A maturidade e cada instante

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Não parece por acaso que a escritora e exilada cubana Zoé Valdés ambientou a saga familiar do romance “A Eternidade do Instante” (2005) entre China e Cuba antes e depois de os dois países sucumbirem ao regime comunista – e a seu fracasso – na segunda metade do século passado. Crítica devotada do regime de exceção de Fidel Castro, desde 1995 ela vive em Paris, mas preocupada com todos aqueles que deixou para trás.

Não há nenhum discurso político direto que pregue algo nesse sentido. Ou, mesmo pelo contrário, nas críticas que seus personagens fazem à degradação que a presença de grandes nações colonialistas europeias provocam na economia e cultura chinesas. Está nas entrelinhas de uma história que atravessa todo o século XX, com ênfase em cinco gerações de uma mesma família, separadas por uma série de circunstâncias – carregadas de simbolismos relacionados à imprevisibilidade dos acontecimentos políticos, sociais e culturais.

O modo que Zoé encontrou para unir dois países tão distantes e distintos é dos mais inusitados, à primeira vista, mas parecem próximos em seu jeito comum de enfrentar as dificuldades. Metade do romance está relacionada à história de um cantor de ópera, Li Ying, que vê como saída para a falta de oportunidade e uma melhor condição de vida seguir os passos de um parente e migrar para Cuba. Antes de embarcar, porém, é assaltado e uma pancada lhe apaga a memória. Mesmo assim, acaba em Havana, onde continua a cantar.

A segunda parte do livro conta a epopeia do seu filho Mo Ying, que parte em busca do pai. Ele migra a pedido da mãe, que teme pelo silêncio do marido depois de anos, mas continua a crer que ele ainda está vivo e impedido de se comunicar com o mundo exterior – numa alegoria ao regime fechado cubano, que nas últimas cinco décadas dividiu e isolou tantas famílias? Tudo leva a crer que sim, nesse jogo bem armado de celebração à família como algo indestrutível que nenhum regime político é capaz de aniquilar, mesmo depois de separá-la. Tudo contado por uma intensa carga poética.

O curioso é que a outra metade começa com um salto na história, no dia em que Mo Ying completa 100 anos. Ele ainda vive em Cuba, sob o nome de Maximiliano Megía. Há 55 anos, vive em silêncio, depois que sua mulher o abandonou com cinco filhos pequenos. Vive agora num cortiço de outra Cuba, empobrecida, barulhenta, caótica, mas com seu estilo peculiar de sobreviver às limitações de um regime político que ainda se impõe pela força.

Nessa volta romântica à Cuba natal, entrelaçada com a história milenar do maior país do mundo e seu modo tão filosófico de tocar a vida, Zoé Valdés faz política de oposição aos irmãos Castro com uma escrita refinada e um talento incomum.

O que impressiona nesse romance quase épico é sua capacidade, na parte inicial, de recorrer a recursos literários orientais com domínio de tantos gêneros, da poesia e do haicai aos romances históricos, com personagens eticamente irretocáveis. Zoé mistura tudo isso com a tradição oral chinesa. A brevidade do tempo que usa para contar histórias de tantas pessoas e épocas fez surgir um emaranhado de criaturas bem elaboradas e cativantes. Com o correr do livro, compreende-se o sentido do título: a maturidade vai fazer Mo Ying perceber que a sabedoria mais importante é simples: cada instante pode guardar uma eternidade, que ficará para sempre na memória. E é preciso, portanto, permanecer atento, pois a felicidade pode se perder nesse momento que se foi.

Fonte:  Gonçalo Junior / Valor Econômico

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