Protestos, aqui, ali, em todo o lugar

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the-fire-next-timeUm dos livros que mais me marcaram na minha juventude (aos 18 anos) foi “The Fire Next Time” (“Da Próxima Vez, o Fogo – Racismo nos EUA”, Ed. Biblioteca Universal Popular, 1967), do falecido escritor afro-americano James Baldwin, lançado em 1963. Ele assume a forma de uma carta ao seu sobrinho onde descreve o cenário dos Estados Unidos na época, as injustiças cometidas contra “os pretos” (expressão usada no período), o excesso de autoconfiança e a presunção da maioria da população branca americana, principalmente dos empresários americanos. Essa parte da população estava alheia aos acontecimentos que estavam se desenhando.

O fim da década de 1950 e o início da de 1960 testemunharam a ascensão do movimento pelos direitos civis, composto inicialmente por passeatas e ocupações pacíficas, com o entoar do que se tornou sua canção-símbolo, “We Shall Overcome”, e principalmente o discurso imensamente inspirador e tocante “I have a dream”1, pronunciado por Martin Luther King em 28 de agosto de 1963. (Tive a extrema sorte de poder testemunhar esse acontecimento verdadeiramente impressionante.) Havia uma aura de esperança, de solidariedade, embora também, como expressou Baldwin, uma sensação de mau agouro.

Muitos manifestantes protestam contra a desigualdade. Não que essa desigualdade seja prejudicial “per se”, e sim que a desigualdade decorre da injustiça flagrante. Virtualmente em todo lugar, a desigualdade surge devido à desigualdade de oportunidades.

Os dirigentes políticos americanos racistas, como o governador do Alabama, George Wallace, e o senador Strom Thurmond, da Carolina do Sul, reuniram forças com a Ku Klux Klan e não apenas barraram, como também ridicularizaram e ameaçaram ativistas dos direitos civis. Houve algumas fagulhas, aqui e ali, no começo da década de 1960, mas a conflagração irrompeu com as manifestações do bairro de Watts, em Los Angeles, em agosto de 1965. E esse fogo se alastrou, adentrando a década de 1990, e causando numerosas mortes, destruição, medo entre os cidadãos e muito desespero.

Nos últimos anos assistimos à ocorrência de manifestações em várias partes do mundo. Hoje elas ocorrem no Brasil e na Turquia, antes foi o movimento Ocupe Wall Street em Nova York, a ocupação das portas da Catedral de St. Paul, em Londres, as revoltas em Dalian, Ningbo, China, e a multiplicidade de outras manifestações em boa parte do planeta. Algumas são razoavelmente pacíficas, outras bastante violentas, algumas são pequenas e outras grandes. Juntas, podem ser o estopim de uma conflagração mundial.

Talvez os céticos minimizem o significado dessas eclosões. “Já assistimos esse filme”, poderão dizer, “não esqueça da comunidade do protesto” de uma década e tanto atrás, com as eclosões de Seattle em 1999, e subsequentemente toda vez e em todo lugar em que havia reunião do G-8 ou o FMI ou o Banco Mundial ou a OMC, e tudo isso desapareceu.

Será que desapareceu de verdade, se extinguiu? A percepção na época era a de que a globalização, ou a globalização pautada pelas corporações, como a denominavam os críticos, era inerentemente injusta, que favorecia as empresas ricas e grandes em detrimento das empresas pobres e pequenas, e que era devastadora do ponto de vista ambiental. Com o cessar desse barulho, as corporações pareceram voltar às práticas passadas, mas as percepções e a raiva permaneceram.

Os manifestantes atuais são, predominantemente, jovens e de bom nível de instrução, pessoas que se preocupam com o tipo de planeta que deixarão às gerações futuras. Com base nas tendências atuais, as perspectivas – dos pontos de vista ambiental, ético, econômico, social, cultural, político e geopolítico – parecem bastante negativas, para não dizer assustadoras.

Isso não deveria ser considerado novidade. Uma série de vozes despontou contra o legado bastante desprezível que está sendo deixado à próxima geração. E, enquanto o mundo arde em chamas, escândalos se multiplicam e episódios de acintosa corrupção ocorrem em todo lugar.

São necessárias mudanças radicais. Muitos dos manifestantes protestam enfaticamente contra a desigualdade. Não que essa desigualdade seja considerada prejudicial “per se”, e sim que essa desigualdade decorre da injustiça flagrante. Virtualmente em todo lugar, a desigualdade surge devido à desigualdade de oportunidades. Existe, nas palavras do título de um excelente livro – de leitura obrigatória – de Chrystia Freeland, “Plutocrats: The Rise of the New Global Super-Rich and the Fall of Everyone Else” (“Plutocratas: A Ascensão dos Novos Super-Ricos do Mundo e a Queda de Todos os Demais”, em tradução livre), um fenômeno de chocante reserva de privilégios econômicos que está despedaçando a sociedade.

A maioria dos chamados programas de responsabilidade social corporativa oferecidos pelas empresas tende a ser pouco mais do que cosmética. Se os dirigentes conseguissem realmente pôr a mão na massa de forma significativa, isso poderia ter algum efeito abafador sobre as brasas. Por exemplo, se os empresários das grandes empresas globais iniciassem a erradicação da corrupção, não apenas com palavras, mas encomendando auditorias à Transparência Internacional, o progresso poderia ser alcançado.

A história não se repete, mas deveríamos tentar aprender. As centelhas que vejo hoje me remetem de volta à profecia de James Baldwin no início da década de 1960 e à compreensão de que poderemos assistir em breve a um incêndio mundial.

Fonte: Jean-Pierre Lehmann, professor emérito de Política Econômica Internacional no IMD, diretor-fundador do Evian Group no IMD e pesquisador sênior do Fung Global Institute em Hong Kong/Valor Econômico

 

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