Opção pela mediocridade

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Se o mundo é dividido entre vencedores e perdedores, estou convicto de que pertencemos ao segundo grupo, pois conforta-nos ser um dos líderes dos últimos em vez de lutar pela liderança do Primeiro Mundo. Ficamos felizes por sediar a Copa de 2014, para gastar o que não temos, em vez de nos angustiar com os 40 ou 50 milhões de brasileiros que vivem sob o guarda- chuva do Bolsa-Família. Ufanamo-nos sem razão de ser um dos integrantes do Brics, mas não nos envergonhamos de ocupar a 75ª posição do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. Enquanto os vencedores concentram no cidadão o objetivo principal da nação – saneamento básico, nutrição da gestante e educação de qualidade, nós convivemos pacificamente com as duas castas socioeconômicas: o privilegiado “andar de cima” e a maioria desesperançada do “andar debaixo”, sem perspectiva de migrar.

Exemplo: para 500 vagas de escriturário no Banrisul com salário de R$ 2.049 mensais, candidataram-se mais de 114 mil pessoas que preferiram ancorar o seu futuro nesse patamar por não deslumbrarem em seu horizonte nada mais do que um futuro medíocre. Enquanto isso, a Petrobras abre vagas para 600 engenheiros, para as quais inscrevem-se centenas de candidatos, mas somente consegue qualificar 200, pois os demais não estão aptos para as funções. O século 21 é designado como do conhecimento, ou seja, estudo, muito estudo, enquanto nós, na busca da mediocridade, contentamo-nos com apenas 200 dias de aula por ano, e 20 a 25 horas semanais de aprendizagem.

Pior do que isto é o currículo reduzido que não prepara o cidadão para o sucesso e o efeito nocivo do alicerce mal construído, o Ensino Fundamental, propaga-se pelo efeito dominó para as classes média e superior. Enquanto o mundo vencedor aumenta os padrões qualitativos do ensinar, nós os afrouxamos nos enganando ao ponto de preferirmos a mediocridade do aprendizado que leva posteriormente ao fracasso dos portadores de “canudos”, rejeitados que são pela exigência do mercado.

Advogados recém formados organizam-se para repudiar os exames da OAB, o mesmo acontece com os médicos recém formados que querem abolir a residência, pois esta revelará os seus defeitos na formação. Enquanto isso, consolamo-nos com o que somos e assistimos sem protestar à anistia de 439 bombeiros do Rio, que cometeram o mais grave pecado contra o primeiro dever do soldado, a disciplina. Teria mais exemplos para adicionar, mas paro por aqui sem entender por que a saúde física e mental do brasileiro e sua educação de qualidade não são prioridades dos governos, sem as quais não haverá uma sociedade mais justa em termos sociais e econômicos. Pergunto: interessa aos demagogos, populistas e às próprias religiões uma sociedade que não tenha os desníveis hoje existentes, que condenam à exclusão social uma grande parcela da sociedade brasileira?

Claro que não, pois o que alimenta a vida desses senhores e fertiliza o seu solo é a pobreza e a miséria.

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Autor: Paulo Vellinho, empresário.

Artigo originalmente publicado no jornal Zero Hora.

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