A constante frustração de ser turista no Brasil

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Na mais rica igreja do barroco brasileiro um aviso vai logo tirando sua esperança de ser tratado com dignidade como turista: “Não temos guias”. Caso você queira conhecer a construção erguida em nome de São Francisco de Assis, em Salvador, vai ter que se contentar com um folhetinho mequetrefe ou forçar a visão para ler as placas apagadas dos mais exuberantes painéis de azulejos portugueses do país. Pode ainda se submeter a um condutor informal – tributariamente falando – que mistura Jesus com Genésio. O turista focado perde um elo com o passado do Brasil. O desinteressado sequer tem a chance de ser seduzido.
No elevador Lacerda, filas de até 45 minutos para ir da cidade alta para a baixa ou vice-versa. Duas cabines estão em reforma em plena alta temporada. Muitos dos viajantes que chegam em Salvador de navio – algo como até 7 mil por dia nesta época – desistem diante da muvuca. Preferem pegar um táxi. Mas aí vale a advertência dos próprios garçons de um dos restaurantes típicos. “Cuidado com os taxistas. São todos malandros.”
O viajante com mais recursos pode até se refugiar no mais luxuoso hotel da cidade em pleno Pelourinho. Quem sabe um almoço da gastronomia portuguesa? Mas no agradabilíssimo restaurante Conventual, no Pestana Convento do Carmo, não havia bacalhau – ingrediente de 70% dos pratos do cardápio – e muito menos vinho branco. “Ficou tudo preso na alfândega. Eu fui treinado para nunca dizer não para um cliente. Mas só tenho feito isso esses dias”, lamenta um atendente solícito do restaurante.
É exatamente isso. Ser turista no Brasil – do Norte ao Sul – é receber não pra quase tudo. Você não vai ter informação. Não vai ser bem atendido. Não vai pagar barato. Para se divertir vai ter que não pensar nisso tudo. A única saída é sublimar os disparates absorvendo a natureza espetacular e apaziguadora das frustrações. Mas até quando?
O país está perdendo uma oportunidade imensa de “formar” os novos viajantes que estão entrando no mercado. São milhares de emergentes brasileiros que têm direito a conhecer mais da história e da cultura do país. Gente que foi privada de uma educação de qualidade e que com as viagens tem a oportunidade de enriquecer seu repertório. Em vez disso esbarra no descaso do poder público no trato com o turismo. E na preguiça da inciativa privada que, depois de colaborar com o restauro de algum prédio histórico, acredita que basta colocar sua placa.
Há um sentimento de crítica cada vez que os gastos de brasileiros com viagens ao exterior batem recordes – de janeiro a novembro de 2012 superaram os US$ 20 bilhões. É como se fôssemos todos uns deslumbrados e antinacionalistas que só valorizamos o que é de fora. Mas depois de tentar uma primeira viagem no país, quitar em zilhões de prestações, e só lembrar da raiva sentida ao pagar R$ 7 por uma long neck e R$ 14 por um pacote de 200 gramas de Pringles no frigobar de um hotel decadente, o cidadão quer dar mais valor ao seu dinheiro. Não ter acesso às informações culturais e históricas de qualidade faz parte do prejuízo.
O turista quer sim ter emoções mais prazerosas e educativas no Brasil. Basta conferir a multidão que se aglomerava no projeto Tamar, na Praia do Forte, na primeira semana de janeiro. Os visitantes saiam de lá satisfeitos e emocionados, mesmo depois de enfrentar empurra-empurra para que seus filhos vissem os primeiros passos das tartarugas recém-nascidas rumo ao mar.
Os resorts foram a tentativa de criar ilhas de excelência em meio à falta de estrutura do litoral brasileiro. Em seus domínios, a despeito da falta de coleta de lixo do município ou da pobreza das comunidades locais, o sonho de ser um turista com direito a muito “sim” era viável, ainda mais em prestações e amaciado com caipirinhas free. Mas isso, lembra o consultor José Ernesto Marinho, especialista em investimentos hoteleiros e fundador da BSH, foi antes da crise internacional que afastou os turistas gringos. Ao mesmo tempo, os brasileiros que ascenderam também descobriram que poderiam desfrutar dos mesmos benefícios e pagando menos em hotéis semelhantes no Caribe.
Os empresários portugueses e espanhóis que tinham investido no Nordeste e multiplicaram as ofertas de hospedagem na região sentiram o descompasso com a demanda. Em 2006, a taxa de ocupação média nos resorts era de 80%. Hoje está em 53%, sendo que o valor das diárias no mesmo período caiu 25%. E aí, para cortar custos, mexeram exatamente naquilo que os fazia diferentes, o serviço. Houve uma juniorização dos funcionários e os mais experientes que restaram passaram a sofrer de depressão diante dos vácuos de ocupação. Tiveram problemas de saúde porque mesmo capacitados e compromissados ficavam ociosos. Pior que dizer não era fingir que o padrão se mantinha.
Assim, os turistas brasileiros traídos nas suas expectativas por aqui vão ficando cada vez mais internacionais. Buscam o custo-benefício do lazer que lhes é negado no mercado interno. Na comparação além-fronteira, o que não funciona aqui fica evidente e os novos viajantes tornam-se mais exigentes. A massa crítica vai crescendo e quem sabe, assim, a oferta se aprimore e o poder público passe a tratar seriamente o turismo não só como um setor da economia, mas também da educação e da cultura. O que deprime é ouvir a mesma ladainha a cada picada de pulga tupinambá ou atraso de malas no aeroporto: “Imagine na Copa.” Não são necessários 90 minutos de futebol no futuro. O pior já é hoje.
Fonte:  Angela Klinke / Valor Econômico
 
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