O Réquiem Carioca

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Quando as tropas francesas lideradas pelo Marechal Junot ameaçaram invadir Portugal, a família real foi procurar asilo no Brasil. No dia 22 de janeiro de 1808 a frota imperial fez sua primeira escala em Salvador. Ela era formada por oito navios de carreira, três fragatas, quatro brigues e duas escunas.

Além de transportar o rei Dom João VI e seus familiares, o grupo era integrado por três ministros, dezenas de membros da alta nobreza de Portugal, clérigos e administradores da Casa Real. A dinastia dos Bragança transferia sua soberania para colônia brasileira. Estima-se em quinze mil pessoas o total de refugiados que buscaram o exílio, em levas sucessivas.

Além de móveis, vestuário e obras de arte pertencentes à Coroa, Dom João VI preocupou-se em despachar para o Brasil sua biblioteca particular composta por um acervo de 60.000 volumes. Isto simboliza seu interesse pela cultura, temas intelectuais e criação artística.

Antes da chegada da família real o território das Minas Gerais já se destacava pelo florescimento das artes e nos salões de Ouro Preto se escutava a música de Joseph Haydn e Wolfgang Amadeus Mozart.

Com a chegada de Dom João VI ao Rio de Janeiro, o Brasil passou a receber convidados ilustres da Europa como pintores, cientistas, escritores e músicos.

Grandes concertos passaram a fazer parte dos eventos musicais proporcionados pela corte, como a estréia de A Criação de Haydn, em 1819 e reprisada várias vezes.

 

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Em dezembro de 1821, a Confraria de Santa Cecília apresentou na igreja do Parto seu tradicional concerto anual em memória aos músicos falecidos naquele ano. A obra escolhida foi o Réquiem de Mozart a ser apresentado pela primeira vez no continente sul americano. Destacamos fragmento de um artigo publicado na Gazeta Musical de Viena – Allgemeine Musikalische Leitung:

A regência da Orquestra Real ficou a cargo do padre José Maurício Nunes Garcia. O entusiasmo com o qual o padre Garcia superou as dificuldades para viabilizar a execução da obra-prima do nosso imortal Mozart merece nossos agradecimentos mais calorosos. O concerto não deixou nada a desejar. Todos os talentos se conjugaram para receber, com dignidade, o estrangeiro Mozart neste novo mundo. 

 

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O autor dessa matéria foi o compositor austríaco Sigismund Ritter von Neukomm (1778-1858) natural de Salzburg, cidade natal de Mozart. Ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1816, Neukomm logo estabeleceu fortes vínculos de amizade com o padre José Maurício. Coube a ele auxiliar os músicos da Orquestra Real a preparar a primeira apresentação do Réquiem.

Cabe destacar um pequeno parêntese. Mozart, ao falecer, deixou sua obra inconclusa. Sua esposa precisava conseguir dinheiro para manter-se a si e aos seus dois filhos pequenos. Ela necessitava urgência na conclusão daquela que seria a obra póstuma de Mozart e que lhe garantiria bons dividendos financeiros.

Constanze delegou a Joseph Leopold von Eybler, aluno de Mozart, a tarefa de completar o Requiem. Ele chegou a escrever alguns movimentos, mas abandonou o projeto. O trabalho passou para Franz Xavier Süssmayr que concebeu o final de Lacrimosa e escreveu o Offertorium, Benedictus, Sanctus, Agnus Dei e Lux Aeterna.

Já comentamos em coluna anterior – K 525 – que o conceituado maestro Nikolaus Harnoncourt nunca acreditou na capacidade de Süssmayr em concluir o Réquiem. Anos mais tarde Contanze revelou para a família Novello que as contribuições do jovem e obscuro aluno de Mozart foram rotineiras e mecânicas, já que Mozart deixou rascunhado o material para os últimos movimentos. Musicólogos como Wolfgang Plath e Richard Maunder desqualificam o papel de Süssmayr na finalização do Réquiem ao afirmar que Mozart deve ter lhe deixado um quase completo esquema do Agnus Dei.

Apesar de todas as polêmicas, o Réquiem composto por Mozart e finalizado por Süssmayr é a versão oficial aceita e interpretada até os dias de hoje.

Durante os ensaios da obra, no Rio de Janeiro, Neukomm comentou com o Padre Nunes Garcia que segundo os rituais da Igreja Católica Romana, um ofício para os mortos deve ser finalizado com um movimento chamado Libera me. Para dar mais brilho à estréia da obra imortal de Mozart, o compositor compôs especialmente este encerramento para o Réquiem.

Aluno brilhante de Michel Haydn, Sigismund Neukomm ousou ao criar uma conclusão musical e litúrgica para uma das obras mais famosas da história da música. A partitura e as anotações manuscritas feitas pelo autor a respeito do Libera me foram guardadas durante muitos anos nos arquivos da Confraria de Santa Cecília, sendo mais tarde transferidos para a Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.

Por motivos desconhecidos, o precioso acervo foi parar na Biblioteca Nacional, sendo descoberto no final do século XX.

Graças ao maestro e musicólogo Jean-Claude Malgoire, o Requiem completado por Neukomm acaba de ser gravado em CD, pela Télérama. Malgoire não é um fanfarrão nem um ingênuo. Ele é um especialista em música barroca e clássica, extremamente respeitado em toda Europa. Ao descobrir o manuscrito do Rio de Janeiro e analisar os textos de Neukomm, ele não hesitou em dar seu aval para reger e gravar o Réquiem Carioca.

Segundo o crítico Piotr Kaminki este disco permite ao melômano descobrir o final acrescido por Neukomm. Esse último movimento – com a duração de oito minutos – nos causou uma curiosa satisfação, como se conseguisse fechar um ciclo dramático natural. Isso talvez aconteça porque ele utiliza duas citações importantes de Mozart (Introitus e Dies Irae). Quanto à sua própria invenção, amável e melodiosa, tão respeitosa ao estilo, não voa mais baixo que Süssmayr, não insultando em nada o resto da obra.

 

RÉQUIEM

 1791 Vienne – Rio de Janeiro 1821

W. A. Mozart – conclu par Sigismund Neukomm

Hjordis Thébault, soprano – Gemma Coma-Alabert, mezzo soprano – Simon Edwards, tenor –Alain Buet, baryton basse.

La Grande Ecurie et la Chambre du Roy

Kantorei Saarlouis

Jean-Claude Malgoire

Premier Enregistrement mondial.

Télérama.

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torelly@polors.com.br

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