Pensar mais e decorar menos

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Sabe-se que a educação no Brasil vai mal; pior, está decadente. Sabe-se também que ela está na base do desenvolvimento de qualquer nação; portanto, é preciso reagir. Para que a reação aconteça, o primeiro passo é conhecer as causas, para depois combatê-las.

Com base nos 40 anos de experiência como professor de língua portuguesa em cursos nos níveis de graduação e pós-graduação, fiz uma reflexão sobre as causas de os alunos se apresentarem, mesmo nesses níveis, com tanta dificuldade em questões básicas da minha disciplina. Acredito ter chegado a uma das razões, talvez a mais importante delas: esses alunos sempre foram levados a decorar tudo, a memorizar, sem praticamente usar a inteligência, o raciocínio lógico-dedutivo, a observação atenta. Em síntese, desde o Ensino Fundamental, desenvolveram o hábito de utilizar basicamente a memória, em detrimento da inteligência.

A aprendizagem baseada apenas na memória é limitada, estática, inconsequente, não evoluindo espontaneamente para novos conhecimentos. Nesse modelo, o aluno se limita a receber. Ao lançar mão, predominantemente, da inteligência, do raciocínio lógico-dedutivo, da atenção e da reflexão, sua aprendizagem torna-se consequente, construtiva, reflexiva, dinâmica, ilimitada. Em vez de recebê-lo pronto, o aluno conquista o conhecimento. Portanto, é imperioso que o preparemos para pensar mais e decorar menos.

A estratégia decerto vale para todas as disciplinas, mas limito-me aqui a apresentar exemplo clássico da área de língua portuguesa: a sintaxe. Sua abordagem se dá de forma intensa, tanto no Ensino Fundamental quanto no Médio, mas, em regra, o estudante quase nada aproveita de prático desse enorme esforço de aprendizagem. Mais do que em qualquer outro campo do estudo da língua, usar apenas a memória como forma de aprendizagem da sintaxe é totalmente inócuo. Decorar, por exemplo, que é fácil identificar o vocativo porque ele vem sempre isolado por vírgula ou vírgulas é uma falácia, pois se inverte a relação causa-consequência: a vírgula não é causa do vocativo, mas consequência; é preciso identificar o vocativo, para então usar a vírgula. O resultado não poderia ser outro: apesar de todos terem decorado a “mágica regra”, são raros os brasileiros que usam a vírgula do vocativo.

Outro exemplo: de nada adianta ensinar que o adjunto adverbial deslocado requer o emprego de vírgula se o aluno não souber identificar o adjunto adverbial. O mesmo vale para o aposto, as orações subordinadas adverbiais, os elementos explicativos em oposição aos restritivos, a concordância, a crase etc. Em síntese, para a aprendizagem da sintaxe só há um caminho: o da inteligência. Sem contar que se trata de uma forma mais desafiadora e, por isso mesmo, mais prazerosa e conquistadora do conhecimento.

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Autor: Paulo Flávio Ledur que é editor e professor de língua portuguesa

Fonte: Zero Hora

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