O mundo é nosso!

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Nenhuma expressão é tão pronunciada em coreano como pali pali. Em bom  português: apresse-se. Vale para o formigueiro humano que se acotovela para arranjar lugar no metrô de Seul ou para expressar a urgência em atingir uma meta. Foi em ritmo pali pali que uma área abandonada de Pohang, cidade industrial a 270 quilômetros da capital, se  converteu em menos de três décadas em uma universidade dedicada à inovação que já figura entre as cinquenta melhores do mundo – a Postech.

Até hoje, nenhum premio Nobel saiu de lá, mas duas bases de concreto à espera do busto de um futuro lareado não deixam dúvidas quanto à ambição. É nesse ambiente de expectativas nada modestas que se destaca um grupo de estudantes vindos de três regiões do Brasil, os únicos latino-americanos no campus. Eles já viveram diversos momentos de espanto. Um deles se deu quando entraram no laboratório de robótica tão futurista que parecia um cenário de filme. A obstinação de colegas que disputam mesas na biblioteca até alta madrugada foi outra cena inusitada. “Num lugar como este, tudo conspira a favor da ciência“, resume o estudante de engenharia eletrônica André Luiz Martins, 22 anos, levando à boca uma colher de kimshe, prato coreano feito de repolho embebido em pimenta – outro choque.

Brasileiros integrantes de uma leva de 100.000 estudantes que, confirmadas as previsões, terá embarcado até 2015 para temporadas nas melhores universidades de quarenta países. Mais de 14.000 já partiram e outros 8.000 se preparam para viajar neste mês. Eles são financiados pelo Ciências sem Fronteiras, programa federal que, por sua dimensão e cifras, não tem precedentes na história brasileira de distribuição de bolsas no exterior. Para se ter uma medida, o orçamento de 3,4 bilhões de reais (75% vindos do caixa da União, 25% do setor privado) fará quase quadruplicar o número de bolsas para alunos da graduação ao pós-doutorado em dezoito áreas das ciências exatas e biológicas. O objetivo é expor gente talentosa ao DNA inovador de países mais desenvolvidos, um caminho percorrido já décadas atrás pela China e pela própria Coréia, com sucesso. Para aproveitar esses talentos na volta, a academia brasileira precisará se despir de velhas ideologias e do atoleiro burocrático que ainda a mobilizam. “Se a chance for bem aproveitada, pode ser um passo decisivo para o avanço científico e tecnológico do país“, avalia o economista Claudio de Moura Castro.

Vivendo em dormitórios universitários que abrigam uma miríade de nacionalidades e costumes, os brasileiros destoam pelos decibéis – “They talk, talk, talk“, diz um coreano -, mas vão se adaptando a ambientes mais silenciosos e concentrados para o estudo e a pesquisa. Quase não se ouvem vozes, mas apenas um suave ruído vindo do manuseio de equipamentos no Instituto Max Planck, em Munique, uma das instituições que mais produziram prêmios Nobel no planeta. A capixaba Rebecca Cruz, 21 anos, ainda se habitua à idéia de ser acolhida ali, no grupo liderado por Wolfgang Baumeister, um dos mais estrelares nomes da biologia molecular moderna. Rebecca investiga o papel de uma proteína especial para o processo de divisão celular, utilizando uma avançada técnica de congelamento. Decifrar os segredos dessa proteína é um uma etapa crucial de uma promissora linha de combate ao câncer. “Mal cheguei e me fizeram mexer numa máquina de milhões de euros. Venci o medo“, conta a estudante, ao lado do namorado, Paulo Victor, 22 anos, que também ganhou bolsa e cujo semblante se ilumina ao falar da pesquisa que desenvolve com sapos na vizinha Ludwig-Maximilians, uma das maiores universidades alemãs. O leque de assuntos que absorvem os brasileiros é variado e ambicioso. Ele vai da cura do diabetes à produção de uma prótese que recria os movimentos da mão; do desenvolvimento de biocombustíveis ao avanço na tecnologia de GPS e celular.

