Eleições americanas

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Nasci no Brasil e, educada em Minas, mudei-me para os EUA, onde trabalhei, fiz carreira como professora universitária e me tornei cidadã americana. Tenho dupla cidadania: pago impostos no Brasil e nos EUA e torço para que os dois países me poupem da taxação dobrada, completando um acordo como o que os EUA têm com o Chile.

Ainda mais importante que pagar impostos é ser eleitora nos dois países. Residindo no Brasil, participo das nossas eleições locais e envio por correio meu voto num dos candidatos à presidência dos EUA. Portanto, logo, logo estarei votando aqui e lá.

Lá, minha simpatia sempre se dirigiu aos candidatos democratas e com grande número de pessoas compartilho profunda aversão ao movimento populista conhecido como Tea Party. Mas isso não basta para justificar o meu voto em Barack Obama. Penso nisso depois de ler artigo de David Bromwich, professor de Yale.

Em A Bad President (London Review of Books), Bromwich compara Obama a Woodrow Wilson no retrato que Keynes pintou daquele presidente em As Consequências Econômicas da Paz. No início das negociações, acreditou-se que Wilson havia pensado, com a ajuda de conselheiros, na execução de um novo regime. “Mas na verdade o presidente não havia pensado nada. (…) Ele não tinha nenhum plano, nenhum esquema, nenhuma ideia construtiva para vestir, com a carne da vida, os mandamentos que trovejava da Casa Branca”.

Para Bromwich, Wilson e Obama compartilham uma peculiaridade ímpar do caráter nacional americano: a mistura de altas resoluções e idealismo romântico com a despreocupação de levar a cabo as próprias promessas.

A biografia The Making of the Man, de David Maraniss, descreve os primeiros anos errantes de Obama em companhia da mãe intelectual e fala das instituições de ensino de elite que ele frequentou, sempre com namoradas e amigos brancos. Aos 22 anos, descobrindo a necessidade de adquirir identidade negra quando já sonhava com a presidência, passou a levar sempre consigo uma cópia do Homem Invisível, de Ellison.

Maraniss também se debruça sobre o livro de Obama Dreams from My Father e argumenta que ele retorce os dados da própria infância, empregando uma técnica chamada de backshadowing: a inserção de momentos significativos na fase inicial da trama para apoiar eventos posteriores, um esquema comum a algumas biografias ficcionais. Assim, Obama passa a se ver como a convergência afortunada de forças opostas: “Pego sem uma classe, uma estrutura, ou tradição que me oferecesse suporte, a escolha do caminho estava feita… A única maneira de amenizar meus sentimentos de isolamento era absorver todas as tradições e classes; torná-las minhas, e eu delas”.

Transformando-se na personalidade axial na qual todas as correntes do caráter nacional se cruzam, Obama sente que seu papel é refletir a presença de todos os pontos de vista sem rejeitar nenhum. Discursos e boletins deixam você se perguntando algumas vezes no que ele acredita de fato.

Segundo Bromwich, Obama vê-se como o gênio cuja vocação é a de unir e reconciliar opostos, tendo ecoado muitas vezes o discurso canônico de Lincoln sobre reconciliação. Mas Bromwich sugere que mais adequado aos dias que correm é o discurso da Casa Dividida, em que Lincoln mostrou como e por que a importância da questão da escravidão poderia tornar irreconciliáveis dois lados da sociedade americana.

Obama joga com a suposição de que, tendo raízes em muitos lugares e em classes diferentes, a tradição flui através dele, e ele não pode ser acusado nem de bairrista nem de instrumento de interesses de alguns grupos. Ao atacar Mitt Romney no mês passado, Obama, ao mesmo tempo, tentou satisfazer o preconceito dos republicanos: “Eu não acredito que deveríamos estar no negócio de ajudar as pessoas que se recusam a ajudar a si mesmas. Mas compartilho com o primeiro presidente republicano do meu Estado natal – Abraham Lincoln – a crença de que, através do governo, devemos fazer juntos o que cada um não pode fazer sozinho”.

Em seguida, em vez de atacar o Tea Party (que acredita que a sociedade seria melhor sem governo, exceto pela polícia e as Forças Armadas), preferiu uma linha mais açucarada, em que afirmou que os americanos construíram os EUA juntos: “Juntos, tocamos a superfície da Lua, desvendamos o mistério do átomo, conectamos o mundo através de nossa ciência e imaginação. Não fizemos essas coisas como democratas ou republicanos. Nós as fizemos juntos como americanos”.

“Bem, espere um minuto”, diz Bromwich, “nós não desvendamos o mistério do átomo juntos. Alguns cientistas fizeram isso, com subsídios secretos do governo”. E reclama: “Um político honesto não deve repetir rotineiramente meias-verdades que são mentiras funcionais”.

Para mim, o que houve de mais terrível na atual administração foi a decisão dos assassinatos com drones: o presidente assumiu o poder de julgar sem processo legal e matar quem ele acha que deve morrer. Hoje, por decreto presidencial, conta-se como terrorista qualquer civil afegão em idade de combate morto por estar onde o drone atacou, pois diz o ditado: “Dize-me com quem andas…”.

Deprimente? Sim. E ainda assim voto em Obama. Tenho boas razões. Não posso votar em Mitt Romney e num partido que acredita tanto na guerra como solução para os problemas mundiais quanto na justiça de uma riqueza cada vez mais concentrada na mão dos super-ricos. Os assessores de Romney para a política externa (saídos das fileiras fiéis a Dick Cheney) me causam repugnância e, na área econômica, a ideologia do Partido Republicano forçará seu candidato a adotar políticas regressivas.

Devo confessar que me parece triste essa situação em que ao eleitor cabe apenas a escolha do que ele acredita que virá a ser o menor dos males…

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Autora: Eliana Cardoso. A autora é PHD pelo MIT e professora titular da FGV – São Paulo.

Fonte: O Estado de S.Paulo.

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