O mapa e o território

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Novo Houellebecq contempla crises de “obsolescência” do homem em meio a rotina saturada de tecnologia. Com sarcasmo e prosa entre o mecânico e o “informativo”, escritor francês constrói livro com “alma”

Há livros que parecem bons, mas não têm alma, e livros que são o oposto disso. Os do autor francês Michel Houellebecq estão mais próximos do segundo grupo, e “O Mapa e o Território” -que conferiu o primeiro Prêmio Goncourt ao autor- não foge a esta regra. Por “alma”, entende-se uma abordagem que não adere à linguagem, às ideias e ao gosto dominantes em sua época.

Houellebecq sempre conseguiu esse efeito de forma paradoxal, com toques de ênfase, sarcasmo e agudez ensaística em meio à mão pesada dos enredos e a uma prosa entre o mecânico e o “informativo”, ambas características dos best-sellers.

Exemplos desse tom não faltam em “O Mapa e o Território”. “Seu trabalho nos últimos seis anos resultara em pouco mais de 11 mil fotos”, diz a narração sobre o protagonista, um artista plástico que contracena com celebridades do mundo real, inclusive o próprio Houellebecq, e termina envolvido num crime rocambolesco.

“Zipadas em formato TIFF, com uma cópia JPG de baixa resolução, cabiam com facilidade em um disco rígido de 640 GB, da marca Western Digital”, completa o narrador.

À medida que a trama se desenvolve, porém, o que de início soa como pastiche de ficção barata, catálogo de galeria ou verbete da Wikipédia -origem das acusações de plágio que o romance sofreu- ganha um caráter mais ambicioso.

O tema é a “obsolescência” do indivíduo em um mundo pós-industrial, saturado de tecnologia e de vazio. E que uniformiza o trabalho, o consumo, as relações amorosas e a arte.

Houellebecq não vê o fenômeno sob ótica nostálgica ou apocalíptica. A abordagem é híbrida, ao mesmo tempo melancólica e satírica, contundente sem ser moralista.

As digressões sobre pintura, sexo, família, dinheiro, política e costumes, numa história que termina com a frase “o triunfo da vegetação é total”, soam tão irônicas e azedas quanto interessadas, vindas de alguém que gosta suficientemente do objeto para se dar ao trabalho de dissecá-lo.

Criar empatia nessa faixa intermediária, que não conta com muletas sentimentais nem ideológicas, não deixa de ser um feito. É o que dá ao leitor uma sensação incomum: a de estar diante de um texto que, à parte seus excessos e gratuidades, jamais se deixa domesticar.

“Fedia um pouco, embora menos do que um cadáver”, é como o autor descreve a si mesmo, em determinada passagem. “As coisas poderiam ser piores, afinal.” Ou melhores, se Houellebecq fosse previsível a ponto de se preocupar com isso.

Fonte: Michel Laub / Folha de S.Paulo

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