A imersão em ambientes que respiram ciência de alto nível certamente incutirá nesses jovens cérebros novas e elevadas expectativas acerca do futuro – o que é essencial para pavimentar o caminho do desenvolvimento. Só que a despressurização na volta para o Brasil tem tudo para ser dolorida, fazendo pairar um ponto de interrogação sobre como essas mentes inovadoras poderão fazer diferença em ambientes que falta até o básico – material para pesquisa. Tais jovens dificilmente escaparão dos labirintos burocráticos que transformam a importação de um simples reagente numa epopeia de meses. Não é difícil imaginar também que os estudantes da graduação, que abriram o seu leque de interesses e experiências no exterior, sintam um baque no retorno ao antiquado modelo brasileiro de universidade, à base de muita aula, pouco projeto e uma grade de matérias inflexíveis e há décadas congeladas no tempo. (Enquanto na Universidade Tecnológica de Munique os engenheiros ambientais podem escolher entre as trinta disciplinas ligadas às formas de energia renovável, no Brasil as universidades não oferecem mais do que uma ou duas). Estes jovens terão de encarar ainda a velha desconfiança que persiste em certos grupos acadêmicos em relação ao mercado, fruto de um ranço tecnológico segundo o qual a universidade pública se deve manter longe dos tentáculos privados.

As instituições estrangeiras que estão absorvendo os brasileiros rompem com essa barreira de forma radical, ajudando a talhar talentos para a inovação. Em alguns casos, fica até difícil divisar onde termina o interesse da universidade e começa o da empresa. Os alunos se beneficiam. Na Alemanha, Ph.Ds. da fábrica de carros BMW lançam aos estudantes o desafio de aprimorar um software para o sistema de um carro que está em linha de produção, ensinando os princípios essenciais da engenharia. Numa disciplina de projetos do instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, um grupo de brasileiros está envolvido com o desenvolvimento de produtos reais encomendados por multinacionais que dão verbas à universidade. Acabaram de criar uma máquina que eleva a produtividade na colheita de legumes. Em outra aula, aprendem os
caminhos que levam à criação de um produto ou técnicas inovadores o bastante para receber uma patente – obsessão naqueles vibrantes corredores. Uma parte dos bolsistas ainda tem a oportunidade de ampliar a visão para além dos muros acadêmicos arranjando estágios com empresas privadas com a ajuda do Ciência sem Fronteiras, talvez um dos aspectos mais interessantes do programa.

A história é rica em exemplos de como sociedades menos desenvolvidas conseguiram dar um salto ao absorver conhecimentos de povos mais evoluídos. A primeira iniciativa organizada nesse sentido ocorreu na Roma antiga, onde os figurões da elite passaram a importar como escravos os melhores cabeças da civilização grega, então em declínio, para ensinar história, filosofia, arquitetura e direito a seus filhos. Mais tarde, quem podia começou a viajar em busca de excelência. Na Idade Média, os mais abastados vinham de toda a parte para estudar em universidades como Sorbonne, Oxford e Bolonha a mais antiga de todas. Já no século XI, ela já recebia estudantes das mais diversas origens – gregos, húngaros, árabes, africanos. As grandes migrações intercontinentais de cérebros são um fenômeno da segunda metade do século XIX, quando a elite das colônias passou a abrigar-se nas instituições de ensino das metrópoles – como aconteceu com os brasileiros em Coimbra. Foi da combinação de brasileiros educados no exterior com estrangeiros vivendo no Brasil que surgiriam décadas depois as bases para a ciência nacional.

A maioria dos jovens brasileiros da leva atual tem o currículo envernizado por notas altas e, não raro, experiência em pesquisa, passagens pelo exterior e bom domínio pelo menos do inglês (idioma em que têm aulas até em alguns países de língua não inglesa, como a Coreia). “Eles estão assimilando uma cartilha que preza planejamento, metas, competição e risco intelectual. Na volta, têm tudo para cobrar e desencadear mudanças – começando pela própria universidade em que estudam“, enfatiza o doutor em engenharia elétrica Daniel Fink, coordenador do Ciência sem Fronteiras em Seul. Talvez, mas a experiência ensina que esses que extrapolam a média abominam mais do que tudo a sensação de
paralisia. Se encontram um ambiente impermeável a mudanças e desprovido de estímulos, podem tomar o caminho de volta para o exterior ou nem mesmo querer retornar.

