O Congresso Dança

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Uma das definições do Dicionário Houaiss para a palavra povo é: conjunto de cidadãos de um país, excluindo os dirigentes e a elite econômica.

Antes da Revolução Francesa o povo era considerado como terceiro estado, precedido pelo clero e a nobreza. Pode-se afirmar que as danças populares chegaram aos salões, frequentados pelas elites, após a Revolução Francesa e o Bonapartismo. A multidão que tomou a Bastilha não chegou a exercer efetivamente o poder político, mas a partir deste momento passou a ser um referencial imprescindível no campo das ideias, da cultura e da arte que expressam o novo espírito da época.

Vemos surgir na Alemanha o movimento romântico do Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto) que arrebatou a juventude com as composições de Schubert e a poesia de Goethe e Schiller. Os jovens aderiram às danças populares que permitiam a expressão dos sentimentos do corpo e seus movimentos, atitudes até então reprimidas socialmente e completamente alheias aos parâmetros da música séria.

As polcas, os galopes e quadrilhas tradicionais das festas campestres, passam a ser dançadas ao som de pequenas orquestras nos tradicionais jardins e parques das cidades e acabam chegando aos salões do novo regime, substituindo os minuetos, gavotas e rondós dos cortesãos.

A valsa faz sua aparição, uma dança alemã cujo nome provém do verbo Wälzen cujo significado é dar voltas, o que permite aos dançarinos girar abraçados a um ritmo vertiginoso. Um de seus maiores promotores foi Johann Wolfgang von Goethe, onde em sua célebre novela As tribulações do jovem Werther (1774)  faz a seguinte descrição:

Nunca me havia movido com tanta leveza. Eu já não era um ser humano. Segurava em meus braços a criatura mais adorada e girava com ela, voando como o vento, ao ponto de que tudo que nos rodeava desaparecia.

Esta romântica sensação de liberdade, que gira alegremente ao ritmo da valsa, expressa sem dúvidas os ares renovadores da Europa, liberada por Napoleão. Mas tudo tem um fim. Entre Waterloo e Santa Helena as nações autocráticas voltam a estabelecer sua supremacia no Congresso de Viena. A capital austríaca, invadida por Napoleão em 1805 e 1809 é a sede escolhida pelas grandes potências para desenhar o novo mapa da Europa.

O anfitrião, representando o Imperador Franz Joseph II, é o hábil diplomata Metternich. Entre os ilustres hóspedes se encontram o Czar Alexandre I, da Rússia, o astuto chanceler da recuperada coroa francesa, Príncipe de Talleyrand, o Ministro Britânico, Visconde de Castlereagh, o Primeiro Ministro Prussiano, Príncipe Karl von Hardenberg e os representantes da Espanha, Itália, Suécia e Portugal. Cada um deles veio acompanhado por cortesãos, assessores, secretários e suas respectivas esposas, desejosas de participar da deslumbrante vida social da corte imperial.

Se os amantes da valsa tinham razões para temer que a Restauração proibisse aquele torvelinho de loucos, o Congresso de Viena acabou com seus temores. Tanto as celebrações na corte como as intermináveis festas nas embaixadas e residências dos hóspedes reais, giraram sem descanso ao ritmo da valsa. Um correspondente de um jornal londrino em Viena, ante a demora nas decisões políticas, intitulou uma de suas reportagens com o título de O Congresso Dança.

A valsa foi a primeira dança plebeia que se introduziu nos salões da realeza e da aristocracia, o que significou obviamente sua aceitação pela reticente classe burguesa. Em 1819, Carl Maria von Weber com seu Convite à Dança, construiria a ponte entre a valsa e a música clássica, a qual seria utilizada por compositores como Chopin e Tchaikowsky.

No próximo artigo iremos tratar do esplendor da valsa vienense e da família Strauss.

 

 

torelly@polors.com.br

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