo. O Diário Carioca, fundado por Macedo Soares, fora favorável à Aliança Liberal que levou Getúlio ao poder. Com o passar dos meses, este jornal tornou-se ferrenho opositor do governo. Os editoriais de Macedo Soares foram aumentando em contundência até que ele declarou: A rapaziada do Clube 3 de Outubro quer sustentar, pela violência, um regime de poderes discricionários que o Senhor Getúlio Vargas evidentemente planeja prolongar no país. Para organizar a ditadura, o chefe do Governo Provisório não podia contar com os democratas. Tenta por isso, um sistema militarista que se aproveita da legenda de heroísmo e abnegação dos antigos revolucionários.

Na noite seguinte a este editorial, três caminhões do 1º Regimento de Cavalaria

dispararam várias rajadas de metralhadora contra o Diário Carioca e logo após invadiram o prédio destruindo completamente o parque gráfico assim como os escritórios dos jornalistas e da administração.

Este episódio, que não fora ordenado por Getúlio, causou um abalo no governo. Inconformados com a brutalidade da depredação, os ministros Maurício Cardoso (Justiça), Lindolfo Collor (Trabalho), João Neves da Fontoura (consultor jurídico do Banco do Brasil) e Batista Lusardo (Chefe de Polícia do Distrito Federal) pediram demissão em caráter irrevogável e retornaram para o Rio Grande do Sul. Assim que chegaram à Porto Alegre reuniram-se no palácio do governo com o interventor estadual Flores da Cunha. Até Borges de Medeiros, afastado da política, se fez presente. Deste encontro, saiu um manifesto para Getúlio Vargas, solicitando sete providências imediatas. Não iremos detalhar a todas, mas algumas merecem ser citadas, pois parece que saíram das páginas dos jornais da última década: estabelecimento de um conselho para definir uma ampla reforma tributária no país, discriminando as rendas que deveriam caber a União, estados e municípios; incorporação, pela União das dívidas estaduais; anteprojeto de Constituição, a ser analisado e votado por uma Assembleia Constituinte; decretação de uma lei para garantir a ampla liberdade de imprensa.

Esta carta só seria enviada para Getúlio Vargas, após ser aprovada por Assis Brasil que se achava em viagem no exterior. O mesmo ocupava os cargos de Ministro da Agricultura e Embaixador brasileiro em Buenos Aires. O incidente com O Diário Carioca também o levou a demitir-se dos cargos. Getúlio perdeu aliados fiéis e de alto gabarito, além assistir a aliança do Partido Libertador de Assis Brasil e Raul Pilla com a Aliança Liberal. Rompidos há nove anos, Assis Brasil e Borges de Medeiros reataram os laços de amizade. Junto com São Paulo e Minas, o Rio Grande do Sul transformou-se numa ameaça para Getúlio Vargas.

Esta é apenas uma pálida amostra do conteúdo fascinante deste segundo volume da biografia de Vargas. Mas, o que mais me chamou atenção foi o seguinte fato. Estes eventos ocorreram há mais de oitenta anos, mas de lá para cá, após a ditadura do Estado Novo, atravessamos mais um período de trevas e os jornais não cansam de repetir os chavões de reforma tributária, constituinte, reforma constitucional, liberdade de imprensa, etc.

Creio que atravessamos momentos sombrios. Nada melhor do que a leitura da obra de Lira Neto para nos determos no valor e significado do que seja um estado Democrático. Desejo que nossos governantes olhem para o passado e vejam que até hoje pouco ou nada foi feito para programar algumas mudanças imprescindíveis para o futuro econômico e social da nação, entre elas a tão comentada reforma tributária.

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