Internet, uma história que está longe de terminar

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A internet está destinada a salvar o mundo? A pergunta pode ser um exagero em relação às afirmações de “The New Digital Age”, mas não muito grande. Escrito pelo presidente do conselho de administração do Google, Eric Schmidt, e por Jared Cohen, diretor do instituto de análise e pesquisa da própria empresa de buscas, defende-se ali um argumento primordialmente otimista ao explicar por que os tiranos do mundo deveriam tremer diante do acesso universal à internet.

Se existe uma única convicção que sustenta o livro, ela é resumida na seguinte frase: “De modo geral, a conectividade estimula e possibilita o comportamento altruísta”. A maioria das pessoas, argumentam os autores, são moderadas e rejeitam o extremismo capaz de desestabilizar sociedades – basta deixá-las se conectarem com outras como elas que o mundo será um lugar melhor. “O melhor que se pode fazer para melhorar a qualidade de vida no mundo inteiro é impulsionar a conectividade e a oportunidade tecnológica”, concluem.

Quando aplicada à complexidade das relações internacionais, essa afirmação corre o risco de soar ingênua. É, certamente, o que o Departamento de Estado dos Estados Unidos pareceu sentir em janeiro deste ano, quando Schmidt foi à Coreia do Norte. Ele disse ter feito a viagem para explicar a importância da abertura à internet; o Departamento de Estado encarou-a como um apoio não intencional a um regime funesto.

Como a visita revelou, Schmidt passou a se ver como algo próximo a um estadista internacional pela internet. Juntamente com Cohen, que anteriormente trabalhou no Departamento de Estado em questões como uso da mídia social, ele parece determinado a prever, no livro, como um uso mais amplo da internet vai mudar o mundo, recorrendo a acontecimentos recentes como a insurreição árabe e a violenta censura on-line imposta pela China.

O livro parte da premissa de que a maior parte da população mundial usufruirá em breve de livre acesso à comunicação on-line e à informação. Diante disso, como os autores dão conta das duas principais ferramentas dos regimes repressivos, a de filtrar conteúdo on-line e a de cortar completamente o acesso?

Os autores reconhecem que o espaço público mundial virtual representado pela internet está sendo rapidamente dividido em áreas menores, devido à censura imposta por países como a China. Mas conseguem, ainda assim, traçar uma perspectiva positiva: eles acham que a informação, a exemplo da água, encontrará inevitavelmente um caminho, contornando as barreiras postas em sua trajetória.

Regimes que tentam impedir totalmente o acesso de sua população à internet, acrescentam os autores, arriscam-se a solapar sua própria posição. O Egito tomou essa medida em 2011, quando a convulsão política alcançou seu máximo, apenas para vê-la gerar efeito contrário, uma vez que “eletrizou o movimento de protesto” e “trouxe para as ruas tantas pessoas indignadas a mais”.

Mas, mesmo se esse argumento estiver certo, será que governos repressivos não usarão a internet para sua própria vantagem? A história fornece uma multiplicidade de paralelos: os nazistas, afinal, usaram a tecnologia da informação da época com grandes resultados, ao empregar cartões perfurados com dados do censo para sistematizar seu rastreamento e identificação de judeus.

O fato de a internet ser diferente repousa sobre o argumento de que sua arquitetura descentralizada e o anonimato que lhe é inerente a tornam difícil de controlar. E, quando tudo mais falha, há sempre a esperança de que apenas as pessoas de bom caráter conseguirão tirar plena vantagem dela: “Se os autocratas quiserem montar um Estado de vigilância, isso vai lhes custar caro – esperamos mais do que eles podem se permitir.”

Como reconhecem os autores, no entanto, em breve viveremos num mundo em que muito é gravado e nada é deletado. Os governos repressivos terão “uma vantagem perigosa em atingir seus cidadãos”. As pessoas que vivem nesses países terão de enfrentar uma luta mais árdua por seus direitos. Mas terão à sua disposição “ferramentas e software” criados “para salvaguardar cidadãos que vivem sob repressão digital”.

Isso resume o otimismo basilar do livro: o de que, “para cada negativa, haverá uma contrarreação com o potencial de ser uma sólida posição positiva”.

Esse, naturalmente, é um território delicado para o Google. A empresa já detém uma enorme quantidade de dados sobre seus mais de 1 bilhão de usuários. Os autores, em grande medida, esquivam-se à questão de como ela será usada, embora prevejam que os usuários da internet acabarão por exigir medidas do governo para proteger sua privacidade “a um volume muito mais elevado do que o que ouvimos atualmente”.

Outro risco é o de que a internet, nas mãos de governos perspicazes, se torne um instrumento de propaganda.

Em geral, a maior transparência é, sem dúvida, uma força do bem. “Pessoas que tentam perpetuar mitos sobre religião, cultura, etnicidade ou qualquer outra coisa enfrentarão dificuldades para manter a integridade e a eficácia de suas narrativas em meio a um oceano de ouvintes recém-informados”, escrevem os autores.

Mas não há motivo para que o eficiente marketing on-line se restrinja a quem faz o bem: em uma de suas passagens mais convincentes, Schmidt e Cohen descrevem como ficará mais fácil para os governos usar seu controle da internet para assediar minorias perseguidas – embora argumentem que a maior transparência dificultará a perpetração de um genocídio.

Governos que lidam bem com a internet, além disso, encontrarão caminhos para apaziguar a inquietação social que desponta on-line, criando “espaços de desabafo” que farão as vezes de canais de escoamento para a oposição. Isso desperta uma questão mais profunda: se a geração Facebook será apática demais para empregar o novo poder de que dispõe. A chamada Primavera Árabe sugere o contrário.

Os autores reconhecem, no entanto, que, embora a internet tenha ajudado a alimentar insurreições populares, ela pouco fez (até agora) para criar movimentos revolucionários duradouros.

É necessário recorrer a um mestre em ‘realpolitik’ como Henry Kissinger para explicar por que isso acontece. Denunciando o “louco consenso” da multidão on-line, ele diz aos autores: “A liderança incomparável é uma coisa humana, e não será produzida por uma comunidade social de massa”. O desenvolvimento de apoio político profundo leva tempo e trabalho. “É difícil imaginar De Gaulles e Churchills agradando no mundo do Facebook.”

Schmidt e Cohen estão certos em apontar para os efeitos perturbadores de um novo meio de comunicação de alta penetração como a internet para libertar ou para desestabilizar, dependendo de que lado se está. Mas as tentativas dos governos de exercer seu controle sobre o mundo virtual estão apenas no início. No momento em que a influência da internet se espalhar para mais aspectos da vida, esses esforços, sem dúvida, aumentarão. É cedo demais para prever como essa história vai acabar.

Fonte: Richard Waters / Financial Times / Valor Econômico

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