O crescimento inclusivo

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

Annuity-for-a-Safe-FutureEm 2012, o centro de investigação Pew descobriu que 85% dos que se auto-intitulam adultos da classe média nos Estados Unidos acreditam que, neste momento, é mais difícil manter os seus padrões de vida do que era há uma década. A proporção de americanos que dizem pertencer às classes média-baixa e baixa cresceu de um quarto da população adulta, em 2008, para um terço, nos dias de hoje. E a investigação do Pew revelou que apenas 63% dos entrevistados consideram que o trabalho árduo leva ao sucesso, abaixo dos 74% registados em 1999.

Estas estatísticas, que representam o sentimento generalizado na maior economia do mundo, deveriam aumentar significativamente as preocupações dos governos e dos líderes empresariais de todo o mundo, em particular dos países que enfrentam uma estagnação econômica e crescentes níveis de desemprego jovem. De fato, o FMI reviu em baixa as previsões a curto prazo para o crescimento da Zona Euro para -0,2% em 2013. Entretanto, os dados oficiais da Espanha indicam que a taxa de desemprego subiu para 26% (quase seis milhões de pessoas) nos últimos três meses de 2012, o número mais alto desde meados dos anos 70, com uma taxa de desemprego jovem a atingir os 55%.

A necessidade de crescer – especificamente, o tipo de crescimento inclusivo que pode criar empregos para um vasto número de jovens que estão fora do mercado de trabalho e que pode combater os níveis de desigualdade de rendimentos – nunca foi tão vital. Independentemente disso, os debates de hoje sobre como se alcança o crescimento sustentável e inclusivo centram-se, de uma forma limitada, no papel dos governos e das autoridades políticas. O papel do setor privado – com o seu alcance multinacional, a vasta quantidade de dinheiro e a capacidade de inovar – tem sido negligenciado.

Há três áreas principais em que as empresas devem tomar atenção se o caminho a seguir for em direção a um capitalismo mais inclusivo e a uma sociedade em que as necessidades mais prementes são satisfeitas. Em primeiro lugar, as empresas devem trabalhar para ultrapassar o desajuste entre competências e empregos ao investir em treino vocacional e em aprendizagens. Empresas como a Rolls-Royce e a British Gas operam em esquemas de aprendizagem impressionantes que acrescentam valor aos seus negócios através da criação de um canal de profissionais talentosos. Foram estabelecidas outras iniciativas para ampliar esses esforços ao envolver várias empresas com o intuito de criar cargos de início de carreira para um número significativo de jovens que estão, atualmente, desempregados.

Em segundo lugar, da mesma forma que é necessário um esforço colectivo desse gênero para fortalecer as competências das forças de trabalho nacionais, é necessário um compromisso industrial para apoiar as pequenas e médias empresas como parte de um ambiente empresarial mais amplo. No seu ano fiscal de 2011, a Hewlett-Packard usou mais de 600 pequenas e médias empresas na sua cadeia de produção no Reino Unido, representando perto de 10% das suas despesas com fornecedores. A HP pretende aumentar esta quota para mais de 15% até ao final de 2013, ao acrescentar outras 150 pequenas e médias empresas, impulsionando aquilo que é, acertadamente, visto como o motor do crescimento econômico do Reino Unido.

Da mesma forma, em Março de 2012, um consórcio de grandes companhias liderado pela IBM criou a Supplier Connection, cuja atividade se estrutura na Internet, para facilitar a transformação de pequenas empresas em fornecedoras de grandes companhias. Atualmente, os membros da Supplier Connection compram, anualmente, mais de 150 mil milhões de dólares de bens e serviços através das suas cadeias de fornecimento globais.

Finalmente, as empresas cotadas têm de ser geridas com vista a longo prazo e devem ser recompensadas pelos investidores por serem mais inclusivas. Por exemplo, a Unilever rejeitou as pressões de curto prazo dos mercados de capitais ao eliminar as apresentações de resultados trimestrais e ao alargar o seu foco para maiores interesses sociais, em vez de apenas os interesses dos acionistas.

Mas empresas esclarecidas exigem investidores esclarecidos. O Ontario Teachers’ Pension Plan [plano de pensões dos professores de Ontario] é exemplar no seu compromisso de apoiar as melhores práticas de governação nas empresas nas quais investe e tem retirado grandes vantagens dessa abordagem: o plano obteve um retorno anual médio de 10% desde a sua criação, em 1990.

A ideia que está por baixo destas iniciativas, e a noção do capitalismo inclusivo em si mesmo, é a de que as empresas devem ser geridas no longo prazo. As companhias que sigam esta abordagem estão preocupadas com as competências das forças de trabalho futuras, procuram construir bases de fornecimentos leais e produtivas e tomam decisões de investimento com base na criação de valor sustentável e não no lucro a curto prazo.

Não há contradição nenhuma entre obter enormes retornos e adoptar uma abordagem com vista ao longo prazo. Além disso, à medida que as empresas começam a adoptar estas práticas, uma maré crescente eleva todos os barcos: com um maior apoio, as pequenas e médias empresas, que actualmente representam 99% das empresas e correspondem a dois terços do emprego no sector privado na União Europeia, serão capazes de investir na investigação e desenvolvimento e contratar mais funcionários.

Por sua vez, as grandes empresas vão arrecadar benefícios de uma inovação mais rápida, as taxas de desemprego jovem vão cair e o estrangulamento da classe média – e a sua fé nos padrões de vida futuros – será revertida. É este tipo de influência profundamente positiva sobre as perspectivas para uma prosperidade partilhada e crescimento inclusivo que, atualmente, escapa aos governos nacionais.

Fonte: Lynn Forester de Rothschild / Valor Econômico 

 

 

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone