O instrumento é mais importante que os objetivos

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Uma dose de irreverência temperada com personagens fictícios ou reais, políticos e ainda artistas pode ajudar a traduzir a dureza dos temas econômicos para leitores que se interessam pelo assunto, mesmo sem dominar o jargão técnico do setor. Foi pensando nesse público leigo que o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, compilou observações sobre episódios diferentes e as reações – quase sempre semelhantes – de quem decide e movimenta os caminhos da economia brasileira. As anotações, coletadas ao longo de quatro décadas, estão em “As Leis Secretas da Economia – Revisitando Roberto Campos e as Leis do Kafka”.

A inspiração para o livro veio de um artigo dos economistas Roberto Campos e Alexandre Kafka, publicado, em 1961, na revista “Senhor”. Os autores afirmavam, então, que a economia brasileira não obedecia a nenhuma das leis conhecidas, cabendo, portanto, investigar as normas secretas que a regiam. Algumas das dez leis estabelecidas por Campos e Kafka, que retomaram o tema em outras publicações, não integram o livro de Franco, já que alguns dos tópicos perderam a atualidade.

“Muito do que eles abordaram ficou datado. Na época da hiperinflação, ninguém se indignava com aumentos de 5%. Hoje, esses percentuais são preocupantes. Há situações que simplesmente deixaram de existir. Ainda se discute privatização no país, a inflação permanece incômoda, porém o enfoque é outro”, observa Franco.

Se a vida mudou nos últimos 50 anos, há situações que se mantêm praticamente imutáveis, como a descrita pela Lei do Kafka nº 10 – Da Conservação do Ente Burocrático. A ementa define: “O ente burocrático é indestrutível, ou o instrumento é mais importante do que os objetivos, ou o fim serve aos meios. Parágrafo único: Toda vez que dois órgãos públicos precisarem examinar o mesmo processo em separado, nenhuma decisão será tomada. E quando se tornar imperativa uma decisão consensual e negociada, ela terá o condão de manter tudo exatamente como sempre foi”.

Outra lei de Kafka que permanece atual é a nº 9, que trata da transferência da culpa, e diz que “é menos importante encontrar soluções do que ter bodes expiatórios”.

Há ainda observações do próprio Franco que desafiam a passagem do tempo, como a Segunda Lei das Fusões Bancárias, pela qual em toda fusão de banco apoiada pelo Banco Central ao menos um dos “nubentes” está quebrado.

O tom informal e profundamente ácido do texto segue o estilo empregado por Campos e Kafka. “É irônico, porém, não fiz brincadeiras superficiais. Todas as leis existem e têm respaldo em teses econômicas comprovadas, como aponto na bibliografia”, diz Franco.

As dez leis originais se estenderam a 74, que, agrupadas em capítulos que tratam de finanças públicas, mercado, bancos, globalização e câmbio, entre outros temas, apresentam o panorama da vida econômica brasileira nas últimas décadas. Não houve uma ordem de valores nem de cronologia, apenas a intenção de criar um panorama que ajuda a compreensão da economia por leitores que estão distantes da angústia que o tema já provocou, quando a busca por informações era no afã de encontrar “respostas para sobreviver”, diz Franco. Esse novo leitor, que tem, segundo o economista, uma visão mais positiva da economia, combina com uma tendência na literatura econômica acentuada a partir de 2008.

“A crise mundial levou a uma profusão de documentários e livros explicando a história financeira em termos abrangentes, de fácil compreensão para a maioria do público. Incluí ilustrações no texto que, além de trazer leveza ao volume, também têm a intenção de cativar o público não habitual de economia, sem abrir mão, no entanto, do pensamento econômico sólido”, explica Franco.

A crítica à linguagem dura e, por vezes, vazia dos economistas e acadêmicos, está em diversos trechos do livro, como o pequeno glossário do “Teorema do Esquimó”, que determina que “o número de palavras incompreensíveis, em economês, de índices de inflação e de pessoas envolvidas com o assunto, é proporcional ao quadrado do índice da inflação”.

Referências à cultura pop mais recente, utilizando personagens de séries televisivas, como o médico Gregory House, ou de cinema – “Forrest Gump” e “Kagemusha” – para dar nome a leis, teoremas ou axiomas, juntam-se a citações tiradas de obras dos escritores favoritos do autor, entre eles William Shakespeare, Ernest Hemingway, Carlos Drummond de Andrade e Mario Vargas Llosa, exemplificando ou esclarecendo as estranhas normas que regem o Brasil, não apenas no campo econômico. As reformas sociais empreendidas por Mikhail Gorbachev e o romance “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, são unidos no Teorema de Hemingway-Gorbachev, que prevê o desgaste progressivo e irreversível dos governantes reformadores, que acumularão inimigos até entre os beneficiários de suas iniciativas, “incapazes de perceber que a melhoria de seu padrão de vida se deve aos reformistas”.

Fonte: Olga de Mello / Valor Econômico

 

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