Um mundo lírico e solitário

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A UFRGS está convidando para a Exposição Percurso do Artista, com o artista e professor Eduardo Vieira da Cunha.

De segunda a quinta-feira, a exposição está aberta das 10:00 às 12:00, e das 14:00 às 18:00. Às sextas-feiras, a mostra está aberta das 10:00 às 18:00.
local: Sala João Fahrion – 2º andar da Reitoria
» Datas e Horários:
até 31/05/2013 – 10:00 às 18:00

 

Dos arquivos, às colagens e às apropriações
Mônica Zielinsky*


A pintura de Eduardo Vieira da Cunha traz-nos um mundo lírico e solitário, entremeado de memórias e evocações de perdas, em uma perspectiva autobiográfica. Mas ultrapassa-a e apresenta, em seu processo constitutivo, importantes questionamentos no âmbito artístico da própria pintura. Configura-se como um contraponto à arte de seu tempo, esta que se espraia em qualquer ponto do globo, interrogando sua matéria, permanência, a idéia de arte, seu tempo e lugar, as relações com o público e mais ainda, os contatos que estabelece com o real e o virtual. A arte é constituída, mais que em qualquer outro momento de sua história, por uma permanente dúvida sobre seus limites, seu estatuto no mundo da cultura da contemporaneidade e sobre as categorias artísticas há tempos desconstruídas. Na arte hoje o olhar tornou-se rápido e superficial, sem condições de apreender tudo o que o mundo prodigioso das imagens tem a lhe oferecer. E nesse contexto, a obra pictórica de Vieira da Cunha resgata um espaço e um tempo peculiares: situa-se como um luminoso nicho poético, que, em um primeiro relance, parece encontrar-se fora de seu tempo. No entanto, importantes questões vêem-se subjacentes a essas pinturas, todas relevantes para se pensar o fenômeno da arte na atualidade. São demandas oriundas do próprio engendramento de sua pintura, sutilmente tramadas na matéria pictórica, como se estivéssemos imersos em um mundo de sonhos, do quase impossível. Uma narrativa descontínua tece diversos horizontes que separam os céus, estes abarrotados de pequenos aviões e nuvens, de uma terra povoada de estranhos carrosséis, barracas, muitos ônibus, facas e antenas. Toda a estrutura dessas obras apóia-se em dois focos centrais: o das apropriações por um lado, o das colagens por outro, porém ambos acabam por imbricar-se em sua proposta, são portadores de questões essenciais para se observar a arte em suas relações com o real.

Apropriações, em um sentido etimológico, possuem o sentido de trazer algo para si, para tornar seu, de forma própria, gerando com isso um novo signo. Trata-se de uma relação ativa e concreta com os elementos-matrizes da apropriação . Em um sentido mais contemporâneo, no campo da arte a apropriação é vinculada, em um primeiro instante, à fotografia, descontextualizando as imagens de seu ambiente de origem, modalidade artística oriunda aproximadamente dos anos 70. Na obra de Eduardo Vieira da Cunha encontra-se essa concepção diversas vezes ao longo de sua produção. Vincula-se permanentemente à idéia da perda de algo e o artista propõe a de sua transformação.

Assim ela surge, exemplificando-se, no entrecruzamento de duas diferentes linguagens artísticas: a pintura e a fotografia. Partindo de fotos de um álbum de família – objetos arqueológicos, como diria Walter Benjamin, o processo de fabricação da pintura e da fotografia nasce entremeado na obra do artista, como uma proposta de relevância primordial. Os problemas da fotografia, tais como a luz e sombra, o registro dos mínimos detalhes, a busca do instante, a ausência que toda fotografia acusa, são elementos materializados no próprio espaço pictórico, como imagens intermediárias que se revelam na pintura. Eduardo desvenda o que permanecia oculto nos arquivos fotográficos (contendo registros de familiares desaparecidos e cenas de sua infância), atribuindo-lhes agora um sentido enriquecido em sua pintura. Em sua arte é constante a idéia de ausência, pois as imagens fotográficas e seus negativos remetem inerentemente a esses mesmos sentimentos. Passam, porém a ressignificações nas telas, em um diferente sistema de signos. As mesmas paisagens, automóveis e igrejas encontrados nos negativos fotográficos de sua existência de outrora, retornam atualmente em novas paisagens e espaços, onde confluem outros objetos e seres provenientes das mais diversas vivências de ordem pessoal e cultural. Expõe-se um diferente estado a todas essas fontes, o de um ressurgimento, fortemente transformado pela apropriação de um outro sentido. Os inúmeros aviões, que sobrevoam os céus nessas telas, provém de evocações da fatalidade de um acidente aéreo de importância subjetiva ao autor. No entanto, eles convivem hoje nessas pinturas, em meio a outros veículos, entre zepelins, automóveis, ônibus e trens de alta velocidade, assumindo, com isso, distintas significações. Todos são elementos de deslocamentos, de trânsito; mostram-se no espaço pictórico, como se surgissem de dentro da trama da tinta para fora; era como se previssem uma interrupção futura em seu trajeto, anunciada por tesouras e materiais cortantes interpostos em seu fluxo. A idéia-mestra é essa transformação, uma ultrapassagem do plano individual a um mais amplo, o de todos os transportes que esperam alcançar seu destino.

Deste modo, o artista vai mais longe: seleciona imagens de ex-votos, por serem estas de origem popular e brasileira, e as faz dialogar com o fotográfico. Assim, é possível reconhecer um encontro, não somente dos diferentes meios artísticos, mas entre obras de origens culturais distintas. Propõe, nesse percurso, também o diálogo entre geografias diversas, tendo estado o pintor durante longo tempo afastado de seu próprio país. É onde sua proposta de metamorfose se faz presente: os ex-votos encontrados ao nordeste do Brasil, valioso manancial de imagens populares, são apropriados na proposta de Eduardo: perdem nela sua aparência original e ganham um distinto caráter simbólico, o que é metafórico da expressão de agradecimento por uma graça alcançada. A maior graça para Eduardo vem a tornar-se sua própria pintura, como meio para superar todas as perdas. Sob este ponto de vista, pode-se compreender que cada um de seus quadros transforma-se em uma dádiva alcançada, um verdadeiro ex-voto.

Inspirado no conhecido manifesto de Oswald de Andrade sobre a antropofagia, Vieira da Cunha reflete ainda sobre as origens ocultas na formação da identidade cultural brasileira, também presentes em seu trabalho. Trata-se, à mesma maneira, de um processo de apropriação, este referente aos elementos exógenos formadores de sua cultura. Metaforicamente, em uma obra de 1996, faz navegar um coqueiro sob um mar de colinas intermitentes, dentro de uma embarcação, configurada, ao mesmo tempo, como um pedestal desse coqueiro. Ao seu lado, paira uma câmara fotográfica (presente em diversas outras telas da mesma época) que irradia seu foco para o “mar”. Um elemento característico da paisagem de sua terra de origem é confrontada, por sua disposição na tela, com uma tecnologia desconhecida a essa mesma cultura de origem, no momento de sua constituição.

Tudo ocorre como transcendência: os três elementos principais, fotografias originais, imagens de ex-votos e o movimento antropofágico constituem a base de todas essas transformações encontradas na poética do pintor. Metaforizam nela o próprio ato criador. O resultado desse estado de tensão mostra-se em sua pintura, fundamentalmente a partir de motivações pessoais. “A obra de arte é uma confissão de um autor”, afirmava Freud sobre a obra de Dostoievski, “mas para aqueles que sabem lê-la”, acrescentava.

E ao exercer sua leitura, somos atraídos, por outro lado, ao processo de colagem, apontado nessa pintura: o artista utiliza fragmentos da literatura, associados à pintura, desde Fernando Pessoa a Homero, Dante, Kafka e Montaigne, até os da literatura infantil, como Pinocchio, ou o chimpanzé Yzur. E também Macunaíma. No decorrer de sua obra vêem-se essas diversas colagens, nas quais convivem anjos e brinquedos, cavalos e móveis, todos dispostos conjuntamente e colados à superfície da tela, lado a lado. Lembra-se que este procedimento diz respeito a uma linguagem que introduziu elementos não habituais às categorias artísticas tradicionais, contra o ilusionismo da pintura a óleo. Viu-se permanentemente associada às relações entre a realidade e sua aparência. No trabalho de Eduardo, a colagem apresenta-se como um corte na ordem habitual da proposta: desenvolve o emprego de fragmentos, colando, em um mesmo espaço perceptivo, diferentes assuntos e sentidos para compor a estrutura final. Pode-se entrever a profunda imbricação entre os dois processos, apropriação e colagem, pois ambos repropõem os elementos deslocados da realidade para esta nova, a de sua existência na arte. Em uma pintura de 1983, as repetidas ondas marítimas dispostas à superfície do oceano como asas multiplicadas são, por exemplo, colagens de elementos que, no real, seriam impossíveis. Entretanto, dentro dos limites do suporte, eles assumem sua outra realidade, somente viável no imaginário desta pintura. Seria esta última, assim, um artifício? Finalmente, o que vem a ser o real em arte?

Sob a colagem e a apropriação pode-se situar o coração do trabalho de Eduardo. Sua proposta requer uma abordagem complexa, qualidade importante nessa obra, pois oferece-se a leituras multidisciplinares, sugerindo possíveis apreensões por parte de outros campos de conhecimento, como pela psicanálise, etnologia, religião, antropologia, semiótica e história, desde que provenham das questões fundamentais que sua arte propõe.

Esses dois focos axiais, escolhidos por Eduardo, permitem-nos repensar as relações da arte com o real. Trazem a possibilidade de abordá-las em uma ótica multifocal, seja alterando imagens guardadas, em uma distinta percepção atual em relação a esses referentes de outros tempos, assim como também ao repensar os meios específicos da arte. Essas leituras referem-se a um trabalho muito contemporâneo, o que diz respeito a questões de identidade: a do artista e as interações entre sua produção e o mundo, a de seu intrincado processo artístico em referências à cultura da qual provém e onde se insere.

Eduardo Vieira da Cunha exerce todas essas possibilidades em seu trabalho, em um modo muito sensível. Propicia que interroguemos a arte, a partir da sua arte. É uma obra centrada na permanente busca das questões de pintor e de fotógrafo que é, aparentemente descomprometido com uma arte que não mais reconhece distinções de categorias e meios específicos. Revela, em um particular senso poético, e de forma sutilmente dissimulada, muitos dos dilemas que esta encontra ao se apropriar da vida, de seus fatos e registros. É nesse preciso limiar que ela esbarra no artifício, aquele que Eduardo sabe, com tanta inventividade, descobrir e substancialmente aprofundar.

NOTAS

1. Robert S. Nelson. “Appropriation”. In: Robert S. Nelson and Richard Shiff (org). Critical Terms for Art History. Chicago, London, The University Press, 1996.
2. Cf. Tadeu Chiarelli. “Apropriação / Coleção / Justaposição”. Catálogo Apropriações / Coleções.

*Mônica Zielinsky é doutora em arte e estética e autora do Catálogo Raisonnée da obra de Iberê Camargo.

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