Quando a conta fecha

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Uma turma de bons mestres prova que dá para tornar a matemática atraente sem inventar muito nem gastar mais.

Sempre que surge um indicador que dá a dimensão do atraso brasileiro na matemática, o sinal de alerta reacende. Um novo dado da rede estadual de São Paulo vai a origem do problema. Avaliados em uma prova, os professores da área revelaram lacunas básicas sobre a própria matéria que lecionam: 90% dos 12.000 mestres do ensino fundamental e médio acertaram menos de 60% das questões. O grupo que destoa do lamaçal passou por uma segunda peneira, da qual só sobreviveram mesmo aqueles que, nos últimos três anos, alcançaram bons resultados com seus alunos. É nesse universo dos bem-sucedidos que uma recente pesquisa, feita pela Fundação Victor Civita em conjunto com a Cesgranrio, se concentrou para desvendar os caminhos que conduzem à excelência nessa disciplina tão temida quanto odiada no país. As conclusões não  apontam para nenhuma invencionice no terreno da pedagogia, mas reforçam a ideia de que os bons professores, além de saber do que falam, têm a persistência e a ambição necessárias para deixar a rabeira.

O estudo cala os que se manifestam em prol de mais dinheiro para o ensino alegando que só assim é possível almejar um avanço. Pois, em meio às mazelas de sempre, esses bons professores conseguiram descolar-se da média sem fazer uso de nem um tostão a mais. Para conhecer seus métodos, os pesquisadores gravaram 1.100 horas de aula. Algumas das práticas que os alçaram são bem elementares: planejar a aula, fixar metas, incentivar os alunos a aprender a partir dos próprios tropeços, passar e corrigir a lição de casa. Esses mestres também fornecem pistas sobre como tornar a matéria mais atraente. Na contramão da maioria, eles não se furtam a distinguir os estudantes de acordo com seu nível de conhecimento da matéria, propondo desafios diferentes a cada um — estímulo aos mais atrasados para que não se percam e aos melhores para que disparem. “Se um aluno tem talento, é preciso fazer de tudo para que ele atinja o seu potencial máximo”, reforça o doutor em matemática Jacob Palis. Ele se refere à meritocracia,  conceito já bastante difundido em escolas de países mais ricos e que só agora começa a ser acolhido no Brasil, e com bons resultados.

A experiência em São Paulo enfatiza ainda a eficácia de aliar tecnologia à lição, de forma simples, fazendo uso de softwares e vídeos que ajudam a visualizar gráficos e formas geométricas. Um dos programas favoritos é o que permite às crianças mudar as medidas de um triângulo retângulo verificando que o teorema de Pitágoras sempre se confirma.  O que atrai é a linguagem, com a qual os alunos se identificam prontamente. “A matéria ficou tão divertida que, quem sabe, um dia ainda viro matemática”, diz Izabela Roman, 13 anos. O americano John Allen Paulos escreveu em seu livro Innumeracy (em português,“analfamatismo“): “A matemática deve ser ensinada como uma fantástica ferramenta para enxergar o mundo”. É o que começa a trazer à realidade brasileira esse pequeno grupo de professores de escolas públicas de São Paulo. Eles dão um salto mais do que necessário em um país que precisa cultivar o gosto pelos números para se tomar mais inovador.

Todos saem ganhando

Mais de 30.000 escolas públicas brasileiras já  adotam sistemas que premiam os professores com base no desempenho de seus alunos. É coisa recente, daí saber-se ainda tão pouco sobre seus efeitos.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, se debruçaram sobre a rede estadual de São Paulo, uma das primeiras no país a adotar um regime de meritocracia, em 2008. Ali, as escolas têm metas de aprendizado e, se elas forem atingidas, seus funcionários, incluindo diretores e mestres, são agraciados com um bônus no salário. Quem extrapolar o esperado ganha mais, como no mundo corporativo. O estudo da USP, que investigou os dados da Prova Brasil, aplicada pelo Ministério da Educação (MEC) a alunos de colégios públicos, concluiu que o avanço verificado nas notas é um sinal de que o sistema está funcionando. Diz o economista Luiz Guilherme Scorzafave, coordenador da pesquisa: “O resultado faz refletir sobre a necessidade de propagar esse tipo de iniciativa por todo o país”.

Segundo a escala do MEC que define o aprendizado desejado para o fim de cada ciclo, a evolução dos estudantes em São Paulo na disciplina — registrada em um intervalo de apenas dois anos — equivale a um semestre escolar. O entusiasmo provocado pela política que premia talento e esforço tem seu peso, mas evidentemente não explica tudo. “A meritocracia precisa vir acompanhada de um conjunto de medidas acertadas para realmente transformar uma escola”, observa Maria Helena Guimarães de Castro, diretora da Fundação Seade. Ao contrário do Brasil, onde a ideia de distinguir os melhores sempre esbarrou no corporativismo, os países mais ricos já acolhem há décadas esse princípio. Muitas vezes, os saltos são extraordinários: noutras, os efeitos são ainda tímidos ou não conclusivos o que faz refletir sobre maneiras de aprimorar o sistema. A experiência não deixa dúvida de que só com boas e entusiasmadas cabeças e possível vencer o duro caminho que leva à excelência.

Autora: Helena Borges.

 Fonte: Revista Veja.

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