Uma mulher importante, mas…

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Em julho de 2008 esteve em Porto Alegre a escritora Ayaan Hirsi Ali, nascida na Somália, perseguida e ameaçada, por ter denunciado os horrores do fundamentalismo islâmico em relação às mulheres. Entre outras coisas há os que mutilam as meninas extirpando o clitóris e não é preciso dizer muito mais. O cineasta que divulgou sua luta foi assassinado na Holanda e ela está jurada de morte, andando sempre com esquema de segurança pessoal.

É uma mulher importante do nosso tempo.

Ela teve a coragem de defender mulheres submetidas a estes bárbaros preconceitos e sofrimentos, portanto seria justo receber manifestações de solidariedade de outras mulheres que têm o privilégio de desfrutar de plena liberdade.

Porto Alegre tinha então vários candidatos a prefeito, entre eles três mulheres. Todos eles e, especialmente, as candidatas, silenciaram sobre sua presença entre nós e tampouco se solidarizaram com ela. Ayaan Ali não é “de esquerda”, nem da turma do Fórum Mundial, é apenas uma vítima do fundamentalismo.

Por ocasião do atentado de 11 de setembro houve quem dissesse não aprová-lo, mas… Exatamente aí, é esse “mas” que libera geral, que permite tudo: “mas” o Bush… “mas” o imperialismo…e por aí vai. Assim o Bin Laden e a Al Qaeda são relativizados, coloca-se um “mas” e vale tudo.

Por essas e outras que a sofrida mulher africana foi esquecida pelos adeptos do “mas”, enquanto seus algozes radicais e terroristas de todo gênero ganham um generoso “mas”, para que seus atos sejam tolerados. Nada pode ser mais reacionário que o fundamentalismo.

Quando o Bové, sob aplausos, arranca uma plantação, ou grupo de mulheres destrói mudas de pesquisa vegetal, ou há atentados na área de biotecnologia da UFRGS, ou o relógio dos 500 anos é incendiado, ou quando o avanço genético e a evolução da ciência são contestados e atacados com violência, estamos assistindo a forma mais típica de uma ação de elementos reacionários.

Os centros de pesquisa e os laboratórios fizeram muito mais contra a fome, do que a maioria os inúmeros discursos sobre o tema. Porém, contra o progresso e o avanço científico, reacionários e reacionárias estão em luta feroz.

Não faz muito tempo, quando se dizia que alguém era “de direita” e “reacionário”, significava ser contra os avanços sociais e científicos, enfim, o conservador empedernido inimigo do progresso.

Passaram-se os anos, terminou a ditadura, caíram o muro de Berlim e o comunismo e, no Brasil, vivemos a democracia plena. Os conceitos de direita e esquerda ficaram superados e mudaram muito; no campo ideológico, deixaram de ser um referencial, talvez sirvam ainda como indicação de sinais de trânsito.

Os que defendem a mais antiga ditadura da América, onde há censura à imprensa e as pessoas fogem do país, se proclamam de esquerda; enquanto os que defendem a liberdade e eleições livres, ou alertam para o ataque à democracia na Venezuela, são chamados de direita.

Hoje muitos dos reacionários são jovens e também mulheres, que pena. Os talibans também são jovens. Seria bom que nossa juventude lesse sobre a Ayaan e seus livros, usassem o Google. Não basta andar de roupa e cabelo moderno, o importante é não deixar o cérebro enclausurado numa burca.

Fonte: Léo Lolovitch, O Livro na Nuvem.

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