Uma estranha e amarga fruta

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

 

 

Árvores do Sul dão uma fruta estranha;

Folha ou raiz em sangue se banha;

Corpo negro balançando, lento;

Fruta pendendo de um galho ao vento.

Cena pastoril do Sul celebrado;

A boca torta e o olho inchado

Cheiro de magnólia chega e passa

De repente o odor de carne em brasa

Eis uma fruta para que o vento sugue,

Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue,

Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta,

Eis uma estranha e amarga fruta

(Abel Meeropol – Versão de Carlos Rennó)

1939. New York City. A emoção, a alma de uma música. Billie Holiday mostrava tudo isso em suas interpretações de Strange Fruit, talvez a primeira música de protesto no mundo.

Anos atrás, quando escutei pela primeira vez Strange Fruit e entendi a história pesadíssima contado por Billie Holiday fiquei chocado e levei muito tempo para me recuperar. De arrasar.

O livro Strange Fruit Billie Holiday e a biografia de uma canção, de David Margolick, é imperdível para quem é fã de jazz e  curte a Lady Day. Seguem alguns trechos do livro:

Eu escrevi “Strange Fruit” porque detesto linchamentos, detesto injustiça e detesto as pessoas que a perpetuam.

Abel Meerpol, autor da música

Vou falar de um disco que não sai da minha cabeça há dois dias. Chama-se Strange Fruit e, mesmo depois de ouvir dez vezes, vai fazer você se surpreender e se agarrar à cadeira. Agora mesmo, ao pensar nele, os cabelinhos da minha nuca se arrepiam e sinto vontade de bater em alguém. E acho que sei em quem.

Samuel Grafton, colunista do New York Post, outubro de 1939.

“Quando Billie Holiday gravou Strange Fruit, a música era mais que revolucionária”, disse o baterista Max Roach. “Ela expressou um sentimento que todos nós, negros, sentíamos. Ninguém falava daquilo. Ela se trasnformou em um dos guerreiros, essa linda mulher que sabia cantar e fazer você se emocionar. Tornou-se a voz dos negros, e eles a adoravam.” Quando a canção apareceu, a maioria das rádios a considerou provocante demais para ir ao ar; até hoje, mais de setenta anos depois de ter sido cantada pela primeira vez, músicos de jazz ainda falam da música com uma mistura de estupefação e medo. Os DJS mais progressistas só a tocam de vez em quando. “É muito intensa, e eu quero divertir as pessoas”, disse Michael Bourne, que apresenta um dos programas de jazz mais populares de Nova York.

Assista aqui a interpretação de Strange Fruit com Billie Holiday:

 Inácio Knapp

 

 

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone