No longo prazo, como se sabe, a história será outra

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De que lado Raghuram G. Rajan está? Esta dúvida surgiu nos EUA após a publicação, no segundo semestre de 2010, do seu livro “Linhas de Falha”, um diagnóstico da grande crise de 2008, agora editado no Brasil. Afinal, o economista indiano tem todas as credenciais da respeitabilidade. É alguém, do ponto de vista do que antigamente se chamava de “establishment”, acima de qualquer suspeita. Doutor em economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), foi economista-chefe do FMI entre agosto de 2003 e dezembro de 2006 e possui uma cátedra na Universidade de Chicago. E não apenas engrossa a lista, cada dia mais numerosa, dos que previram o colapso de Wall Street. De fato alertou, já em 2005, para o risco sistêmico em que embarcavam temerariamente os bancos e o governo americanos. Rajan ganhou vários prêmios e é aclamado em toda parte, exceto nos círculos keynesianos. Então, como foi capaz de escrever um livro como “Linhas de Falha”?

O livro contém tal dose de crítica aos políticos, banqueiros e países desenvolvidos em geral que, quando foi reeditado, já no formato de brochura, sem a pompa da capa dura da primeira edição, o professor de Chicago se sentiu obrigado a adicionar um posfácio para se explicar. Nele, se define como um “pragmático” e defende o capitalismo e a democracia, e se mostra contrário a qualquer tentativa mais radical, estatizante ou socializante, de corrigir as causas da crise. Ou seja, Rajan continua no lado onde sempre esteve.

“Linhas de Falha” – termo emprestado da geologia, que designa as rachaduras em que as placas tectônicas colidem entre si, desencadeando terremotos – pegou de surpresa quem esperava uma análise em conformidade e respeito às tradições. Se não pode deixar de ser um livro conservador – Rajan é sacerdote da catedral do monetarismo -, nada tem de convencional. “Se você só tiver tempo de ler com atenção um livro sobre a crise da economia global, esta obra de Raghuram G. Rajan é minha mais forte sugestão”, exagera o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan no prefácio. Mas seria muito proveitoso arrumar um tempo para ler Rajan.

Os nacionalistas ainda orgulhosos dos feitos da superpotência sentiram-se chocados com o alerta de Rajan de que pode estar em curso uma espécie de “brasilização” dos EUA. Essa crise infindável que detonou o sistema financeiro americano, e que agora ameaça fragmentar a unidade monetária europeia, não se amolda aos conhecidos ciclos econômicos recessivos. Os países desenvolvidos estão hoje enfrentando o típico problema que sempre assolou os subdesenvolvidos. Ao enfrentar o desafio de “como gerar um crescimento forte e equitativo sem plantar as sementes da instabilidade”, os americanos já não podem mais bater no peito e assegurar: o Brasil não é aqui. Os EUA estão se dando conta de que a condição de “país desenvolvido” não é eterna. A desigualdade de renda e a polarização cada vez mais extremada entre pobres e ricos fazem com que seja cada vez mais difícil reconstruir o consenso político que sempre esteve na base do crescimento contínuo. A constatação de Rajan: “Os países desenvolvidos estão se transformando, novamente, em países em desenvolvimento!”. O ponto de exclamação é dele.

Os admiradores de carteirinha de Rajan não se surpreenderam com o livro. Não foi a primeira vez que ele estarreceu seus pares. Escorraçado da reunião de Jackson Hole de 2005, montada para incensar a era Alan Greenspan na presença do próprio, por advertir para os perigos do excesso de desregulamentação bancária, para a ilusão do milagre da securitização de ativos e para os riscos do superaquecimento do mercado de crédito de baixa qualidade, Rajan não se intimidou. Ao contrário, as caras feias dos banqueiros centrais e privados reunidos no Wyoming o encorajaram a aprofundar sua análise. Logo percebeu que suas advertências formavam apenas a pontinha de um iceberg colossal. As verdadeiras causas da crise estavam ocultas. Não será suficiente punir banqueiros gananciosos e funcionários públicos negligentes. Não se trata apenas de mais uma crise, semelhante a todas as outras. As linhas de falha que empurram o mundo para o abismo são sistêmicas.

Em seu livro, o economista descreve a tensão em torno das crateras que brotaram na economia mundial desde a década de 1990 e explica como afetam o setor financeiro. A primeira vasta fissura é de natureza política. São as forças políticas que arrocham ou afrouxam os controles sobre os mercados. A segunda nasce dos desequilíbrios comerciais entre os países. A terceira é a forma usada para financiar esses desequilíbrios entre sistemas financeiros distintos, com regulamentações mais ou menos permissivas.

A distorção na linha política se evidencia quando, em vez de atacar estruturalmente a crescente desigualdade de renda nos EUA, os políticos estimulam a criação de instrumentos artificiais para obtenção de crédito. Os números de Rajan falam por si: em 1976, 1% das famílias mais ricas detinha 8,9% da renda total; em 2007, essa participação estava em 23,5%. Como evitar revoltas no resto da população? Empréstimos “Ninja” – “no income”, “no jobs”, “no assets” (sem renda, sem emprego, sem ativos) a juro perto de zero. Escreve Rajan: “Há muito tempo entendemos que não é a renda, mas o consumo que importa”. Essa conduta política de empurrar a conta para a próxima administração encontra, no outro lado da mesa, um setor financeiro sofisticado, competitivo e amoral, disposto a lucrar a qualquer custo. Quem resistiria se os políticos dão uma força? Apenas em 2007, um ano antes da crise, o gestor de fundos de hedge John Paulson embolsou, segundo Rajan, a fábula de US$ 3,7 bilhões.

Os vilões estão todos dentro dos EUA? A estratégia política de anestesiar a população de baixa e média renda com a injeção do crédito sem garantias e refinanciamentos perpétuos só será exequível se os financiadores não estiverem nos EUA. Se estiverem, a inflação explode, o Fed sobe o juro e a festa acaba. Alemanha, Japão e China financiam o superconsumismo americano porque são dependentes das exportações. Sem a voracidade do Ninja americano, a festa vai acabar neles também. Diz Rajan: “Essas nações se tornaram dependentes da demanda externa para tirá-las das depressões econômicas”. É a segunda grande linha de falha.

Como cimentar as rachaduras? As propostas do economista de Chicago – reformas profundas de longo prazo – soam algo burocráticas e prosaicas, demoradas demais para evitar novos abalos. Como o livro saiu em 2010 e está centrado nos EUA, chega a comemorar cedo demais o fato de que as decisões em favor da superabundância de liquidez impediram a repetição da Grande Depressão de 1930, sem prestar quase nenhuma atenção ao que acontecia na Europa.

Fonte: Luiz Sérgio Guimarães / Valor Econômico.

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