Há uma obsessão pela tragédia

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O arquiteto que inspirou gerações de urbanistas citica a visão de que as grandes cidades não têm solução e vê emocionalismo no debate sobre mobilidade urbana.

A voz grave e pausada de Jaime Lerner não denuncia, mas há um tanto de impaciência no legendário ex-prefeito de Curitiba (e também ex-governador paranaense) quando aborda o que considera “clichês” urbanos e falsos dilemas. Entre eles, a afirmação de que São Paulo cresceu muito e já não tem mais jeito (“O paulista tem orgasmo quando você diz isso”) ou a celeuma que opõe automóveis a bicicletas, ou ainda o debate subsolo versus superfície para o transporte coletivo. Hoje dedicado ao Instituto Jaime Lerner, o homem que há dois anos foi apontado pela Time como um dos 25 pensadores mais influentes do mundo vê os administradores das cidades conformados com previsões pessimistas sobre a desordem urbana (“Tendência não é destino”, apregoa). Ou, o que é pior, comprometidos com paradigmas urbanos que levam ao caos, como o reinado do automóvel.

Qual será a grande tarefa dos prefeitos eleitos, de um modo geral?
O grande desafio é conseguir atender a um sonho coletivo. Ser prefeito é bom, é muito bom. Mas prefeitos que só enxergam problemas ficarão em situação difícil. Eu gosto muito da frase que li uma vez num muro, em Lima, durante uma eleição, que dizia assim: “Basta de obras, queremos promessas”. Na verdade, o que a mensagem queria dizer é “queremos sonhos”, “queremos alguma coisa a mais”. Vejo, hoje, que a tendência geral das pessoas é se concentrar muito nos problemas – que são sempre os mesmos: mobilidade, educação, saúde, atenção à criança, segurança, tudo isso acrescido de alguns pontos que são fundamentais não só para cada cidade, mas para toda a humanidade, que é o problema da mobilidade, da sustentabilidade e da convivência, da tolerância. Então, o grande desafio hoje do prefeito é ter uma visão global da cidade. Porque se ele se concentrar só nos problemas vai perder a chance de fazer as grandes mudanças.

A questão da mobilidade e das soluções possíveis rende muita controvérsia nas cidades. O que você pensa a respeito?
Eu acho que hoje nós temos um falso dilema sendo levantado para a população das grandes cidades, que é ou carro ou metrô. Para mim, nem o carro nem o metrô em si são soluções. Na verdade, o segredo da mobilidade vai ser você criar mais alternativas e fazê-las trabalharem de maneira integrada. Então, é a mobilidade no subsolo, na superfície – que eu acho fundamental –, é o ônibus bem resolvido, é a bicicleta, o táxi, o carro, o transporte aquaviário onde houver essa possibilidade, como em Florianópolis. O somatório de tudo isso vai nos dar uma solução de mobilidade.

Que papel será reservado ao automóvel nas novas cidades?
Hoje, todo mundo, toda tecnologia, tudo gira em torno do carro. É a religião do automóvel. As pessoas só acreditam no automóvel. Olhando para a frente, eu digo que o automóvel vai continuar existindo, mas da maneira como está descrito na carteira de habilitação: “Habilitado para dirigir carros de passeio”. Então, na verdade, o transporte do dia a dia, o itinerário de rotina, é que tem de ser resolvido como transporte público. Para o lazer, você vai continuar tendo o seu carro. Mas vai usá-lo de outra maneira. O carro, para mim, é o cigarro do futuro. Quem for adicto do carro vai poder usá-lo com algumas restrições. Então, o que nós temos de avançar é na mobilidade, e a gente pode ter respostas já, não precisamos esperar gerações e gerações.

Qual sua opinião sobre o aeromóvel?
O aeromóvel é uma ideia muito boa. Mas falta o desenvolvimento da ideia. Eu fui o primeiro a acreditar no aeromóvel. Na época de sua criação, em 1983, nós propusemos sua utilização no Rio de Janeiro, mas não houve avanço no sentido de aproveitar. Acho que há um grande e importante caminho para o aeromóvel, que são as ligações diretas, como do aeroporto ao centro da cidade. Mas nós temos de avançar nas soluções de superfície, na integração dos vários meios de transporte. Os franceses quando começaram em Paris com o sistema de empréstimo gratuito de bicicletas provaram que é possível transformar a bicicleta num transporte coletivo. Eu acho que o carro vai ter esse caminho urbano. Vai ser pequeno, elétrico e você não vai ser o único proprietário. O carro vai ser o transporte público individual. Há um caminho muito grande nas nossas cidades para isso.

O debate automóvel versus bicicleta fugiu à racionalidade?
Este debate está erradamente emocionalizado, porque nem o automóvel nem o metrô são soluções. A não ser, claro, em Londres, Paris, Moscou e Nova Iorque, que têm redes completas de metrô – porque naquela época, há 100, 150 anos, era mais barato trabalhar no subsolo. Hoje em dia, é diferente. As grandes cidades terão algumas linhas de metrô. Mas a maior parte do problema vai ter de ser resolvida na superfície. E para ser resolvida na superfície, basta que se dê prioridade. Agora, toda essa visão muito emocional na verdade é uma resposta a essa situação em que todo planejamento é realizado em função do carro. Toda pesquisa, toda tecnologia, avança na perspectiva do carro. Ora, se o carro não é prioritário, para que todo esse direcionamento de pesquisa? Se for dada prioridade ao transporte público, não se gastará toda essa fortuna em pesquisa e se estará acertando muito mais.

Há algo de novo no pensamento urbanístico atual ou a novidade é uma volta às origens, um revival de preceitos dos tempos em que as cidades eram mais humanas?
Eu sempre digo que a concepção da cidade é importante. Por quê? Porque a cidade tem de ser uma integração de vida, trabalho, movimento, tudo isso junto. Se você separar as funções da cidade, você já vai ter uma anticidade, já vai trabalhar contra a cidade. Então, moradia aqui, transporte lá, lazer noutro lugar, isso é muito ruim para a cidade. Acho que o problema sério é quando você separa as funções, separa a renda, separa a idade, separa a religião. Quer dizer, quanto mais misturado isso for, mais humana a cidade vai ser, e melhor a mobilidade urbana. O que nós precisamos estimular mais é a mistura de funções, é a diversidade. Por que as pessoas gostam mais das cidades europeias? Porque elas são exemplos dessa mistura de funções, de renda. Não existem essas separações, esses guetos de gente muito rica e gente muito pobre. Todo esse conceito agora vem fantasiado de novas soluções. Mas, na verdade, para mim, nada foi inventado. Nada é melhor do que a rua tradicional, a síntese da cidade, a síntese da integração de funções ou das regiões de uma cidade. Infelizmente, nós fomos perdendo os valores e fomos decompondo a cidade erradamente.

Qual é o futuro de São Paulo, a cidade que muitos dizem caminhar rumo à inviabilidade?
Se você perguntar a um paulista, ele terá prazer em dizer que a cidade dele é inviável. Ele tem orgasmos quando você diz: “Ah, São Paulo não tem jeito”. E te olha desconfiado se você disser que São Paulo tem jeito. A cidade de São Paulo tem jeito, claro, como qualquer outra cidade. Só que ela precisa reencontrar o seu caminho. A cidade de São Paulo tem uma riqueza cultural fantástica, tem uma diversidade fantástica. Se nós estimularmos isso, São Paulo volta a ser uma grande cidade. Agora, enquanto se estiver construindo só guetos de gente rica lá longe, fora da cidade, guetos de gente pobre, abandonando o centro da cidade, abandonando as áreas mais equipadas, vai ser esse caos que é hoje. Mas repito, é possível mudar, se se adotar a visão correta. O que não pode é a escala da cidade ser usada como desculpa, como escusa. “São Paulo é muito grande, é gigantesca, não tem solução.” Toda cidade tem solução. Não compartilho de clichês pessimistas, de clichê que só vê problemas. Se você projetar a tragédia, você vai encontrar a tragédia, até porque você quer ter razão… Eu prefiro investir a minha energia em mudar tendências que não são desejáveis, e não ficar projetando eternamente as tendências que não são desejáveis.

O paulistano – e isso vale para o cidadão de qualquer outra cidade em processo desordenado de crescimento – estaria disposto a aceitar sacrifícios, restrições em suas escolhas individualistas, para viver em uma cidade menos caótica?
Todas as pessoas sabem raciocinar e perceber quando a alternativa é melhor. É claro que se você vai propor ao cidadão uma alternativa, ela tem de ser melhor. Então, é fundamental que seja proposto um cenário, uma ideia, um projeto, que todos entendam que seja o desejável. Você começa a mudar paradigmas por efeito de demonstração. Por exemplo, muitos dizem: “Não é possível mudar o transporte público”. Depende: você pode fazer uma ou duas linhas de altíssima qualidade e todo mundo começa a acreditar nisso. As cidades que promoveram transformações importantes são as que fizeram isso. Você não muda de repente uma cidade, mas você começa criando efeitos de demonstração grandes, importantes, e aí a população embarca.

O legado urbanístico de Curitiba segue essa linha? É aplicável em outras cidades?
Com certeza. Eu vejo um panorama otimista em relação a muitas cidades. São cidades onde as coisas estão acontecendo ou vão acontecer mais rapidamente – Rio e Porto Alegre entre elas. São lugares onde eu vejo que há a vontade de mudar esses paradigmas. Já no caso das cidades que estão apaixonadas pela sua tragédia, fica mais difícil, mas chega um momento em que todos enxergam que como está não dá para continuar. Existe uma frase que eu sempre repito, que diz que “tendência não é destino”. Então o momento em que você começa a detectar uma tendência que não é desejável é o exato momento da mudança.

Que cidade está “apaixonada pela própria tragédia”?
Ah, São Paulo. Não é que eles não queiram mudar. É que eles veem isso como uma impossibilidade. Mas sempre tem gente que pensa em mudança e que é favorável à boa transformação. São Paulo tem um ambiente crítico cultural importante. Tenho certeza de que esse ambiente vai encontrar soluções que serão exemplos para outras cidades. Mas o caminho não é ficar trabalhando na tragédia e na desculpa de ser uma cidade da escala que é. É encontrando novas soluções.

A Rio+20 teve uma pauta voltada também à questão das cidades. Que resultados ficaram da conferência?
Você nunca pode esperar um resultado imediato. Um acontecimento como a Rio+20 vai deixando uma série de pensamentos, que vão agindo, modificando padrões. O pensamento mais importante da Rio+20 foi claro: é nas cidades que você pode resolver mais rapidamente os problemas de sustentabilidade. Já que 75% das emissões de carbono acontecem na cidade e metade do problema é o carro.Então, você já pode fazer uma mudança importante a partir das cidades. Esse foi o legado mais importante da Rio+20. A partir daí, as cidades têm de ter uma consciência da sua responsabilidade em relação aos problemas no mundo inteiro. Agora, isso não acontece de uma hora para outra. Só dando um exemplo na música: o Concerto Carnigie Hall, em 1962, da Bossa Nova foi considerado um evento em que nada deu certo, que não foi importante. No entanto, alguns anos depois, a Bossa Nova era uma das músicas mais tocadas no mundo. Então, ela deixou um legado. As pessoas foram tomando consciência. A mensagem é que é importante.

A Copa de 2014 vai escancarar os grandes problemas das cidades brasileiras?
A Copa do Mundo vai escancarar o servilismo nosso ante a Fifa. É um servilismo burro porque, na verdade, concentraram tudo em construção de estádio e a coisa que menos falta no Brasil são estádios. E outra coisa: os estádios trazem uma visão de um número brutal de estacionamentos. O grande problema do Brasil – é isso que vai pegar, que vai ficar na vitrine – é a logística aérea, que hoje é um desastre, e também a mobilidade urbana. São esses os pontos que o Brasil podia atacar e dar um grande exemplo ao mundo. No entanto escolheram o pior. Demoliram estádios e reconstruíram outros, com mais estacionamentos. Se o país quer resolver os problemas de mobilidade, de acesso aos estádios, é a coisa mais fácil do mundo. É você redirecionar a frota de transporte coletivo, naquele dia, para o estádio – e você resolve sem grandes problemas. Todo mundo vai de ônibus, confortavelmente instalado.

Por último, eu queria uma palavra tua sobre sustentabilidade. Muito se escreve, se produz, se pensa e se diz a respeito de mudar o paradigma e que roda a vida, o trabalho e a economia contemporânea. Tu vês muito discurso ou há sinceridade?
Sem dúvida, porque não se vai ao âmago da questão. Então, todo mundo quer o rótulo da sustentabilidade. Bancos, porque imprimem seus talões de cheque em papel reciclado, acham que estão sendo sustentáveis. Empresários que fazem grandes empreendimentos imobiliários fora da cidade, criando aqueles guetos e porque tem um pouco de arborização naquele empreendimento dizem que é sustentável, quando é exatamente o contrário. Essa palavra sustentabilidade está sendo usada levianamente ou até porque é difícil para a população captar e entender. Para mim, sustentabilidade é uma relação entre aquilo que você poupa e aquilo que você desperdiça, muito simples. Isso tem que ser praticado no dia a dia de cada cidadão, em cada cidade. Mas o outro ponto importante é que muitos pensam que a sustentabilidade está em novos materiais. É muito importante, mas não é suficiente. Ou prédios verdes, green buildings, é outra coisa importante, mas não é o suficiente. Você não pode ser tão ingênuo e acreditar que você se vai de um prédio verde para outro prédio verde, de qualquer maneira, você vai passar por uma cidade que não é verde. Então, todas essas visões estão fugindo do essencial. A cidade precisa ser concebida, precisa ser uma estrutura de vida, trabalho e movimento, todos juntos. E porque 75% das emissões de carbono acontecem nas cidades e metade desse problema acontece com o carro, eu tenho uma obcessão em ensinar sustentabilidade às crianças. Nós fizemos um filme há uns quatro ou cinco anos, que ganhou até um prêmio num festival de cinema em Nova Iorque, onde a gente procura ensinar o mínimo, que seria: se você quer sustentabilidade, primeira coisa, você precisa usar menos o automóvel; segundo, separar o lixo; terceiro, viver mais perto do trabalho ou trazer o trabalho para mais perto da moradia; e, por último, entender que a sustentabilidade é uma equação entre aquilo que se poupa e aquilo que se desperdiça. Se todo mundo fizer isso, as cidades serão mais sustentáveis e nós vamos ter menos risco climático no mundo inteiro.

Porque este enfoque não foi cogitado, na sua opinião?
É um somatório de muitos interesses. Falta de visão, muitos interesses, servilismo e corrupção.

Por falar em sustentabilidade, este é um tema de muitos discursos e manifestos – no âmbito do governo, das instituições, das empresas. Muito barulho para pouco avanço?
Sem dúvida, porque não se vai ao âmago da questão. Então, todo mundo quer o rótulo da sustentabilidade. Bancos, porque imprimem seus talões de cheque em papel reciclado, acham que estão sendo sustentáveis. Empresários que fazem grandes empreendimentos imobiliários fora da cidade, criando aqueles guetos com um pouco de arborização, dizem que o projeto é sustentável – quando é exatamente o contrário. Essa palavra – sustentabilidade – está sendo usada levianamente. Até mesmo porque é difícil para a população captar e entender. Para mim, sustentabilidade é algo muito simples: é uma relação entre aquilo que você poupa e aquilo que você desperdiça. Isso tem que ser praticado no dia a dia de cada cidadão, em cada cidade. Mas o outro ponto importante é que muitos pensam que a sustentabilidade está em novos materiais. Este aspecto é muito importante, mas não é suficiente. Falam em prédios verdes, green buildings… É outra coisa importante, mas não é o suficiente. Você não pode ser tão ingênuo e acreditar nestas coisas. Se você vai de um prédio verde para outro prédio verde, de qualquer maneira, você vai passar por uma cidade que não é verde. Então, todas essas visões estão fugindo do essencial. A cidade precisa ser concebida, precisa ser uma estrutura de vida, trabalho e movimento, todos juntos, tudo junto. E porque 75% das emissões de carbono acontecem nas cidades e metade desse problema acontece com o carro, eu tenho uma obsessão em ensinar sustentabilidade às crianças. Nós fizemos um filme, há uns quatro ou cinco anos, que ganhou até um prêmio num festival de cinema em Nova Iorque. Neste filme, a gente procura ensinar o mínimo, que seria o seguinte: se você quer sustentabilidade, primeira coisa, você precisa usar menos o automóvel; segundo, separar o lixo; terceiro, viver mais perto do trabalho ou trazer o trabalho para mais perto da moradia; e, por último, entender que a sustentabilidade é uma equação entre aquilo que se poupa e aquilo que se desperdiça. Se todo mundo fizer isso, as cidades serão mais sustentáveis e nós vamos ter menor risco climático no mundo inteiro.

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Autor: Eugênio Esber

Fonte: Revista Amanhã

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