Para um mundo que não para de falar

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

 

Com que frequência você vive seu momento Charlie Brown? Ou você se sente o próprio, todos os dias? Bem-vindo ao tema do livro de Susan Cain, “O Poder dos Quietos”. Os introvertidos agradecem e, ao final de pouco mais de 300 páginas, podem dormir o sono dos justos e sonhar com pessoas ilustres para se inspirar: Ghandi, Einstein, Chopin, Steven Spielberg, Bill Gates, entre outros. No Brasil, será quase obrigatório lembrar do escritor Luís Fernando Veríssimo, introvertido assumidíssimo.

Entre personagens de cinema, a galeria poderia incluir Michael Corleone, personagem de Al Pacino em “O Poderoso Chefão”. Contrapondo-se a seu irmão mais velho, o extrovertido e falastrão Sonny (James Caan), Michael pensa muito, fala pouco, mas quando age é decisivo e acaba assumindo o lugar do velho Don Corleone (Marlon Brando). Se fosse real, Michael estaria na metade da população americana, que segundo pesquisas mencionadas no livro, vestem o manto da quietude. A boa notícia: ser introvertido não é doença e, portanto, basta aceitar-se assim e saber conviver coma diferença. É o que a autora se propõe ensinar.

Sim, este é um livro de autoajuda, embora pretenda ser crítico ao se referir aos campeões de audiência desse filão que, nos Estados Unidos, movimenta, segundo ela mesma, U$ 11 bilhões por ano. A crítica de Susan é ao conjunto de valores que ela denomina “o ideal da extroversão”. É um filme a que assistimos todos os dias nas empresas. A turma do RH conhece muito bem essa história. É preciso formar novas lideranças e uma das competências mais mencionadas é a habilidade interpessoal. Trabalhar em equipe, tomar decisões rápidas. Já na apresentação do livro, Max Gehringer, colunista e cronista do mundo corporativo, diz: “Ao buscar líderes em seus quadros, a maioria das empresas parece confundir liderança com autopromoção e exuberância”.

É preciso dizer, antes de tudo, que há várias definições para introvertidos e extrovertidos. Segundo a autora, ninguém se encaixa unicamente em uma só categoria. Outra explicação: introvertido e tímido são bichos diferentes. Timidez tem a ver com medo da desaprovação social. Introversão é “ter preferência por ambientes que não sejam estimulantes demais”. Bill Gates, por exemplo, seria um introvertido típico, mas não tímido, porque, aparentemente, pouco se importa com a opinião alheia. Há pelo menos dois capítulos do livro – são 11 ao todo – dedicados aos aspectos biológicos.

Um estudo que Susan menciona mostra ser possível antecipar, pelo comportamento dos bebês, em qual categoria eles se encaixarão quando forem jovens e adultos. Aqueles que reagem mais a estímulos e são inquietos tendem a ser introvertidos. Os bebês menos reativos e mais quietos serão autoconfiantes. Outro estudo mencionado pela autora diz que podemos mudar nossa personalidade até certo ponto. O temperamento inato influencia nossas atitudes por toda a vida. Sejamos pacientes, portanto, com nossas limitações. George Harrison, por exemplo, apelidado de “o Beatle quieto”, nunca teria sido um Mick Jagger, mas mostrou-se feliz enquanto viveu e é respeitado até hoje.

Outra confusão, segundo Susan, é achar que os introvertidos são mais inteligentes que seus opostos. Ela cita uma frase do cientista Albert Einstein, que, apesar da famosa foto com a língua para fora, jogava no time dos quietos: “Não é que sou mais inteligente. É que passo mais tempo com os problemas”. Em outras palavras: 1% de inspiração e 99% de transpiração. A questão, diz a autora, tem a ver com outro aspecto detectado por estudos de universidades americanas. Os introvertidos não chegam à euforia tão facilmente. São menos sensíveis à recompensa do que os extrovertidos. Produzem menos dopamina (neurotransmissor estimulante) e agem movidos mais por ameaças.

O capítulo “Por que Wall Street quebrou e Warren Buffett prosperou” abre um vasto campo para a autora explorar essa teoria. Um parêntesis: em todos os capítulos, há historinhas de personagens e, como todo filme de Hollywood, o bem (introvertidos) sempre vence. No caso do crash das bolsas, o megainvestidor Buffett está para o monossilábico cowboy que Clint Eastwood eternizou no começo da carreira, assim como os extrovertidos “mestres do universo”, das mesas de operações e banqueiros estão para os vilões do diretor Sergio Leone. A área das finanças, segundo Susan, está cheia de exemplos de jogadores que aceleram quando deveriam frear.

O livro vai contra uma corrente que prevaleceu durante muito tempo no mundo corporativo: a aquela que prega a mudança do “eu trabalho” para o “nós trabalhamos” e que recomenda derrubar paredes, acabar com as salas individuais – algo que fez o empresário Ricardo Semler vender milhares de exemplares do livro “Virando a Própria Mesa”, nos anos 1980. Para a autora, “escritórios abertos reduzem a produtividade e enfraquecem a memória”. O excesso de estímulos impediria a aprendizagem. E vai além: reuniões de brainstorming não funcionam.

Susan fala, obviamente, em defesa dos introvertidos. Não que seja contrária a interações no ambiente de trabalho. Mas alerta que é importante refinar o contato interpessoal, em vez de simplesmente avançar. A Microsoft seria um bom exemplo, segundo a autora, porque tem em seus escritórios espaço para todos (introvertidos e extrovertidos), com possibilidade de personalização das salas e até paredes móveis.

Tudo que o livro prega vai na contramão do que os estudantes vivem e aprendem nas universidades de Harvard e Stanford, templos da extroversão, sociabilidade forçada e onde é impossível sobreviver sem o Power Point. As redes sociais, na opinião de Susan, seriam a resposta para esses ambientes competitivos e inibidores de personalidades mais retraídas e contemplativas. O trabalho colaborativo que permitiu a criação da Wikipedia, do sistema Linux, seria representativo dessa nova mentalidade, porque só foi possível com o trabalho solitário de uma rede de introvertidos.

Assim, o caminho da redenção – que e o livro procura indicar – vai em direção a ambientes favoráveis a esse tipo de personalidade. Locais onde haja menos estímulos. Brian Little, ex-professor de psicologia de Harvard, é citado por ter desenvolvido uma teoria, segundo a qual os introvertidos são capazes de vencer barreiras (como fazer uma palestra, por exemplo) desde que haja um bom motivo para isso – por exemplo, necessidade financeira. Em sua proposta de estratégia de sobrevivência, Little recomenda encontrar nichos restauradores. Suas escolhas são peculiares. Nos intervalos de palestras, corre para o banheiro e se tranca em uma das cabines para ficar sozinho até a hora de voltar.

Embora venha obtendo bons resultados de venda, Susan talvez pudesse ter desdobrado a obra em dois volumes. Um deles abrangeria apenas a parte quatro, que é voltada para aspectos de família, relacionamento. O capítulo mais importante desta última parte é o de como educar as crianças. Nele, Susan reproduz conselhos de professores, administradores de escolas, psicólogos infantis. E mostra como é importante respeitar os limites de cada criança e não reprimir ou forçar a barra. Muito útil para pais extrovertidos com filhos introvertidos e vice-versa. Conclusão: coloque sobre eles a luz correta; para uns será a do palco, para outros, bastará uma escrivaninha. E relaxe.

Fonte: Edson Pinto de Almeida | Valor Econômico

 

 

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone