Freud, Wagner e Jung

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No Dicionário Enciclopédico Wagner há uma extensa seção dedicada à Filosofia, Ideologia e Religião. Dentre as várias monografias, destacam-se estudos envolvendo Freud e Jung, os quais passamos a comentar.

Freud, o médico austríaco fundador da psicanálise era um homem muito culto e apaixonado pela literatura e pela pintura. Já com respeito a musica, cultivava certo distanciamento e reconhecia sua falta de saber nesta área. Conforme sua filha Ana, dificilmente ele comparecia a um concerto. Manifestava certa predileção pelas óperas Don Giovanni, As Bodas de Fígaro, A Flauta Mágica, Carmen e Os Mestres Cantores de Nuremberg.

Se Freud pouco se dedicou à obra de Wagner, em contrapartida é impressionante encontrar nas obras deste último uma fixação preocupante do que seria no futuro a psicanálise freudiana.

Thomas Mann enxergava em Wagner o homem, que antes de Freud explorou situações edipiana e Georg Groddeck considerava o Der Ring como o primeiro manual de psicanálise.

Com efeito, nós podemos, sem esforço de interpretação, encontrar na maioria das óperas de Wagner, em especial na Tetralogia do Anel do Nibelungo, uma antevisão dos conceitos explorados por Freud: os leitmotivs nos revelam aquilo que nos persegue e está subjacente em nossa consciência. A importância da libido aparece claramente na frustração sexual de Alberich e na autocastração de Klingsor. Eros e Tanatos acompanham o drama de Tristão e Isolda e a homossexualidade latente transparece na admiração de Siegfried ao contemplar o sono de um guerreiro que na realidade é Brünnhilde coberta por sua armadura.

No personagem Siegfried nós encontramos uma evocação dos diferentes estágios do desenvolvimento humano segundo Freud. Siegfried gosta de impingir sofrimento a Mime, seu pai de criação. Narcisisticamente está sempre a observar o reflexo de sua imagem num lago até ter conhecimento de sua sexualidade. O famoso complexo de Édipo está particularmente ilustrado no Der Ring, quando Siegfried assassina Mime que representa Ludwig Geyer, padrasto e pai presumido de Wagner. Em seguida, o herói wagneriano rompe a poderosa lança de Wotan, considerado seu genitor.

Boucourechliev nos diz, à maneira de Lacan que a linguagem musical de Wagner está estruturada como o inconsciente, ao comentar o fascínio de Siegfried por Brünnhilde ao julgar que esta poderá ser sua mãe.

O suíço Karl Gustav Jung, ao contrário de Freud dedicou-se à obra wagneriana, passando a utilizá-la com frequência em sua extensa bibliografia.

Na obra Metamorfoses da alma e seus símbolos (Symbole der Wandlung), escrita em 1912, o autor consagra uma centena de páginas à Siegfried, nas quais ele demonstra que o trajeto do herói constitui um percurso psicológico das conquistas do Ego.

O dragão é uma parte de Siegfried: o tesouro que o herói vai procurar na sombria caverna, é a vida, é ele mesmo, buscando a proteção do seio materno.

Brünnhilde faz o papel de mãe, irmã e esposa de Siegfried. É a anima do herói segundo Jung.

O psiquiatra escreveu outras obras dissecando os personagens do Der Ring, dando especial atenção à Wotan em Aspectos do Drama Contemporâneo (Wotan, 1936).

Em 1969, Robert Donington escreveu Wagner’s Ring and its Symbols, baseado nas teorias de Jung. Aplaudido por um lado e criticado por outros, o livro de Donington faz uma análise completa da Tetralogia ao aplicar o conceito dos três níveis de Jung.

O primeiro nível, de superfície, está próximo da análise psicológica tradicional. O segundo nível avalia a atuação de personagens com personalidades complexas, como Wotan, Siegmund e Siegfried.

O terceiro nível, mais complexo nos remete à hipótese que todos os personagens do Der Ring são facetas diferentes de Wotan. Donington aprofunda seu texto neste nível, onde tudo está ligado à Wotan. O encontro deste com Alberich, no segundo ato de Siegfried, é uma reconciliação de Wotan com seu inconsciente. Erda e as Nornas são a parte visível do psiquismo de Wotan. Brünnhilde é uma projeção do deus supremo assim como ela expressa sua vontade mais profunda. Cabe lembrar aos leitores que o texto do Anel foi escrito sob forte influência das teorias de Schopenhauer.

É interessante relembrar como Wotan usa diferentes identidades no decorrer da ação, tais como Waltwater, Wälse e Wanderer.

Quem é este personagem de múltiplas facetas? Wagner, sem dúvida alguma.

torelly@polors.com.br

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