Educação protege o meio ambiente?

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Neste ensaio, não ataco, não catequizo. Pergunto e tento responder com o melhor que a ciência tem a oferecer. Talvez o assunto do aquecimento global seja controvertido. Mas há evidência sólida de que o meio ambiente está sendo estragado a um ritmo alarmante. Os recursos naturais são escassos e a voracidade no seu uso só tende a crescer.
A conta ecológica não fecha. Tampouco se sustenta a dicotomia entre os ecoirresponsáveis e os ecobobos – esses últimos, com sua romântica tirania de que é preciso pre­servar tudo. O Caminho do Meio é aprender a usar a natureza com parcimônia e inteligência.
E o papel da escola nisso tudo? No caso, falamos de escolaridade, pois é o que se pode medir. Que fi­que claro, escola não faz mágica.
A União Soviética cometeu incontáveis barbaridades contra o meio ambiente (por exemplo, secar o Mar de Aral), apesar de ser, na época, uma das nações mais escolarizadas do mundo. E não é o único exemplo de gente escola­rizada pecando contra o meio ambiente. Além disso, sem longo tempo na escola, os avanços se tomam muito difíceis. Assim sendo, parece ser condição necessária, mas não suficiente.
Para entender melhor, podemos pensar que ir à escola traz consequências de dois tipos: cognitivas e afetivas. Ou seja, no entendimento e nos valores. Vejamos uma de cada vez. Não parece ser possível usar os recursos naturais com juízo sem entender os processos e ciclos biológicos.
Aliás, tanto quanto sei, apenas demografia rala e tecnologia impotente permitiram a povos primiti­vos não danificar a natureza.
Nossos índios praticavam a coivara (queimar/cultivar/abandonar). Só não deixaram grandes estragos porque eram poucos. Equilíbrios são delicados. Uma mexidinha aqui estraga algo acolá. Por que as abelhas estão sumindo? E os sapos e as rãs? Em lagos da Nova Inglaterra, os pássaros migratórios escassearam. Eis a razão: o homem matou os lobos e, com isso, a população de veados cresceu, deixando sem comida os passarinhos. E por aí afora.
Sem pesquisa séria não compreendemos os ciclos da natureza e seus acidentes. E, sem um ensino de qualidade para todos, a sociedade não entende as explicações dos cientistas. Sem escola, o entendimento só atinge onde a vista alcança, em assuntos em que muitos problemas não são visíveis a olho nu, como o aquecimento global. Da mesma forma, se eu destruo infinitesimamente, nada acontece, mas, se todos destroem o seu infinitésimo, o somatório é a catástrofe ecológica (caso clássico de falácia de composição).
As consequências da educação sobre valores, atitudes, aspirações e hábitos são potentes. Alinho adiante alguns dos resultados mostrados por pesquisas recentes e metodologicamente confiáveis. No espírito do ensaio, apenas constato que quem tem mais escolaridade valoriza mais o futuro e, em prol dele, dispõe-se a abrir mão de gratificações presentes. Pensa mais no filho, no neto e no mundo que deixará para eles. Não é supérfluo lembrar que os mais escolarizados avaliam melhor seus governantes e votam naqueles mais comprometidos com o interesse coletivo.
Pesquisas revelam: a educação reduz a fertilidade. De fato, só há explosão demográfica entre os ignorantes. Também é demonstrado por pesquisas: aumenta com a escolaridade a intolerância para com o ilícito. Apesar de certas manchetes de jornal, o descumprimento da lei ocorre com mais frequência entre os menos educados.
A expressão “capital social” se associa à propensão para a ação coletiva, confiando e colaborando com os outros, sem a certeza de que os outros farão o mesmo. É a disposição voluntarista de investir no que promove o interesse coletivo. Nos assuntos de meio ambiente, esse investimento sem garantia de reciprocidade é essencial, pois é difícil fiscalizar o que cada um faz de bom ou de ruim para o meio ambiente. E, hoje sabemos, quanto mais escolaridade, maior a facilidade de desenvolver capital social.
Há muito a ser feito para mitigar os impactos de um uso desmedido da natureza ou uma demografia excessiva Mas a tarefa é infinitamente mais árdua, se não impossível. se é pouca e ruim a educação. Pena que a Rio+20 quase se esqueceu dela.
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Autor: Claudio de Moura Castro.
Fonte: Revista Veja.
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