Sussurros da história soviética

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 Foto mostra ex-ditador russo Josef Stálin em capa de caderno

 

Quando, dois anos atrás, na Amazon, o historiador britânico Orlando Figes admitiu ter escrito resenhas elogiosas de seus próprios trabalhos –e ataques contundentes a rivais–, seus pares ficaram chocados. Foi o caso, especialmente, daqueles cujos trabalhos tinham sido tachados de “pavorosos” ou “densos e pretensiosos”.

Por mais prejudicial tenha sido o caso, não chegou a macular a reputação de Figes de brilhante narrador da história soviética, alguém cujos escritos infundem vida às décadas sofridas durante as quais um povo inteiro foi pulverizado por um líder paranoico.

Agora Figes se envolveu em nova controvérsia sobre suas práticas acadêmicas. Uma editora russa disse que a razão pela qual rejeitou uma tradução de “Sussurros – A Vida Privada na Rússia de Stálin” (Record) foi porque o livro contém imprecisões e erros factuais.

Para produzir sua crônica em 700 páginas da “vida privada na Rússia de Stálin”, Figes encomendou centenas de entrevistas com os parentes de vítimas dos campos de trabalho do Gulag. Mas a editora em Moscou e o historiador que fez algumas das entrevistas afirmam que parte do material foi incorretamente reproduzido.

Embora nenhum dos erros alegados seria visto como especialmente chocante pelo leitor leigo, os russos alegam que a versão apresentada por Figes de alguns dos acontecimentos mais trágicos da história russa causaria sofrimento aos familiares de vítimas do Gulag.

Varvara Gornostaeva, diretora da editora Corpus, disse ao “Guardian” que os problemas surgiram depois de sua empresa ter enviado a tradução russa do livro de Figes para uma checagem pré-publicação pela organização de defesa dos direitos humanos Memorial, que conduziu as entrevistas com familiares de vítimas do Gulag.

“Quando começaram a fazer uma verificação factual, encontraram um número enorme de imprecisões e erros factuais”, disse Gornostaeva. “Eram erros factuais; se não os arrumássemos, isso poderia provocar repúdio sério. Algumas das próprias pessoas em questão ainda estão vivas.”

Ela disse que “arrumar o texto” teria levado até um ano e resultado em um livro diferente.

Figes reconheceu ter cometido vários erros, mas disse que tinha oferecido corrigir qualquer coisa vista como necessária para que o livro pudesse ser lançado na Rússia.

Ele negou que muitas das alegadas imprecisões factuais fossem erros. Algumas, disse Figes, são resultantes da tradução pouco precisa ao russo; outras são uma questão de opinião, devendo “ser sujeitas à discussão normal por especialistas com base em um texto publicado (ao invés de censura anterior à publicação)”.

A disputa entre Figes e os russos foi descoberta inicialmente por dois acadêmicos americanos, Peter Reddaway e Stephen Cohen, ambos historiadores da Rússia comunista, que desde março de 2011 vêm pesquisando o uso feito por Figes de materiais de fonte. Eles publicaram suas conclusões na revista americana “The Nation”.

Lista de erros

Entre os erros mais graves que Figes é acusado de ter cometido estão:

1) Descrever erroneamente Dina Ielson-Grodzianskaia, mãe de dois filhos que foi enviada a um campo de trabalho do Gulag em 1938, como colaboradora, quando não há evidências disso nas entrevistas, segundo Irina Ostrovskaya, arquivista da Memorial que fez a entrevista com a filha de Ielson-Grodzianskaia.

Figes descreveu a prisioneira como uma das presas “de confiança” e disse que ela era autorizada a enviar e receber cartas com frequência, coisa que os outros prisioneiros não podiam.

Ostrovskaya declarou que a alegação constitui “um insulto à memória de uma mulher feita prisioneira”. “Isto é literatura”, ela falou ao “Guardian”. “Mas, para as pessoas envolvidas, são suas vidas. São pessoas falando sobre suas tragédias. Elas sabiam que suas histórias seriam usadas em um livro histórico, mas não podiam imaginar que suas histórias de vida seriam transformadas nesta opereta.”

Figes disse lamentar “quaisquer deturpações que eu possa ter cometido, mas não houve a intenção de ‘insultar a memória’ de ninguém”. Ele se ofereceu a corrigir o texto.

2) Uma frase atribuída a Natalia Danilova, cujo pai foi preso, não aparece na entrevista da Memorial. De acordo com a frase, Danilova teria dito que, com a exceção de uma tia, “o resto de nós só podíamos sussurrar nossa dissensão”. Figes disse que o erro, que ele lamenta, foi fruto de um arquivo anotado que foi posto por um assistente no lugar da cópia original.

Reddaway e Cohen acreditam ter identificado outros erros. Eles citam o caso de um estudante preso, Mikhail Stroikov. Figes escreveu que, pelo fato ter ajudado a família de Stroikov, um amigo então no exílio “foi detido outra vez, encarcerado e mais tarde fuzilado”. Reddaway e Cohen alegam que isso não aconteceu e que o amigo morreu com mais de 90 anos.

Os americanos alegam que o historiador não foi fiel à memória das vítimas de Stálin e que ele denegriu a memória do poeta e editor soviético Alexander Tvardovsky, afirmando que ele teria delatado seu próprio pai para a polícia durante o terror. “A alegação de Figes foi refutada de modo convincente pela imprensa russa”, dizem os dois acadêmicos.

Em carta de abril de 2011 ao agente literário de Figes, Stephen Edwards, Anna Piotrovskaya, diretora-executiva da Dynastia, que é dona dos direitos ao livro em russo, disse que a publicação da versão traduzida ao russo “certamente provocará um escândalo e resultará em numerosas objeções, ou a imprecisões factuais contidas no livro ou às versões deturpadas das transcrições originais das entrevistas, especialmente levando em conta a complexidade e sensibilidade do tema para a sociedade russa”.

De acordo com a carta, o livro “combina materiais de não ficção com interpretações artísticas”.

Figes respondeu: “Não é minha intenção causar ofensa ou deturpar a história dolorosa de qualquer família mencionada em ‘Sussurros’. … Lamento quaisquer deturpações que eu possa ter cometido, mas não houve intenção alguma de insultar a memória de ninguém.”

Fatores políticos

Outra editora, Atticus, abandonou em 2009 os planos de lançar uma versão em russo de “Sussurros”. “O primeiro cancelamento (pela Atticus) foi justificado por razões comerciais, mas eu especulei que houvesse envolvimento de fatores políticos”, comentou Figes.

“O segundo (pela Dynastia) citou cerca de uma dúzia de ‘imprecisões factuais’ e ‘deturpações’. Eu respondi: alguns trechos estavam nas fontes da Memorial, outros são discutíveis ou foram incorretamente traduzidos pela Dynastia, deixando alguns poucos erros genuínos num livro baseado em milhares de entrevistas e documentos de arquivo. Lamento esses erros genuínos.”

Stephen Edwards, o agente literário de Figes, comentou: “Ele (Figes) defende que questões editoriais sejam discutidas reservadamente entre o autor e o editor. Isso teria sido uma maneira mais justa e equilibrada de tratar do assunto.” As alegações chegam em meio a uma batalha politicamente carregada na Rússia em torno do papel de Stálin na história nacional.

Sob Vladimir Putin, o Kremlin vem sendo acusado de minimizar os crimes do ditador nos livros didáticos de história e procurar representá-lo como líder eficaz que industrializou uma União Soviética atrasada e derrotou os nazistas.

“Sussurros”, por outro lado, se propõe a traçar um retrato íntimo do ambiente de medo e terror, especialmente entre as crianças que cresceram sob o domínio de Stálin e cujos pais foram presos e fuzilados, acusados de serem inimigos do povo.

O arquivo da organização Memorial de entrevistas com sobreviventes foi confiscado pela polícia russa no final de 2008. Na época, Figes disse ao “Guardian” que o fato “faz parte de uma luta ideológica mais ampla pelo controle das publicações históricas e do ensino de história na Rússia”.

Figes disse há duas semanas: “Não entendo a razão de esta questão particular ter saído na imprensa um ano mais tarde, precisamente quando tenho um livro novo saindo”.

De acordo com Edwards, “ao receber em 15 de abril uma cópia eletrônica da carta da Dynastia datada de 6 de abril de 2011, Orlando Figes escreveu à Dynastia em 18 de abril, respondendo aos questionamentos específicos feitos e oferecendo-se a cooperar para fazer as ‘revisões’ específicas que ela queria. Voltamos a escrever à Dynastia em 3 de agosto de 2011, anexando outra cópia da carta original de Orlando, e ela ainda não respondeu.”

Alena Kozlova, diretora do arquivo da Memorial, elogiou o texto de Figes, dizendo que faz parte de seu “grande talento” o fato de “ele realmente expor a atmosfera da época a partir destas entrevistas”.

Ela disse ainda: “Não temos queixas a fazer de sua interpretação; esse é seu direito, como autor. O que nos preocupa principalmente é que nossos personagens sejam apresentados com precisão. São pessoas que conhecemos, que ainda vivem.”

Fonte: Robert Booth e Miriam Elder /Guardian, Moscou

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