Municípios gaúchos evoluem no PIB, mas ficam devendo em qualidade de vida

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Rio Grande é um fenômeno, e virou exemplo de repaginação produtiva entre as velhas economias da Metade Sul. Produto Interno Bruto (PIB) que avançou 208% entre 2002 e 2010 (o PIB estadual cresceu 140%), renda per capita que triplicou no mesmo período e fatia de quase um ponto percentual maior na riqueza gaúcha. É um paraíso. Para quem não vive no município portuário. Os nativos têm de conviver com alta reprovação de alunos em séries finais do Ensino Fundamental, emprego formal para apenas 37% da População Economicamente Ativa (PEA), déficit de 17 mil moradias e crescimento de 740% nos registros de tráfico de drogas. E pode ficar pior, constata justamente quem precisará medicar o paciente baixado na UTI. “A população pode sair dos 198 mil habitantes para 330 mil até 2020”, mapeia o deputado estadual que assumirá o posto de prefeito, Alexandre Lindenmayer.

Se já está ruim, pode piorar, traduz o parlamentar. Outros municípios gaúchos que figuram no top ten (os dez mais ricos) reproduzem os mesmos sintomas, como Gravataí, quinta economia, mas com educação, saúde, saneamento e segurança em baixa. O quadro foi traçado em mapa recente elaborado pela Agenda 2020, que reúne voluntários em diversos setores, e mostrou os gargalos de 24 localidades consideradas polos de desenvolvimento. “É um conjunto de coisas que deixam de ocorrer. Gravataí é o melhor exemplo. Rio Grande e Guaíba devem acender o sinal amarelo para não reproduzir este modelo”, adverte a economista Manuela Lopes, da Agenda 2020. No caso da cidade-sede da montadora da General Motors (GM), os gargalos do setor público são vinculados à baixa eficiência na gestão fiscal, de investimentos ao custeio da máquina pública. “É contraditório ser a quinta economia e a penúltima no índice de eficiência fiscal”, contrasta o futuro prefeito, o deputado estadual Marco Alba, que promete lançar um pacto pelo futuro da cidade e quer introduzir as ferramentas do Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade (PGQP) e Fundação Vicente Falconi. “Até 2016, vou elevar os investimentos públicos de 1,7% para 10%.”

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Gravataí (Acigra), José Luis Silveira, lembra que, em 2013, o município fará 250 anos, mais que Porto Alegre, mas com problemas do século passado. “Não podemos olhar a cidade como se fosse há 15 anos (quando a GM chegou). O governo não fez a lição de casa, esperamos que o novo possa ajustar a maioria dos problemas. Não temos mais tempo”, inquieta-se Silveira, citando a saúde como a mais carente. Para os quase 260 mil habitantes, há apenas um hospital. A receita da prefeitura pulou de menos de R$ 40 milhões, antes da GM – que acaba de concluir a segunda ampliação -, para R$ 500 milhões. E empresários dispostos a investir não esmorecem. Em 2012, estima-se R$ 2 bilhões. Foram 350 novos negócios abertos, em média, por mês entre janeiro e abril. A cidade sem shopping center ganhará dois.

“Cidades com PIB muito grande não necessariamente vêm com saúde, educação e trabalho à altura”, lembra o gerente de estudos econômicos da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), Guilherme Mercês. O coordenador do Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) recomenda que setores público e privado se integrem para obter melhorias. “O gestor deve dar infraestrutura, a sociedade deve cobrar”, traduz Mercês, que inclui logística e tecnologia de comunicação como medidas cruciais. “Avanços sociais têm de acompanhar mais velozmente os ganhos econômicos”, previne o coordenador do IFDM.

Modelo de desenvolvimento explica mazelas no Estado

Os passivos nas condições de vida, educação, segurança e infraestrutura nas economias mais ricas e nas que ganham cada vez mais espaço na matriz da atividade gaúcha estão ligados a um modelo de desenvolvimento insuficiente. O que a Agenda 2020 e organismos oficiais, como o IBGE e ministérios da Saúde e da Educação, revelam é que este é o efeito da combinação de crescimento sem suporte correspondente de serviços. Isto explica que zonas com atividade produtiva consolidada como a Região Metropolitana e Serra ostentem carências. Economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE) e integrante da equipe responsáveis pelas séries dos PIBs municipais, Jefferson Colombo aponta a defasagem entre a evolução da riqueza e as melhorias e adverte que desconcentrar a dinâmica produtiva envolve mais ações do setor público.

Colombo ressalta que uma maior renda, verificada pela expansão do produto (ver quadro) e outras medidas ligadas a programas públicos, eleva expectativas e necessidades da população. “Isso pressiona por medidas, como qualificação e expansão de saúde e outros setores”, vincula o economista. O pesquisador da FEE Ely José de Mattos sugere que novos parâmetros de condições de vida sejam acrescidos, como agir para reduzir mortes por causas evitáveis, com espectro ligado à saúde e segurança. “Não basta só crescer no PIB, isso valia nos anos de 1980 e 1990. Economia é a base, falta olhar o resto”, observa Mattos.

O coordenador da Sala do Investidor da Secretaria Estadual de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (SDPI), Taylor Favero Guedes, diz que empreendedores, locais ou de fora do Estado e do País, inserem cada vez mais itens sobre treinamento de mão de obra, saúde, educação e infraestrutura. “Descentralizar o desenvolvimento, como é o caso do polo de Rio Grande, está na política estadual. Mas há preocupação com o impacto, e estamos levantando as necessidades”, cita Guedes. A pasta busca subsidiar prefeituras sobre as exigências de investidores. “Estrangeiros olham muito qualidade de vida”, exemplifica o coordenador da Sala.

