A face da fábrica do futuro

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Autossuficiente em água e energia, com processos que não geram resíduos e nem gases poluentes, as novas plantas industriais se aproximam do ideal do lucro sem impacto ambiental.

 

As voltas que o mundo dá: o que um dia foi uma causa exclusiva de ambientalistas, ONGs e militantes vem se tornando uma pulga atrás das orelhas de grandes indústrias. A sustentabilidade, termo antes restrito aos iniciados no ativismo ecológico, entrou de vez na pauta dos negócios – e começa a dar forma ao que já pode ser considerado a “fábrica do futuro”. Uma máquina de produção que não só é mais “verde” como também se mostra mais eficaz e até mais lucrativa.

Pouco a pouco, o mundo empresarial vai assimilando esta lógica sutil: para continuar lucrando, é preciso aproveitar ao máximo os recursos de que dispomos – e que não são eternos. “Nosso planeta tem recursos finitos. Então, como fazer com que a economia e a população continuem crescendo sem consumirmos o planeta inteiro?”, questiona Carlos Calmanovici, presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei). Como os exemplos a seguir vão demonstrar, o caminho sustentável depende de um princípio que há muito norteia o mundo empresarial. “A sustentabilidade depende da inovação. Sem ela, não temos como vencer a batalha”, afirma Calmanovici.

É evidente que essa onda de boa vontade não surgiu por acaso. O fato é que, num futuro nada distante, produzir sem impactar a natureza será uma obrigação para quem quiser ganhar dinheiro. “A legislação ambiental vai se tornar cada vez mais rígida. Além disso, os grandes clientes já exigem dos fornecedores diversos tipos de certificação ambiental. Com o tempo, todo mundo terá de ficar sustentável”, prognostica Guilherme Brammer, sócio da Wise Waste, empresa de pesquisa, desenvolvimento e gerenciamento de processos de logística reversa. Outro sinal dos tempos: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já começou a avaliar sua carteira de clientes para ver quem anda na linha. “Atualmente, estamos esquadrinhando o perfil socioambiental de nossos clientes. Isso servirá para fazermos exigências, estabelecermos critérios e impormos salvaguardas”, revela Márcio Macedo, chefe do departamento de meio ambiente do BNDES.

Para quem duvida de que o mundo dos negócios começa a incorporar o mantra da sustentabilidade, basta olhar a programação da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que aconteceu no Rio de Janeiro, entre 13 e 22 de junho – e discutiu os caminhos possíveis do desenvolvimento sustentável para os próximos 20 anos. Além de representantes de governos e ambientalistas, a conferência recebeu cerca de 6 mil empresários. Sinal de consolidação de um movimento que começou entre grandes multinacionais, principalmente as europeias.

“Historicamente, as empresas europeias foram sempre mais cuidadosas em relação a esses temas do que as americanas ou brasileiras. Por isso, a adesão à sustentabilidade é mais forte entre elas”, avalia Sueli Chiozzotto, consultora em sustentabilidade e sócia da consultoria de negócios MGM Partners de São Paulo.

De forma sintomática, uma das mais recentes e promissoras iniciativas sustentáveis no Brasil foi tomada por uma multinacional não europeia. A General Motors que planeja construir um novo complexo industrial em Joinville, Santa Catarina.  A grande novidade fica por conta de um conjunto de sistemas pioneiros nas áreas de eficiência energética e proteção ao meio ambiente, mais um vasto conjunto de soluções sustentáveis que vão do chão de fábrica até, literalmente, o teto. “Queremos fazer a fábrica da GM mais sustentável de todo o mundo”, projeta Pedro Luiz Dias, diretor de comunicação da GM no Brasil. “Nesse complexo, teremos o que há de mais moderno em termos de sustentabilidade – o que envolve não apenas o conceito de meio ambiente, mas também de qualidade, competitividade e concorrência”.

Bonde seleto

As multinacionais lideram o baile, mas não dançam sozinhas. Algumas empresas locais já começam a seguir as tendências e apostar nas vantagens da “fábrica do futuro”. É o caso da Keko – fundada há 26 anos, na serra gaúcha, ela se tornou líder brasileira em acessórios para personalização de automóveis. Em outubro de 2011, a empresa, antes sediada em Caxias do Sul, concluiu a construção de sua nova sede em Flores da Cunha – resultado de um investimento de R$ 35 milhões. Com uma série de sistemas que otimizam o aproveitamento de luz e ventilação naturais, soluções para tratamento de águas pluviais, utilização de energia solar e tratamento de efluentes, a Keko projeta receber, ainda em 2012, a certificação ISO 14001 – a norma desenvolvida pela International Organization for Standartization para a gestão ambiental.

