Quem foi sem nunca ter sido

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John Sculley é uma lenda no Vale do Silício por ter transformado a Apple, da qual foi CEO entre 1983 e 1993, numa empresa multibilionária. Mas também carrega o estigma da demissão de Steve Jobs, em 1985, e de um período de pouca criatividade da empresa, que só se tornou novamente inovadora com a volta do fundador, em 1996. Aos 73 anos, Sculley, que viveu no Brasil quando comandava a Pepsi, é hoje um investidor em empresas inovadoras, as chamadas startups. Ele concedeu esta entrevista em São Paulo, onde participou de um seminário. Abaixo, os pontos principais da entrevista.

REVOLUÇÃO DIGITAL: Quando eu estava na Apple, havia apenas duas ou três empregas de tecnologia entre as vinte maiores do mundo. Hoje, são cinco ou seis. Não sabíamos então o que era um e-mail. Computadores ao mesmo tempo poderosos e portáteis, como os tablets, eram inviáveis. Criar uma empresa pioneira, uma startup, exigia milhões de dólares. Hoje, começa-se com uma boa ideia e zero de investimento. O Instagram foi fundado sem um tostão e, em dezoito meses, vendido ao Facebook por 1 bilhão de dólares. A possibilidade de qualquer um criar uma empresa inovadora é a verdadeira revolução digital de nosso tempo. Durante quatro décadas, vivemos sob a Lei de Moore (a previsão feira por Gordon Moore, fundador da Intel, em 1965, de que a capacidade de processamento dobraria sem aumento de custo a cada dois anos se tornou um parâmetro da computação). Podemos esquecê-la. Tanto a multiplicação do processamento quanto a queda dos preços ocorrem agora em ritmo mais acelerado.

STEVE JOBS: O estigma de “o homem que demitiu Jobs” é injusto. Éramos amigos, mas tínhamos conflitos profissionais. O ápice foi quando ele quis focar esforços no recém-lançado Mac. Discordei, pois o grosso do faturamento vinha do Apple II, que, por essa razão, merecia ter nossa atenção. Levei o problema ao conselho de administração da Apple. Os conselheiros decidiram afastar Steve da área do Mac. Ele preferiu, então, se desvincular da empresa. Steve me considerava um irmão e se sentiu apunhalado. Quando ele me convidou para assumir a presidência da Apple, minha primeira reação foi recusar. Eu era presidente da Pepsi e parecia arriscado entrar em terreno novo. Steve, então com 27 anos, me convenceu com a famosa pergunta: “Você quer continuar a vender água açucarada pelo resto da vida ou me ajudará a mudar o mundo?”. Aceitei e ficamos amigos. Passamos cinco meses juntos, num processo de conhecimento mútuo. É natural a dor causada pelo meu papel em seu afastamento. Devia ter dito a ele: “Volte e resgate sua empresa”. Mas não disse. Tive sucesso na Apple. Aumentei o faturamento em 1000%. Mas eu não era um visionário. Estava vendendo produtos já consagrados, sem inovar. Se Steve não tivesse voltado, a Apple teria se esgotado.

PÓS-APPLE: Saí da Apple em 1993 por não concordar com a decisão o conselho de gastar rios de dinheiro na compra de patentes usadas em nossos produtos. Isso realmente quase levou a Apple à falência. Ela só não quebrou porque Jobs voltou em 1996 e tomou as rédeas da empresa. Possuo hoje dinheiro suficiente para não precisar trabalhar, mas tenho prazer no que faço. Tornei-me mentor de empreendedores. Invisto em desenvolvedores da área de saúde, por exemplo. Um deles criou um aplicativo sensacional que monitora o sistema cardiológico à distância. Os médicos ficam sabendo instantaneamente se um paciente está enfartando.

BRASIL: Se fosse consultor de Dilma Rousseff, diria que para o país se tornar um polo tecnológico é preciso que o governo saia da frente das empresas. O excesso de burocracia é um obstáculo em lugares como o Brasil e a Índia. Nos Estados Unidos, cria-se uma startup em um dia. No Brasil, espera-se meio ano. Evidentemente, isso não é um cenário propício ao empreendedorismo. Se eu fosse dar uma dica aos empresários brasileiros, seria: “Aprendam a falhar”. Há gente de talento no Brasil, mas que tem medo de errar. No Vale do Silício, ao contrário, falhas são como medalhas. Eu vi Steve Jobs cometer erros. Nos anos 80, ele não estava preparado para o comando. Mas era um designer incrível, um gênio do marketing e também um visionário. Se os investidores não aceitassem fracassos, hoje não existiria a Apple.

VISÃO DO FUTURO: Após a saída de Steve da Apple, precisávamos inventar algo. Fizemos um tour atrás das melhores inovações em desenvolvimento. Pensei: “Por que não unimos todas elas em um só produto?“. Nasceu o Know-ledge Navigator. Era um dispositivo conceitual, com tela sensível ao toque, acesso à web. e portátil. É o que é hoje o iPad. Como não tínhamos tecnologia para desenvolvê-lo, fizemos um vídeo mostrando como o dispositivo seria em vinte anos. Fomos parar na capa das revistas. O projeto inspirou o Newton (precursor do tablet, lançado em 1993). O Newton não teve sucesso comercial, mas seu processador serviu de base para smartphones e tablets.

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Autor: Filipe Vilicic para a revista Veja.

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