Na área do saneamento, que é deficiente no grupo dos dez mais – apenas Porto Alegre deve alcançar, em 2013, o índice preconizado pelas Nações Unidas de 75% de coleta e tratamento de esgoto – a Corsan informa que aplicará R$ 240 milhões em ampliação da rede na seleção, que inclui Guaíba, que terá investimento de R$ 5 bilhões da Celulose Riograndense, o maior da história gaúcha.

Mais ricos, menos eficientes

As principais economias do Estado e as condições que também pesam no desenvolvimento


AURACEBIO PEREIRA/ARTE/JC

Fontes: FEE, Agenda2020, DataSUS e MEC/Ideb (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais  Anísio Teixeira)

Dados: (1) Mortes por causas evitáveis: incluem doenças e eventos externos (acidentes, violência). (2) Ocorrências entre 2002 e 2011. (3) Taxa de homicídios em 2010.

Charqueadas e Guaíba enfrentam carências para receber investimentos

Junte dois fatos promissores para a economia gaúcha. O polo naval de Charqueadas, em implantação, e o maior investimento da história recente no Estado, os R$ 5 bilhões a serem aplicados pela Celulose Riograndense, da chilena CMPC, em Guaíba. Bons motivos para corrigir ou antecipar soluções para o que podem ser ou já são gargalos de infraestrutura e demais quesitos acoplados ao desenvolvimento. Nos dois casos, empresas e poder público resolveram unir capacidades para encurtar caminhos ou cumprir cronogramas. Mas, mesmo assim, há melhorias travadas, como a implantação da zona industrial de Guaíba, terreno que, nos anos de 1990, receberia uma montadora da Ford.

A novela da execução de melhorias na área de mais de 600 hectares tem personagens como o diretor da Andrita Supply, fornecedor da cadeia de petróleo e gás, Jorge Maurício da Cruz Pancho. Um dos primeiros a reservar espaço no antigo distrito, Pancho não conseguiu instalar sua unidade de montagem no local, pois os acessos viários são precários, com risco de acidentes, e não há rede de energia. O Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) só deve começar a duplicação da Estrada do Conde em 2013. Antes disso, o diretor da Andrita vive um temor. “Com o projeto da celulose, que é no outro lado da cidade e envolve bilhões, a zona industrial pode ser esquecida”, desabafa o empreendedor. “Vou ficar, pois sou daqui, se não já tinha ido para outro canto.”

O prefeito de Guaíba, Henrique Tavares, admite a morosidade e aposta em parcerias com o governo estadual e com o setor privado para corrigir este atraso e preencher mais demandas – de uma nova delegacia de polícia (exigida na ampliação da celulose), mais obras viárias, ampliação da saúde e qualificação profissional. Os indicadores locais são preocupantes: emprego formal equivale a 26,6% da População Economicamente Ativa (PEA), educação básica tem média abaixo de quatro, os gastos com saúde pública somam R$ 45,74 ao ano por habitante, apenas 5% da população tem acesso à coleta e ao tratamento de esgoto e ocorrências com tráfico de drogas cresceram quase 1.000% em dez anos.

A Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) informa que investirá, até o próximo ano, R$ 57 milhões que elevarão a cobertura a 25%, um terço dos 75% recomendados pelas Nações Unidas. “Preciso dessas parcerias para resolver os problemas”, avisa o médico Tavares. Prefeituras como a de Guaíba, cujo PIB cresceu 316% entre 2002 e 2010, esperam uma nova repartição dos royalties do petróleo para custear ações.

Dirigentes da Metasa, com sede em Marau, que é uma das precursoras do polo a ser instalado às margens do rio Jacuí, imprimiram ritmo privado para mover o braço público. Acoplaram a expertise de atuação na comunidade no Norte do Estado, que inclui desde fazer parte de conselho de hospital e intermediar melhorias urbanas com governos. “Temos cronograma a cumprir com a Petrobras. A presidente da companhia, Graça Foster, está todo mês aqui cobrando plano e execução. Queremos arrancar bem em Charqueadas”, avisa o diretor de Novos Negócios da empresa, Oscar de Azevedo. A partida da produção para fornecer chapas para o estaleiro Iesa, com sede no local, é maio de 2013.

A lista de necessidades inclui formar mão de obra – estima-se em mais de mil vagas para os dois complexos -, suprir energia, acessos rodoviários e saneamento, que hoje inexiste na cidade. A Corsan ainda fará estudos. “Não adianta fábrica bonitinha se não tem pessoal”, lembra Azevedo. Para evitar erros cometidos pela cadeia naval em Rio Grande, o diretor da Metasa cita que as indústrias estão pautando o perfil de pessoal a ser treinado pelas escolas do Senai-RS. No município portuário, muitos formados não tiveram emprego. “Não pode ser um monte de puxadinho. Tem de ser um polo com capacidade de competir no médio e longo prazo”, adverte o executivo. As iniciativas têm sido orientadas por estudos com apoio da Federação das Indústrias (Fiergs), custeados pelo governo estadual. Um novo levantamento dimensiona o impacto microrregional.

Autora: Patrícia Comunello / Jornal do Comércio

 

 

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