O caso da Coreia reforça isso. Na década de 60, 97% dos cientistas coreanos abrigados em universidades americanas não cogitavam regressar a seu país. A situação só começou a se reverter com um investimento maciço em centros de pesquisa que ofereciam aos que haviam debandado altos salários, laboratórios de nível mundial e – o mais importante – uma carreira acadêmica definida por critérios meritocráticos. Para se ter uma noção do prestigio desses que voltavam, quem buscava acesso aos quadros de alto escalão do governo ia até eles pedir que abrissem as portas do poder. Em duas décadas, 70% dos que estavam fora regressaram, constituindo uma força de trabalho decisiva para a economia coreana deslanchar. “Voltamos porque sabíamos que tínhamos condições para crescer e fazer diferença na ciência do país“, conta o doutor em engenharia elétrica Yougmin Kim, presidente da Postech, 59 anos, 35 dos quais vividos em universidades dos Estados Unidos.

A ideia do Ciência sem Fronteiras surgiu em março de 2011, em Brasília, durante um encontro da presidente Dilma Rousseff com o seu colega americano, Barack Obama. A conversa entre os dois governantes fluía bem até que Obama cutucou: “Por que há 120 000 chineses estudando em universidades americanas e só 7000 brasileiros?“. Quem assistiu a cena conta que Dilma ficou desconcertada e saiu decidida a ter resposta melhor a dar em uma próxima vez. Em não mais do que dez meses – tempo recorde para empreitada de tal envergadura – o programa foi criado do zero, universidades, CNPq e Capes selecionaram os alunos, e a primeira leva partiu. “A ordem era botar a engrenagem andando e ir fazendo reparos ao longo do processo“, conta um técnico envolvido no programa.

Não é difícil entender porque o Ciência sem Fronteiras estreou com tantos escorregões. Uma turma da graduação acabou voltando depois de apenas seis meses (hoje o tempo mínimo é de um ano), bolsas atrasaram e parcerias com universidades de primeira linha, como Harvard e Stanford, não haviam sido sequer seladas. No primeiro edital, eram os próprios alunos que, com a bolsa aprovada, tinham de acionar a instituição em que desejavam estudar. Tantos foram os currículos enviados ao Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), meca para as engenharias, que a faculdade, desavisada sobre o programa, fez chegar uma aviso aos brasileiros: que cessassem os pedidos, já que não havia como atendê-los. Agora, um órgão especializado em intercâmbios acadêmicos de cada país cuida da distribuição dos alunos pelas universidades,
com base numa lista de opções assinaladas pelo estudante. Às vezes, acontece de o aluno ir para um curso que não está no topo de excelência, ainda que a instituição seja de bom nível. É preciso ajustar o sistema e fazer o pente-fino em prol da qualidade.

Os números do Ciência sem Fronteiras poderiam até ser mais superlativos, mas faltam candidatos para preencher as vagas. Na graduação, a procura é alta, mas muitos são barrados na seleção por não apresentar um nível básico de inglês. Mesmo com a meta de 2012 cumprida, haviam 40% a mais de bolsas a distribuir. O dado da pós-graduação é ainda mais espantoso: 64% das bolsas ofertadas estão à espera de aspirantes. “Muita gente na universidade brasileira vive numa zona de conforto, sem muitos riscos nem grandes ambições, por isso não se candidata“, diz o físico Gláucios Oliveira, presidente do CNPq. Espera-se que a turma talentosa e cheia de planos que já embarcou rompa o marasmo e ponha o Brasil na rota da inovação. É preciso acelerar o passo. Ou, como se diz na Coreia, pali pali.

FONTE: Revista VEJA

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