O circo de lona e a resistência urbana

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“O circo era um balão iluminado… ” (Oswald de Andrade)

Dias atrás, numa reunião da novíssima Associação dos Amigos do Centro de Memória do Circo, discutíamos a periclitante situação do circo de lona, esse balão iluminado que encanta os mais remotos tempos, quando, itinerante, mambembeava por quase todas as cidades do planeta, erguendo nelas a mais antiga sala de espetáculos do mundo.Abrigo mínimo do sol, da chuva, das intempéries, frágil balão colorido e iluminado, dentro da lona se apresentavam atores, cantores, trapezistas, bichos, mágicos, palhaços, enfim, o mundo… do circo.

É necessário agir para que a cultura material e imaterial do circo nas cidades seja resgatada e preservada, missão maior do Centro de Memória do Circo. Por isso, que tal ajudar a fazer uma espécie de arqueologia do imaginário e doar material relativo ao circo, como fotografias, filmes, livros, discos, peças gráficas, figurinos?

Na linha do tempo do circo de lona na cultura brasileira, estão os ilustres modernistas Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo e Yan de Almeida Prado e Di Cavalcanti, entre outros, que muitas vezes assistiam aos espetáculos do palhaço Piolin, no largo do Paissandu, nos anos 20.

Mário de Andrade dizia, sem cerimônia, que o circo e o teatro de revista eram os únicos “espetáculos que ainda se pode frequentar no Brasil”.

Infelizmente, muitos dos espaços nos quais eram montadas aquelas delicadas estruturas viraram concreto. Mesmo assim, a barriga do circo insiste em persistir. Às vezes, topamos no meio do caminho com um circo de lona num terreno vazio. São como cogumelos que surgem depois da chuva, aparecem montados e iluminados da noite para o dia.

Essas lonas coloridas surgindo nos espaços vazios das cidades nada mais são que os sinais aparentes da resistência à desmedida ocupação imobiliária de nossas cidades. Formam um eloquente sinal de que, ali onde tem um circo –um acontecimento de arte e alegria–, está a luta dos que pensam em produzir a melhor e mais apaixonada ocupação dos espaços, onde todos vivemos a emaranhada forma humana corrupta da vida.

Não que dispensemos os arranha-céus, os mercados, as lojas de comércio ou desprezemos a necessidade de habitações. Mas como é bom saber que estão lá, alegres e resistentes, essas abóbadas frágeis, que lembram que a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. Elas exibem de maneira dramática a situação periclitante do circo e, ao mesmo tempo, seu grande papel de resistente cultural, com sua insistência turrona.

O circo persevera em cobrir com uma lona um vão de terra e fazer brotar ali um mundo em que se manifesta a alegria, a arte, a intrepidez, linha imaginária por onde desfila como um funâmbulo a exibir sua coragem –ignorante e iluminado–, na luta contra a força da especulação imobiliária, que ergue e destrói coisas belas.

Sim, era o circo de lona que discutíamos, mas eram também as cidades, as nossas cidades, para as quais é preciso que essa resistência se fortaleça. É necessário agir para que o circo tenha garantido pelo menos um terreno fixo em uma cidade como São Paulo, com um mínimo de infraestrutura, onde ele possa se armar e depois partir, sabendo que virá outro em seu lugar, e depois outro e depois outro.

Por isso saudamos a notícia de que um terreno na marginal Tietê, próximo ao shopping Center Norte, será cedido ao Circo Spacial de fevereiro a maio. Que a nova prefeitura o transforme na permanente Praça do Circo, que tanta falta faz à cidade. E vamos ao circo, porque “hoje tem espetáculo”, sim, senhor.

Fonte: Folha de S.Paulo / Pascoal da Conceição, ator e Eduardo Cesar Rascov, escritor – ambos são diretores da Associação dos Amigos do Centro de Memória do Circo

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