Brasil perde pontos

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Há pelo menos dois anos, meios de comunicação que informam a elite mundial de investidores têm coletado e difundido imagens negativas a respeito do Brasil.

Critica-se o alto custo de produzir no país, o descaminho da política econômica, a inércia institucional (ausência de reformas que removam empecilhos ao empreendimento privado) e o reavivado intervencionismo do governo.

Esse resumo em quase nada difere das críticas sensatas de economistas e empresários brasileiros. No entanto, a queixa estrangeira mais ruidosa é pautada por interesses e dada a exageros cíclicos.

Alguns financistas enxergam menos atrativos no Brasil devido à baixa das taxas de juros. As intervenções no mercado de câmbio, entre outras, também contribuíram para a repulsa.

O baixo crescimento acabou por esgotar o interesse de muitos investidores, que nos tempos de bonança acorreram para a Bolsa brasileira, na expectativa de lucros e valorização crescentes das empresas.

No ciclo de alta, recorriam ao clichê de “bola da vez” para qualificar o país. Mas nem de longe o Brasil seria uma China. Por outro lado, nem mesmo nestes anos de crescimento medíocre terão sido obstruídas as vias para a recuperação do crescimento mais rápido. Mesmo lerdo o país oferece oportunidades de negócio relevantes, se por mais não fosse, ao menos pelo tamanho de seu mercado.

Nas últimas semanas, ficaram evidentes tais oportunidades. Uma subsidiária do Banco do Brasil (BB Seguridade) realizou a maior venda inicial de ações em todo o mundo neste ano, no valor de R$ 11,5 bilhões. A Petrobras captou US$ 11 bilhões com a emissão de títulos externos, a juros baixos.

Até no front interno houve uma melhora aqui, outra ali. O governo voltou a licitar áreas de exploração de petróleo e gás e arrecadou R$ 2,8 bilhões no leilão, com ágio de 797%. Também aprovou uma lei de privatização de portos que, embora limitada, trouxe um avanço.

Na semana que passou, porém, o governo reafirmou que prosseguirá sua política econômica equivocada: gastar a fim de estimular o crescimento por meio de consumo ainda maior, consumo que é evidentemente excessivo sob inflação e deficit externo crescentes. Ademais, dado o vício estatista, há atrasos graves nas concessões de serviços públicos.

A situação geral no governo ainda não mudou: parece faltar-lhe imaginação e capacidade operacional. Não há programa algum para dar conta da teia burocrática e tributária que emperra os negócios.

O Planalto não lidera ação nacional a fim de reformar um dos mais disfuncionais sistemas de ensino do mundo. É incapaz de investir eficazmente até mesmo os parcos recursos que reserva para a deficitária infraestrutura.

Enfim, o governo continua a executar uma política macroeconômica acanhada, que perde prestígio a cada dia, o que pode de fato dar cabo do otimismo remanescente, no exterior, a respeito do país.

Fonte: Editorial Folha de S.Paulo.

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