No entanto, exemplos como o da Keko ainda são raros – e muita gente no Brasil ainda custa a aceitar a ideia de que é possível ser ecologicamente correto sem perder dinheiro. “As empresas brasileiras estão aumentando seus processos de ecoeficiência, mas num ritmo bem menor do que o ideal. Isso ocorre porque só agora o país passa por uma trajetória sustentável de crescimento, o que dá mais segurança para investimentos desse tipo. E foi só nos últimos anos que a oferta de linhas de crédito para iniciativas sustentáveis se tornou palpável”, admite Macedo, do BNDES.

Outra pedra no caminho: é mais fácil construir uma fábrica verde desde a raiz do que tornar mais sustentável uma planta que já está em funcionamento. “Gastar milhões de dólares em sustentabilidade é difícil para a maior parte das indústrias, ainda mais quando a roda já está girando e a fábrica, funcionando”, avalia Fernando de Geus, gerente de responsabilidade social e ambiental da Masisa – outra empresa que vem apostando na ecoeficiência. Sediada no Chile e voltada a produtos de madeira, a companhia trabalha no Brasil, há dez anos, e é referência no reúso de água. Sua unidade em Ponta Grossa (PR) conta com um circuito hídrico fechado – em que toda a água usada no processo produtivo é tratada e reutilizada constantemente, reduzindo a geração dos famigerados efluentes industriais. Em sua unidade em Montenegro (RS), a Masisa desenvolveu outro processo pioneiro: a água é extraída dos restos da própria madeira, matéria-prima de seus produtos (veja mais no quadro abaixo). O resultado dessas iniciativas é o impressionante número zero – a exata quantidade de resíduos geradas por ambas as plantas da Masisa. “As duas fábricas não produzem efluentes. É tudo reciclado”, garante Geus.

Nem todas as companhias têm a oportunidade de construir fábricas inteiramente novas. Para essas, a única alternativa é buscar melhorias incrementais – tal como vem fazendo a Pepsico. “A companhia tem um projeto global de reduzir o uso de combustíveis em 25% em cada unidade de produção, até 2015, além de eliminar todos os resíduos sólidos destinados a aterros sanitários a partir de suas unidades fabris”, diz Cláudia Pires, gerente de sustentabilidade e responsabilidade social da PepsiCo no Brasil. Além disso, várias iniciativas no reúso de água foram lançadas na última década. No Brasil, a Pepsico reduziu seu consumo de água em 32%, entre 2006 e 2008 – o equivalente a 540 milhões de litros. Em toda a América do Sul, a multinacional atingiu em 2011 uma redução de 25%, ou 1,04 bilhão de litros, o suficiente para encher 500 piscinas olímpicas. Em sua planta em Porto Alegre, a Pepsico desenvolveu um sistema de reutilização de resíduos semelhante ao da Masisa – o que, aliado ao reúso da água e de outros processos contra o desperdício, deve levar a uma economia de R$ 705 mil por ano. “Incluir a sustentabilidade em uma planta que já está em operação é, de fato, um desafio. Mas o desafio pode se transformar em impacto financeiro positivo para a indústria e para a sociedade em geral”, avalia Pires.

Para quem ainda não tomou o trem, a estrada rumo à fábrica do futuro começa por uma conhecida máxima do mundo dos negócios: não é possível administrar aquilo que não se mede. As empresas na vanguarda desse movimento começam avaliando a si mesmas por meio dos chamados “ecoindicadores” – parâmetros que mostram exatamente como elas estão se saindo em termos de impacto ambiental. “Os ecoindicadores avaliam e medem o consumo de água, energia elétrica, geração de efluentes e vários outros fatores. Tudo o que podemos medir pode ser melhorado. O uso desses indicadores visa ao aproveitamento total de recursos: o objetivo é não haver nenhuma molécula de desperdício”, explica Calmanovici, da Anpei. Essa fase inicial é delicada: como um paciente no divã ou um fiel no confessionário, a empresa precisa mergulhar numa reflexão que pode ser, muitas vezes, um tanto dolorosa. “A empresa precisa fazer um inventário de seu próprio impacto – sem isso, não adianta fazer mais nada”, explica Brammer, da Wise Waste . “A partir desse inventário inicial, elaboram-se projetos pontuais usando elementos da engenharia de qualidade para atacar, de forma agressiva, os indicadores que estiverem mais afastados do padrão”, diz ele.

