O excesso de marketing

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Vivemos  um tempo de ultrapassagens perigosas. Quase de desespero em busca do holofote, da fama, do sucesso absoluto, da venda total, da riqueza, da celebridade. Cometemos violações de regras, de valores e de poder. Em jogo, muito dinheiro. Não é nenhuma novidade afirmar que o dinheiro compra quase tudo. Com as ferramentas da comunicação associadas as redes digitais, isso tudo ficou ainda mais fácil e pode-se construir quase que instantaneamente e do nada, grandes “sucessos” comerciais e políticos, como temos visto com frequência. Político vendido como margarina. Mesmo sem consistência, esses cases prosperam e quando se percebe o vazio do negócio, a falta de seriedade da proposta do então candidato, é tarde, um bom estrago já foi feito, o político já foi eleito e o objetivo dos marqueteiros alcançado e nós, compradores iludidos de mercadorias, sonhos e esperanças, só podemos nos lamentar. E esperar até a próxima compra ou eleição.

Acredito que ainda nos encantamos muito facilmente com o marketing e compramos coisas, ideias e pessoas rapidamente, sem grandes análises e calma necessária. Esse tema, os limites morais do mercado,  o livro O Que O Dinheiro Não Compra, do sociólogo Michael J. Sandel, procura debater. Para o autor, vivemos numa época em que quase tudo pode ser comprado e vendido. Nas três últimas décadas, os mercados – e os valores de mercado – passaram a governar nossa vida como nunca. Não chegamos a essa situação por escolha deliberada. É quase como se a coisa tivesse se abatido sobre nós.

Para Sandel, além de debater o significado deste ou daquele bem, também precisamos fazer uma pergunta de caráter mais genérico sobre o tipo de sociedade em que desejamos viver. À medida que os direitos de nome e o marketing municipal apropriam-se do mundo comum, o seu caráter público vai encolhendo. Além dos danos que causa a bens específicos, o comercialismo corrói o comunitarismo. Quanto maior o número de coisas que o dinheiro compra, menor o número de oportunidades para que as pessoas de diferentes estratos sociais se encontrem. O desaparecimento do convívio entre classes outrora vivenciado em locais públicos representa uma perda não só para os que olham de baixo para cima, mas também para os que olham de cima para baixo.

O sociólogo afirma em seu livro que algo semelhante vem acontecendo na sociedade como um todo. Numa época de crescente desigualdade, a marquetização de tudo significa que as pessoas abastadas e as de pouco recursos levam vidas cada vez mais separadas. Vivemos, trabalhamos, compramos e nos distraímos em lugares diferentes. Não é bom para democracia e nem sequer é uma maneira satisfatória de levar a vida.

Sandel escreve que democracia não quer dizer igualdade perfeita, mas de fato exige que os cidadãos compartilhem uma vida comum. O importante é que as pessoas de contextos e posições sociais diferentes encontrem-se e convivam na vida cotidiana, pois é assim que aprendemos a negociar e respeitar as diferenças ao cuidar do bem comum.

No final do livro,  Sandel conclui que, no fim das contas, a questão do mercado significa na verdade tentar descobrir como queremos viver juntos. Queremos uma sociedade onde tudo esteja à venda? Ou será que existem certos bens morais e cívicos que não são honrados pelo mercado e que o dinheiro não compra?

Inácio Knapp

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