Os dois bolsos

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

BolsoFurado1Os casacos em todo mundo têm dois bolsos iguais e o mesmo acontece, imaginariamente com quase todos os nossos governos; em apenas um detalhe os bolsos são diferentes, um é elástico, pois acolhe as receitas tributárias, cada vez mais famintas e maiores; o outro bolso é representado pelas despesas e é furado, pois se colocam nele cada vez mais recursos, que escorrem pelo buraco. Em 2013, as despesas deverão crescer 16% contra uma inflação de 6%, segundo o ministro Mantega.

O curioso é o fato de que os nossos gestores não se dão conta de que não existe milagre para fazer-se crescimento e desenvolvimento, a não ser a “velha conta do bodegueiro”: não se pode gastar mais do que se ganha; pelo contrário, deve sempre sobrar dinheiro, a assim chamada poupança, sem a qual a “bodega” não tem futuro.

Desta maneira irresponsável de gastar mais do que se arrecada, resultou o endividamento do país; mais do que isso, acabou-se com a poupança pública, indispensável para preparar o país para o desenvolvimento, que se situa hoje em quase 0%, quando deveria ser de 25%, para sustentar um crescimento de 5% a 6% do PIB (infraestrutura como um todo – saneamento, ferrovias, rodovias, navegação, energia, educação com qualidade e destaque no Ensino Fundamental).

Há cem anos construíram-se ferrovias, centrais elétricas, portos e comunicações, por exemplo, com investimentos estrangeiros respaldados por concessões de longo prazo.

Naquela época, os orçamentos eram equilibrados e havia liquidez; “para uma cama de casal normal havia um cobertor king size”. Hoje, o colchão continua o mesmo, mas o cobertor está tão curto, que mal e mal cobre o de solteiro.

Faz alguns anos escrevi “Brasil – Dimensão Continental – Dádiva ou Ônus”, no qual concluí que, para desenvolver um país continental como o Brasil, exigia-se e exige-se uma poupança pública no mínimo igual à acima referida.

Veja-se o Japão, que com menos de 100 mil quilômetros quadrados habitáveis acolhe 123 milhões de pessoas com a poupança pública de 40%.

Reflita-se sobre os dois cenários.

Como cidadão brasileiro não consigo visualizar um Brasil Futuro diferente do que é hoje, talvez até pior, com sérias e contundentes diferenças socioeconômicas, suas castas representadas por dois andares, o andar de baixo com um número maior de pessoas que sustentam o andar de cima integrado por privilegiados e pela nomenklatura.

Quando será que a sociedade que se autodiferenciou nos períodos de alta inflação, pela adoção de índices lineares de correção dos salários, vai ter a coragem de olhar para o andar de baixo, engajando-se em um movimento solidário que busque harmonizar os ganhos do trabalho com enriquecimento de todos e não por nivelar-se pela pobreza, tal qual Cuba, por exemplo, que há mais de 50 anos mantém a pobreza da sociedade em nome de uma ideologia fracassada?

_____________________________________________________________________________________

Autor: Paulo Vellinho que é Empresário.

Artigo originalmente publicado no jornal Zero Hora.

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone