O continente selvagem

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Para quem gosta de história do século 20, uma boa dica é “Savage Continent: Europe in the Aftermath of World War II” (o continente selvagem: a Europa na esteira da Segunda Guerra Mundial), de Keith Lowe.

Além de ser um livro bastante informativo, investigando uma área raramente cavoucada pelos especialistas, “Savage Continent” funciona como um excelente contraponto a “The Better Angels of Our Nature” (os melhores anjos de nossa natureza), de Steven Pinker, que já resenhei neste espaço e ao qual constantemente faço referências. A principal tese de Pinker, que tem algo de contra intuitivo, é a de que o mundo está se tornando um lugar cada vez mais seguro para viver, e a raça humana se mostra cada vez menos violenta. É claro que o psicólogo canadense está falando sob a perspectiva dos séculos e dos milênios. O que o historiador britânico faz é apanhar a lente das décadas (que é, aliás, mais compatível com a nossa expectativa de vida) e mostrar que há perigos à espreita.

Ao pintar um quadro caótico do pós-Guerra, Lowe em nenhum momento desmente as ideias de Pinker. Na verdade, o próprio Pinker apresenta uma detalhada discussão sobre a barbárie desmedida do século 20 e de como ela não afeta a tese da redução da violência. Mas os vívidos detalhes descritos no livro de Lowe de como os europeus continuaram se matando mesmo depois do encerramento oficial do conflito servem para lembrar a fragilidade dos avanços que a humanidade fez ao longo dos últimos milênios.

E o que se seguiu à Segunda Guerra na Europa é uma história de caos e anarquia, não de reconstrução e reconciliação, como reza o figurino oficial.

É claro que o legado do conflito não facilitou as coisas. À destruição física das cidades, devem-se somar as cifras obscenas de morte, os deslocamentos populacionais, a fome e a implosão dos padrões morais que existiam antes da guerra.

Os números são impressionantes. Nas localidades que foram palco de batalhas mais intensas, mais de 70% das edificações ficaram arruinadas, como o caso de Saint-Lô (75%), Le Havre (82%), Budapeste (84%), Rostov e Voronej (100%).

As perdas humanas foram ainda mais catastróficas. A guerra foi diretamente responsável pela morte de algo entre 35 milhões e 40 milhões de pessoas. A distribuição foi, é claro, desigual. Um país relativamente poupado como o Reino Unido, registrou 300 mil óbitos, enquanto a Alemanha perdeu 6 milhões (entre os quais 160 mil judeus) e a União Soviética, 27 milhões (dos quais 1 milhão eram judeus).

Esses dados, porém, são história conhecida. O que Lowe faz muito bem é escarafunchar os detalhes da reconstrução e mostrar que ela foi muito mais problemática do que se imagina. Um dos principais cavaleiros do apocalipse do pós-guerra foi a vingança.

Os primeiros a abraçá-la foram os próprios militares. As cidades “liberadas” rapidamente se convertiam em palco de estupros e mutilações. E é preciso frisar que houve abusos de todos os lados, mas os soviéticos, que haviam sofrido o diabo nas mãos dos nazistas, se esmeraram no revide.

Os soldados alemães, é claro, já intuíam isso e saíram em disparada para entregar-se para as tropas ocidentais. Os números confirmam a intuição. Prisioneiros do Exército Vermelho tinham uma probabilidade 90 vezes maior de morrer do que cativos de americanos e ingleses.

Só em Berlim, após a chegada dos soviéticos, 90 mil alemãs buscaram assistência médica para tratar das sequelas dos estupros. Em Viena, foram 87 mil. Na Hungria, entre 150 mil e 200 mil. Esse processo de violações em massa continuou por três anos, até 1948.

Os soldados ocidentais parecem ter se comportado um pouco melhor que os soviéticos, mas um militar russo oferece uma boa explicação: “Os GI [americanos] e Tommy [britânicos] têm cigarros e chocolates para oferecer às `Frauleins´, então eles não precisam estuprar. Os russos não têm nada disso”.

Evidentemente, os estupros deixaram suas marcas, que são estimadas em algo entre 150 mil e 200 mil “bebês estrangeiros” nascidos de mulheres alemãs. No resto da Europa, havia o problema dos “bebês alemães” nascidos de mulheres que dormiram com o inimigo. Em qualquer hipótese, essas crianças foram extremamente maltratadas, quando escaparam do infanticídio, é claro.

A ira dos povos se voltou também contra colaboradores, colaboradoras e, especialmente, povos vizinhos. De novo, os judeus estão entre os que tiveram mais problemas. Aqueles que sobreviveram aos campos de concentração e conseguiram voltar para suas casas foram invariavelmente mal recebidos. Em muitos casos, eles haviam deixado propriedades sob os cuidados de vizinhos, que, após tantos anos, se sentiam donos desses bens e não queriam devolvê-los. Um pensamento corrente era: de todos os judeus que desapareceram na Europa logo o meu foi voltar.

Em algumas situações a violência deu o tom. Estima-se que entre 500 e 1.500 judeus que sobreviveram ao nazismo na Polônia foram assassinados por poloneses entre a liberação pelos soviéticos e o verão de 1946.

Igualmente desumanos foram os deslocamentos forçados de populações, que custaram milhares de vidas. Calcula-se que algo como 50 mil tchecos de expressão alemã morreram no processo de expulsão para terras germânicas. Processos semelhantes ocorreram na Polônia, Hungria, Romênia, Iugoslávia, Estados bálticos e na própria Rússia.

As matanças envolveram vários outros povos. Dezenas de milhares de poloneses foram dizimados por ucranianos. Búlgaros massacraram gregos e húngaros liquidaram iugoslavos. Muitos aproveitaram o cenário de caos para resolver também disputas ideológicas. Comunistas foram perseguidos no Oeste, e capitalistas no Leste.

Como observa Lowe, a variedade e a profusão de recriminações que havia em 1945 mostram que o conflito foi bem mais universal e profundo do que revelam as interpretações históricas usuais. A Segunda Guerra Mundial, diz Lowe, não foi apenas uma batalha por território. Ela foi isso e, ao mesmo tempo, uma disputa racial e ideológica salpicada de uma dezena de pequenas guerras civis.

Para o autor, é preciso modificar um pouco o famoso aforismo de George Santayana, que dizia que “aqueles que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo”. Na verdade, é porque não conseguimos esquecer o passado que estamos condenados a repeti-lo.

O mundo decerto está melhorando, mas todo cuidado é pouco. Se há apenas sete décadas mergulhamos de uma relativa estabilidade no horror da violência e tivemos enormes dificuldades para sair do abismo, convém não facilitar.

Fonte: Hélio Schwartsman,  bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão” em 2001. Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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