Para traçar objetivos, a indústria com aspirações à ecoeficiência terá de se familiarizar com termos como “tecnologia limpa” e “ecologia industrial”. “Tecnologia limpa é uma modificação na técnica de produção para diminuir a emissão de poluentes. Ecologia industrial implica a utilização de resíduos de uma indústria para alimentação de estoques de outras – como acontece com os nutrientes recicláveis nos organismo biológicos”, explica Brammer. De degrau em degrau, a organização pode, enfim, aspirar às desejadas certificações internacionais, como o ISO 14001 e o LEED – Leadership in Energy and Environmental Design, uma certificação para construções sustentáveis criada em 1998 pela ONG americana US Green Building Council. A norma avalia tanto prédios comerciais quanto residenciais e é uma das certificações ambientais mais cobiçadas no mundo.

Os louros do LEED, por sinal, estão entre os prêmios que a GM pretende receber por sua nova planta em Joinville – até hoje, nenhuma unidade da multinacional foi agraciada com a certificação. Caso receba o aval do US Green Building Council, o complexo de Joinville será, oficialmente, um modelo da fábrica do futuro. Entre outras inovações, a planta contará com o primeiro sistema de geração de energia fotovoltaica na indústria automotiva brasileira. “O sistema será composto por 1.280 placas de silício, que ocuparão mais de 2 mil metros no telhado da fábrica. As placas – que estão sendo importadas de Portugal, pois no Brasil ainda não há produção em escala industrial – aproveitam a luz do sol para gerar energia elétrica”, explica Glaucia Volveri dos Santos, gerente de energia e utilidades da GM América do Sul. No total, 300 kW serão gerados diariamente, bem em cima das cabeças do trabalhadores da planta – o suficiente para abastecer 285 casas. A energia gerada vai iluminar a unidade industrial e as áreas administrativas da GM, além de evitar a geração de dez toneladas por ano de dióxido de carbono (um dos gases causadores do efeito estufa). A luz solar também será usada para aquecer a água de 80 casas por dia. A economia de gás natural será de mais de 8 mil metros cúbicos ao ano – o suficiente para evitar a emissão de mais de 17 toneladas de gás carbônico por ano por ano.

Além da utilização da energia solar, o complexo irá inovar na reciclagem da água industrial, com métodos como a osmose reversa – será a primeira unidade do setor, no Brasil, a ter 100% dos resíduos industriais reciclados. As credenciais verdes da fábrica não param aí. O uso de transporte sustentável será incentivado com a instalação de um bicicletário para os colaboradores; todas as torneiras terão sensores para evitar desperdício; haverá sistemas de recolhimento de água da chuva e mais de 500 árvores de espécies nativas serão plantadas no local. “Nós nos preocupamos com a sustentabilidade, inclusive durante as obras, que ainda estão em andamento. Os caminhões, por exemplo, saem da fábrica sem sujeira: temos um sistema de lavagem de caminhões para impedir que pinguem concreto nas estradas e ruas”, conta Glaucia.

Outra novidade fica por conta do tratamento de esgotos, que será feito por um sistema de “jardins filtrantes” altamente sustentável – já que tem baixo consumo de energia e não utiliza produtos químicos. “O esgoto passa por um tratamento inicial para quebrar a carga poluidora e, então, vai para um leito de cascalhos e areia em uma lagoa, onde estão as plantas. São as raízes dessas plantas que fazem o resto da limpeza. A GM já usa esse método na América do Norte, mas é a primeira vez que o aplica na América do Sul”, conta Glaucia. Os jardins, que ocuparão uma área de mais de 3 mil metros quadrados, podem filtrar até 90% dos poluentes. Um equipamento convencional de tratamento de esgotos custaria 40% a mais, gastaria 124 MWh por ano e lançaria cerca de 3,6 toneladas de dióxido de carbono na atmosfera.

Já faz algum tempo, aliás, que a montadora vem adotando medidas para diminuir desperdícios na gestão de seus processos produtivos no Brasil. De 2003 a 2011, a GM obteve uma redução de 64% no uso de água e de 51% no de energia elétrica por veículo produzido. Além disso, cortou em 68% o volume de resíduos não recicláveis gerados por todo automóvel que sai das linhas de montagem. Mas nem tudo é lucro imediato: os investimentos com a fábrica verde ainda levarão um bom tempo para se pagarem. “Mesmo com o sistema fotovoltaico, ainda teremos de completar a energia com o que é fornecido pela rede”, admite Glaucia. “Se fosse uma decisão ligada estritamente ao lucro, não seria viável. Mas foi uma escolha voltada aos objetivos da sustentabilidade”, garante. O preço total dessa escolha: R$ 1 bilhão.

Desnecessário dizer que a maioria das empresas brasileiras não tem todo esse dinheiro sobrando. Para aquelas que, mesmo assim, querem seguir o exemplo da GM, a saída é buscar apoio federal. Não é só com fiscalização que o governo pretende estimular o surgimento de fábricas sustentáveis – mas também com incentivos cada vez mais atraentes. Um desses estímulos é o FundoClima, programa do BNDES criado pelo Ministério do Meio Ambiente, que formou sua primeira carteira no início deste ano. O fundo visa a financiar iniciativas como a implantação de transportes mais eficientes, sistemas de energia renovável, reaproveitamento de resíduos sólidos, restauração de biomas e atividades produtivas sustentáveis.

“Hoje, contamos com R$ 570 milhões para financiamentos desse tipo de projeto – e as condições financeiras do FundoClima são as melhores do BNDES”, diz Macedo, do departamento de meio ambiente do banco. “A taxa de juros é menor e o prazo de pagamento é maior. A regra geral do BNDES é só negociar acima de R$ 10 milhões, mas, nesse caso, abrimos exceções. Para projetos de energias renováveis, o mínimo é de R$ 3 milhões. Para projetos envolvendo carvão vegetal e resíduos sólidos urbanos, é de R$ 5 milhões”.

As alternativas de financiamento reforçam a filosofia da compensação: o dinheiro vem dos royalties que as petrolíferas pagam ao governo pela exploração dos campos no Brasil. “Parte desse montante vai para o Ministério do Meio Ambiente, que repassa uma fatia ao BNDES. Até 6% dos royalties do petróleo podem ser destinados ao FundoClima. Segundo nossos cálculos, dependendo da produção das petrolíferas, o fundo poderá receber até R$ 750 milhões por ano”, diz Macedo.

Foi junto ao BNDES, por sinal, que a Keko buscou parte dos recursos para sua fábrica em Flores da Cunha – o restante veio da Caixa Econômica Federal, do Banrisul e das próprias reservas da empresa. “Desde que foi fundada, em 1986, a Keko sempre viveu de aluguel. Nosso sonho era a casa própria. Quando chegou a hora de construí-la, resolvemos fazer tudo com o menor impacto ambiental possível”, relembra Juliano Mantovani, diretor de mercados, inovação e qualidade da empresa. Além dos sistemas de placas solares e tratamento de efluentes, a planta conta com soluções que otimizam o aproveitamento da luz e da ventilação naturais. Os prédios da fábrica seguem os princípios da arquitetura bioclimática – que utiliza elementos disponíveis na natureza, como vegetação e incidência solar, para reduzir o consumo energético. O resultado disso é que, na maior parte do tempo, não é preciso sequer acender as luzes ou ligar o ar-condicionado da fábrica.

O medo de dar um passo maior que as pernas impede que muitas empresas deem o salto sustentável – mas a experiência de quem já se reciclou pode trazer gratas surpresas. De acordo com a Keko, a aposta na sustentabilidade total não aumentou o gasto das obras. “O custo de uma fábrica verde pode ser o mesmo de uma fábrica normal”, garante Mantovani. “Basta planejar, diminuir alguns luxos e, principalmente, saber o que fazer.” Por enquanto, no Brasil, o exemplo da Keko ainda cai em ouvidos moucos. Os benchmarks da sustentabilidade continuam sendo países como Alemanha, Noruega e Suécia, que levam ao pé da letra o conceito de ecologia industrial. “Nesses países, as fábricas já são instaladas de forma que o resíduo de uma possa virar matéria-prima de outra”, explica Brammer, da Green Business.

O Brasil, contudo, está à frente da China, conhecida por poluir na mesma medida em que produz – ou seja, muito. Em termos potenciais, o Brasil tem (quase) tudo para ser líder em sustentabilidade no mundo. “No aspecto energético, somos o grande destaque mundial. Temos quase metade de energia renovável em nossa matriz, o que é melhor do que qualquer país desenvolvido”, conta Calmanovici, da Anpei. “Além disso, temos 13% da biodiversidade global, uma coisa enorme para um país que tem apenas 3% da população do mundo.” Para aproveitar essa riqueza sem exauri-la, porém, o Brasil precisa avançar em três quesitos: tecnologia, estratégia e inovação. “Precisamos tomar cuidado”, alerta Geus, da Masisa. “No exterior, somos vistos como um país de grande potencial em sustentabilidade – mas que, se não tomar o caminho certo, pode acabar virando uma nova China.”

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Reportagem de José Francisco Botelho, com reportagem de Ricado Lacerda e Andreas Müller.

Fonte: Revista Amanhã.

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